Agostinho da Silva faz mais sentido para mim hoje do que fez há uns anos. Talvez seja um pensador para um tempo de crise. Ou talvez seja um pensador para a meia-idade, esse momento em que descobrimos que metade do trajecto está feito e, afinal, não nos valeu assim de tanto ter abdicado da esperança.
Amigos de todas as origens queixam-se de que não telefono nunca e também não escrevo grande coisa. Não preciso. Eles estão sempre presentes. Lembro-me deles, debato com eles, faço planos com eles. Não telefono ou escrevo porque já falo e escrevo de mais. E porque o meu modelo de amizade é de facto a presença: duas pessoas que estão ali, uma ao lado da outra (mesmo que dois mil quilómetros as separem), fazendo-se companhia em silêncio. Não foi isso que a idade nos trouxe – a capacidade de apreciar o silêncio?
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Não sei se os protestos deste diário – ou da parte dele que é publicada semanalmente no “Diário Insular” – tiveram o que quer que seja a ver com isso. O facto é que, depois de muitos anos ao vento e ao frio, ameaçando a saúde dos utentes, a bilheteira de cinema do Centro Cultural e de Congressos mudou efectivamente para o interior do edifício. Se não houver relação, é uma boa decisão. Se houver relação, é uma boa decisão prenhe de humildade. E, em qualquer caso, assim dará sempre gosto contribuir.
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Nasceram as batatas.
É mais do que altura de dizê-lo: tenho vergonha de ter votado em Cavaco Silva para o primeiro mandato; e já nem sinto especial orgulho em haver corrigido o voto para o segundo.
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Mais expressões terceirenses. “Ah, môn, vocês vieram os dois escanchados nessa bicicleta?” “Credo, também não precisas de andar sempre esbragalado…”
“Isto está mau”, dizem-nos todos os dias, na mais banal conversa de circunstância – as caixas do supermercado, a empregada do café, uma vizinha. Aqui também, isto é: está mau. A diferença é que, em Lisboa, fala-se da crise económica. Nos Açores, fala-se da meteorologia. “Isto está mau. O Bodo à porta, as touradas na rua, e uma pessoa nem sequer consegue secar roupa em condições.” Não deixa de ser apaziguador.
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Ontem fui ver a horta do Francisco e voltei cheio de plantios (incluindo amoreiras) e dicas úteis (a policultura, as barreiras aromáticas, os métodos de compostagem). A prova de que sou um agricultor lúdico está aqui: foi com a ideia de ter amoras em Agosto que acordei esta manhã.
Fim-de-semana de horta, de passeios e de paz. Que alívio.
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Resposta da S., a quem pedi uns esclarecimentos sobre geoglifia: “No nosso Planeta está quase tudo por revelar. Mas não conheço céptico nenhum que tenha descoberto alguma coisa.” Ó diabo.
Ou muito me engano, ou encontrámos o lugar ideal para os piqueniques de sábado à tarde. Exige invasão de propriedade alheia, claro. Mas vale cada chumbo.
A Alice Vieira recordou há pouco um poema de Borges, “Os Justos”. E eu gostava que ele fizesse parte deste diário.
“Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que, num café do sul, jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez nem lhe agrade.
Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de um certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Estas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.”
Esta manhã lavei o meu carro à mão. Tinha prometido emprestá-lo a um amigo em férias e lembrei-me de ser poupado. Julgo que não fazia tal coisa há uns dez anos. E, no entanto, com o passar do tempo fui assaltado por uma certa ternura por aquele objecto. Sempre desdenhei de um homem capaz de amar o seu carro. De todas as coisas que tal amor me sugeriu, a boçalidade foi a mais meiga. Mas ali, esfregando e aspirando e polindo o meu velho Chrysler (sim, suponho que um carro com seis anos e tal já seja uma coisa velhíssima), não consegui evitar lembrar-me dos lugares a que ele me levou, das chuvadas de que ele me protegeu, das ideias para livros e para crónicas que tive ao seu volante, dos riscos e mossas que lhe fiz, das vezes que o deixei ser multado e até assaltado. Apeteceu-me pedir-lhe desculpa. E agradecer-lhe. E prometer-lhe que não o empandeirarei como aos outros, em stands de esquina, destinado a alguém que não conhece a sua história. Sim, hoje apeteceu-me coleccionar o meu carro. E isso não deixa de ser uma declaração de amor. A partir de certa idade, é assim que se ama: decidindo guardar para sempre.
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Vamos seguindo a dieta prescrita pela nutricionista. Quisemos viver nos Açores para ter uma vida saudável e, tão certo quanto merecíamos passar os primeiros meses em festa, está na hora de passar à fase seguinte. Atacámo-la com determinação e seguimo-la com rigor. Mas ontem, ao sorver a primeira colherada de um creme de couve-flor com noz moscada, ocorreu-me que “quase” sabia ao caldo de uma certa clam showder (a melhor que comi até hoje, no fundo) que um dia provei no Connecticut, de passagem para Providence. E achei que talvez nem tudo estivesse a correr bem.
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Tendemos a subvalorizar a historiografia popular. Dizem as fontes oficiais que tudo o que Brianda Pereira (1550-1620) fez para se tornar a heroína da ilha Terceira foi pôr-se como doida, aos berros, animando as tropas portuguesas, “com as lástimas que dizia”, para que pelejassem melhor. E eu sei que pode parecer pouco. Mas a mim, pessoalmente, parece-me que um homem, só para não ouvir uma mulher histérica, é capaz de mudar sozinho o destino das nações.
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A alterações previstas para o regime de Mobilidade Especial, como as conhecemos neste momento, estão para lá dos limites. Espero que, além de adaptar a proposta à Constituição da República, o Governo a adapte também ao bom senso, à decência e ao mínimo de humanismo sem o qual um Estado não pode existir. Os funcionários públicos já foram sobrecarregados o suficiente. E, ademais, discutir isto no momento em que se fica a saber que o desemprego subiu para 17,7%, e em que aliás o Executivo reitera a sua determinação de encontrar uma "estratégia de crescimento” que permita combatê-lo com eficácia, é um absurdo.
Escreve Urbano Bettencourt no seu novo “outros nomes outras guerras”:
"Ouves a voz dessa mulher
nos dias que sobram de Setembro:
um rumor solar de asas
vindo de longe
como quem atravessou a harmonia inteira
do mundo.
Ouves a voz vibrando na manhã
e tudo em ti é regresso e onda;
os araçás da infância, os figos,
as sementes onde a vida espera a Primavera,
uma mulher cantando no balcão sobre o mar,
uma ilha defronte.
Onde for o lugar de tudo isto e a memória
desse lugar,
aí encontrarás a raiz exacta das palavras,
a seiva
de que a vida se sustenta."
É tudo isto. E pouco mais – muito pouco mais.
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O meu ateísmo não é uma postura laica: é uma religião, de certo modo uma fé. Não arruma Deus para um canto, num encolher de ombros ultra-racional e depressivo (como o do agnosticismo): procura-o, dirime-o e reconhece a sua criação (criação com "c" minúsculo, eis precisamente o ponto) ao mesmo tempo como a grande tragédia e o mais maravilhoso advento da história da Humanidade. O meu ateísmo respeita Deus e ama grande parte da obra que o Homem lhe devotou, da arte sacra à caridade e da espiritualidade à cultura. Disso devo falar na sexta-feira, no Campus de Angra da Universidade dos Açores. Convidou-me o Tomaz Dentinho, organizador de um ciclo de conferências sobre o tema - e logo me ocorreu para a minha o título "O Cristão Que Há Neste Ateu (E Vice-Versa)". Mas, na verdade, ainda não faço bem ideia do que vou dizer, tão anárquicas e antiacadémicas têm sido as minhas reflexões sobre a matéria. Meto-me em cada uma.
“O romance tradicional morreu”, dizia-me aqui há uns anos o J., na altura meu editor. Queria convencer-me a escrever um romance de género: talvez histórico, preferencialmente thriller. E eu mudei de casa editorial: a minha obsessão era o romance tradicional, e não queria ser editado por quem não acreditasse nele.
Entretanto, aqui há uns meses, em conversa sobre o que pretendia escrever a seguir a “Os Sítios Sem Resposta”, o M. também: “Porque é que não escreves um thriller? Se achas que é mau, até podes assinar com pseudónimo.” E insistiu: “Alternavas: um romance tradicional e um thriller, um romance tradicional e um thriller. Sempre se fez isso…”
Escrever para os jornais é a minha vida e uma paixão desde a infância (literalmente). Mas eu gostava de contemplar um momento, algures no futuro, em que os livros fossem suficientes para pagar as contas cá de casa.
De modo que, admitindo deixar-me persuadir, tenho tentado lê-los, aos thrillers: o Larsson, o Grisham, até o Dan Brown. Ontem à noite adormeci em cima do Nesbo. Adormeço sempre.
Um dos problemas do romance de género contemporâneo é que, em regra, é mais género do que romance. “Guerra e Paz” era um grande romance histórico, “Memórias de Adriano” também. “A Guerra dos Mundos” era um magnífico thriller, “O Espião Que Veio do frio” idem aspas. Mas eram romances. O Larsson talvez seja quase um romance, o Grisham e o Dan Brown e o Nesbo já são remetidos, nas boas livrarias, às prateleiras de “Fiction”, e não de “Literature”.
Ou será arrogância minha, claro. E, no entanto, nenhum projecto literário sobreviveu sem uma certa arrogância, desde logo porque a presunção de iluminar pela literatura está impregnada dela.
Facto: foi pelo género, e não pelo romance, que esta gente enriqueceu (tirando talvez o Larsson, que julgo não ter chegado a morrer rico). No mais, e quanto ao sucesso, romancistas e ficcionistas coincidem numa coisa: só o têm se acreditarem nos livros que escrevem. O leitor sente isso.
Para escrever uma folha de couve, é preciso acreditar na folha de couve. É preciso levar o leitor a acreditar que aquela folha de couve é uma superação. É preciso que o próprio autor acredite que aquela folha de couve é uma superação. E eu tenho esse problema fundamental: independentemente dos meus méritos e deméritos enquanto escritor, não consigo enganar-me a mim próprio sobre o que une e separa a folha de couve e a superação.
Talvez seja melhor leitor do que escritor. E é possível, até, que seja precisamente isso que os meus editores andam a tentar dizer-me. Mas eu nem consigo ler o Nesbo, que aliás nem será propriamente a mais hortícola das folhas. Como poderia escrevê-lo?
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