Quarta-feira, 20 de Agosto de 2014
publicado por JN em 20/8/14

Um tipo aproxima-se da recta final de um livro em que vem trabalhando há quase três anos, começa enfim a vislumbrar os últimos quilómetros de uma maratona que lhe tem custando tanto a percorrer quanto é suposto custar quando os livros têm significado – exausto e instável quando está com as mãos no teclado, cheio de culpa e tão instável como antes quando se permite levantá-las por umas horas –, e de repente como que não quer acabá-lo. Algo dentro dele o trava e o convida ao desleixo e o desafia a ir gozar a vida, o que quer que isso seja. É o momento mais difícil de todos, talvez. Chega a apetecer-lhe o regresso do Inverno, como se os elementos em fúria pudessem ao menos tornar a existência um pouco mais tangível. Há uma intimidade connosco próprios, enquanto escrevemos, que está para além da realização de ter escrito. Chamamos-lhe dor, à falta de melhor palavra. E por que não há-de ser isso o gozar a vida – isso mesmo que, ao fazê-lo, não queremos afinal que acabe?

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Sexta-feira, 15 de Agosto de 2014
publicado por JN em 15/8/14

Escrevo para vários jornais, tenho perfil e página no Facebook, conta no Twitter e até um blog. Gosto de conversar, digo coisas sem pensar e, aliás, mudo frequentemente de opinião sobre aquilo que escrevo porque, tendo pensado cinco vezes, gostaria de ter pensado uma última vez ainda. A reflexão que se impõe é tanto para mim como para os meus colegas do espaço mediático ou o leitor.

Mas impõe-se uma reflexão.

Morreram esta semana dois grandes actores de cinema, uma excelente crítica literária e uma das tutelas da televisão (e da comunicação social) em Portugal – o homem que criou a TSF, lançou a SIC Notícias e operou mais uma série de revoluções das quais nem temos consciência. O país chorou-os a todos de modo mais ou menos igual, como se com todos eles tivesse o mesmo tipo de intimidade – e as televisões, como aliás os jornais, limitaram-se em várias circunstâncias a fazer (escrevo antes da torrente dedicada a Emídio Rangel, mas a tendência vem de trás) um eco acrítico dessas lágrimas.

Todos dizemos tolices nos nossos Facebooks. E talvez todos permitamos, com maior ou menor regularidade, que as tolices que dizemos no Facebook contaminem o nosso trabalho. Mas a folia com que neste momento se brinca ao epitáfio, nas redes sociais como na comunicação social, com cada português, amador ou mesmo profissional, na ânsia de ser autor do primeiro RIP, e depois da elegia mais sentida, é reflexo de uma sociedade ligeira, inculta e irresponsável, se não desprovida de emoções.

Vejo, oiço e leio notícias, reportagens e perfis em que só falta o smiley tristonho ou a expressão: “Como pudeste morrer? Não te perdoo!” Entre isso e um “lol” não vai grande distância. O silêncio seria melhor homenagem. 

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Terça-feira, 29 de Julho de 2014
publicado por JN em 29/7/14
Peçam-me para reduzir este tempo ao seu epítome e não vejo outra coisa senão os caracolinhos do dr. Constâncio, com aquele ar de tio bondoso e suplicante. Que toda esta merda possa ter-lhe passado pelas mãos, sem que por uma só vez se acendesse algures uma luzinha amarela, é totalmente desconcertante. Que no fim o tenham destituído e logo feito dele vice-presidente do Banco Central Europeu é o retrato do verdadeiro estertor de morte de um projecto de civilização. A Europa agoniza por detrás de uns oculinhos à Harry Potter.
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Sexta-feira, 25 de Julho de 2014
publicado por JN em 25/7/14

Outra é essa tontice do "Não sobrevivas, vive!", "Não sobrevivas, vive!" , "Não sobrevivas, vive!" Sempre que subtraímos a necessidade à equação, sobrou o quê além do tédio, de um sensualismo desesperado e, finalmente, da depressão? Viver bem sem necessidade – a necessidade do sustento, a necessidade de nos justificarmos, a urgência de compreender – exige que sejamos uma de duas coisas: totalmente cínicos ou totalmente estúpidos. A estupidez é uma fatalidade, o cinismo não. Pessoalmente, nunca encontrei melhor maneira de viver do que sobrevivendo.

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publicado por JN em 25/7/14

A sério, não importa de que livro se trata. Isto hoje é mato. Como é possível que um romance chegue ao leitor com o nome do protagonista seis vezes repetido em cada página, sem que se tenha chegado a mudar de centro de consciência ou (tantas vezes) sequer de sujeito? Quando vão alguns tradutores perceber que traduzir é conhecer a língua de chegada, nomeadamente naquilo em que é diferente da de partida? Quando vão os revisores perceber que os papa-gralhas automáticos têm cada vez mais opções e que, portanto, só vão continuar a existir se de facto fizerem copying? E quando vão os editores efectivamente fazer editing, como lhes compete? Passamos a vida a deplorar o profissionalismo da indústria da comunicação social, quase sempre com razão. Mas a indústria editorial, infelizmente, não é menos amadora.

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Quarta-feira, 23 de Julho de 2014
publicado por JN em 23/7/14

O Melville faz um ano hoje. Não há ossos de presente nem bolos de aniversário em pele de vaca, que eu ainda não perdi o juízo por completo. Mas o simples facto de saber que ele faz um ano tem um significado em si próprio. Descobrir este cão foi descobrir, para além de um inesperado laboratório literário, uma nova possibilidade de afecto. Não há muitos milagres evidentemente mais admiráveis do que esse.

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Terça-feira, 22 de Julho de 2014
publicado por JN em 22/7/14
Encontrarás sempre uma prova insofismável daquilo em que queres acreditar.
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Domingo, 20 de Julho de 2014
publicado por JN em 20/7/14

Dia maravilhoso, depois, com os sogros e com o bicho. Espraiámo-nos até demasiado tarde na esplanada do Beira-Mar, levámos o Melville a passear pelas estradas à volta dos Viveiros, parámos no Negrito para um mergulho de fim de tarde, passámos nos Silveiras a comprar umas espetadas de cherne e viemos para casa abrir a garrafa de Muros de Magma que, num gesto que jamais poderei agradecer devidamente, a Cooperativa dos Biscoitos nos guardou durante dois anos. É talvez o melhor vinho de mesa da história dos Açores, e só ele já teria resolvido tudo o que da semana pudesse ter restado de lamentável. Mas também é para dias assim, perfeitos, que se vive num lugar destes. De vez em quando, há que preciso exercê-los
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Quarta-feira, 9 de Julho de 2014
publicado por JN em 9/7/14

A Alemanha esmagou o Brasil por 7-1. E porque tirou o pé do acelerador. Para além de todas as circunstâncias, é o melhor futebol do mundo, o da Alemanha. Mais ou menos como escrevi em “Todos Nascemos Benfiquistas (Mas Depois Alguns Crescem)”.

 

***

 

COMPASSO BINÁRIO.

Se de uma pessoa se pode dizer alguma coisa a partir do futebol de que gosta, quero portanto que se saiba isto: que gosto do futebol alemão. Mesmo quando vejo o Sporting defrontar o Bayern de Munique – mesmo aí, proto-hooligan, quero sobretudo ver jogar os alemães. Futebol espanhol, holandês, africano? Equívocos, não mais. Aprecio o futebol argentino pela raça, o futebol inglês pela paixão, o futebol italiano pela segurança. Mas é o futebol alemão que verdadeiramente me encanta. Futebol brasileiro? Para barroco basta-me Bach – e o que quer que venha a seguir é como continuar a comer muito depois de estar satisfeito.

Uma equipa brasileira tem três tempos: defesa, meio-campo e ataque. Uma equipa alemã tem dois, defesa e ataque – ou, mais provavelmente, um só tempo mesmo. Um alemão ataca quando quer preparar a defesa e defende quando quer preparar o ataque – e nem o ataque é a melhor defesa, como proclamam os ingénuos, nem a defesa o melhor ataque, como querem os ressentidos. Ambas as coisas podem ser uma só – todas as coisas juntas como uma só, num movimento de primeira e segunda e terceira e quarta investidas sucedendo-se a um ritmo compassado. Isso nos ensinam os alemães sobre a vida.

Harmonia. Unidade. Inexorabilidade. Eis o que me interessa no futebol: geometria. Comparar o futebol alemão com o futebol brasileiro é como comparar o ‘Matrix’ com a ‘Orquídea Selvagem’:  de um lado um futebol pantomineiro, às arrecuas, encenadíssimo, como se no fundo não tivesse dentro de si próprio uma origem ou um destino; do outro um futebol rectilíneo, rápido e ‘high tech’, sem espartilhos de coreografia – um espectáculo que ocupa todo o palco, alta e baixa ao mesmo nível, o espaço cénico como um só universo repleto e hermético.

A bola não é o centro do futebol alemão? Precisamente. Eu gosto sempre mais do futebol quando este consegue abstrair-se da bola. Olha-se para um jogador alemão a levantar os olhos para a baliza e sabe-se que vai ser golo, esteja a bola onde estiver. E, se não se trata de um alemão, mas apenas de mais um daqueles brasileiros ou paraguaios ou croatas que este mundo pôs agora a circular, tanto melhor: o futebol vira decoração moderna, misturada, tensão, cada peça como uma peça única e irrepetível – vira arte pura.

Vou deixar os génios de lado. Os génios nunca são comparáveis. Pelé, Garrincha ou Ronaldinho, Beckenbauer, Mathäus ou Klinsmann – a esses não se pode compará-los. Mas o facto é que, se vejo os filmes, gosto mais de um golo do meio-campo do Klaus Augenthaler do que de uma sucessão de fintas de Jairzinho. Gosto mais de um livre de Andreas Brehme do que de uma cavalgada do Fenómeno. Mais de um desvio de Klose do que de um vólei de Rivaldo. E gosto mais porque, se o futebol brasileiro se joga com as extremidades, que é onde se concentra a habilidade, o alemão joga-se com o corpo todo, que é por onde circula a alma.

Harmonia, unidade, inexorabilidade. Força e energia, generosidade e calculismo. Geometria, no fundo – e sempre um pouco de cinismo. O Brasil é um dos meus países preferidos. Da Alemanha, nem sequer gosto particularmente. Mas o samba não é a única dança. E eu adoro aquele bailado simples em que a seguir é sempre golo. Mesmo que a bola não entre. Mesmo que não haja bola.

O futebol alemão é o homem a suplantar a sua condição de homem. Não há nada de mais superlativamente humano do que isso.

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Domingo, 15 de Junho de 2014
publicado por JN em 15/6/14

«No segundo dia deu por si de pé no centro do corredor, rodando o olhar entre as divisões que se abriam à sua volta, e julgou perceber melhor a matéria de que era feito o seu povo. Tudo oxidava. Os metais oxidavam, as madeiras oxidavam, as paredes e os tecidos e os objectos oxidavam – e o que não oxidava ressequia ao sol, tombava à fúria do vento ou, sobrevivendo aos abalos de terra, deixava-se corroer pela chuva: primeiro um furinho apenas, provocado por alguma goteira oportunista, e logo um buraco maior, um barranco, uma derrocada.

E, no entanto, havia algo de belo nisso também, como se ao cabo de uma vida um homem pudesse dizer, sem grande esforço metonímico, que as entranhas da terra se revolviam, enfim, no seu próprio estômago. Havia algo de belo nisso, nessa devastação, e André teria tirado ali magníficas fotografias sobre o declínio e a relutância.

O tempo chegaria, pensou José Artur. “O tempo chegará”, repetiu para si próprio, mas na verdade não teve a certeza disso.»

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Domingo, 8 de Junho de 2014
publicado por JN em 8/6/14

«Era uma sexta-feira de Agosto quando José Artur meteu pela primeira vez a chave à porta da casa da infância na qualidade de seu legítimo proprietário. João de Brito quisera passar-lha para as mãos muito antes, no mesmo dia em que se reuniram para acertar os pormenores da transacção, mas ele decidira declinar a oferta.

Ansiava por aquele momento e temia-o ao mesmo tempo. E, de qualquer modo, o advogado tinha direito a despedir-se adequadamente da casa. Fora o seu protector, o homem que voltara atrás para a resgatar, e, agora que chegara o momento de libertá-la, podia muito bem, mesmo não o sabendo ainda, deixar-se a si próprio preso lá dentro.

A memória de José Guilherme podia ser tão poderosa quanto isso, e ademais nunca a gratidão se isentou da sua porção de culpa.»

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Quarta-feira, 4 de Junho de 2014
publicado por JN em 4/6/14

Eu estava guardado para ler isto: Ami James, o rapaz das tatuagens do Rock In Rio, é amplamente referido na imprensa portuguesa como "o artista norte-americano Ami James". Imagino que seja como os nossos pais antigamente diziam dos homens de bons ofícios: aquele gajo é um artista na carpintaria, aquele mecânico em termos de cambotas é um grande artista. Mas, caramba, trata-se de tatuagens — o que é que de mais bimbo este tempo tem para oferecer?

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Domingo, 1 de Junho de 2014
publicado por JN em 1/6/14

Hoje levámos pela primeira vez o Melville à praia. Procurámos um lugar íntimo, só para nós, e imaginámos um cenário totalmente idílico, os dois nadando com placidez, o cão correndo para a água e deslizando ao nosso encontro, borboletas rodeando-nos aos três, numa folia benigna. Resultou no que, provavelmente, era mais razoável esperar: gritos, correrias, arranhadelas - e, no fim, de algum modo que não cheguei a perceber, o cão isolado numa ilha de rocha, trémulo de frio e de medo, mas não o suficiente para resistir ao pitéu de larvas que languesciam sobre um resto de peixe putrefacto. Felizmente, distávamos do automóvel apenas dois quilómetros de rocha irregular e escarpas. E, de qualquer maneira, a Catarina também não gostava assim tanto daquelas sandálias.

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Sábado, 31 de Maio de 2014
publicado por JN em 31/5/14

Morreu a Conceição. Lentamente, vão desaparecendo as minhas referências da Terra Chã. Voltei no limite, mas felizmente ainda a tempo de dar um abraço ao Fernandinho, à Adelina (mais à filha Bárbara, de quem me fiz um dia uma espécie de padrinho ad-hoc) e ao Manuel Aurora. Foi o meu primeiro amigo, o Manuel Aurora, e brindámos ao que a mãe representou sempre para eles: uma mãe até às últimas consequências, apesar da sua pobre instrução. Tivemos uma grande infância, e em parte também por causa dela: nós e ainda o Renato e a Raquel, o Jorge e a Telma. Lembrámo-la durante horas, à infância, e ao fazê-lo também homenageávamos Conceição.

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Quinta-feira, 29 de Maio de 2014
publicado por JN em 29/5/14

A única vez que vi os Rolling Stones ao vivo – sim, eu não me sinto no direito de dizer "Os Stones", não tenho a vossa intimidade –, acabei rodeado por burgueses de 60 anos desertinhos por limpar o pó às ganzas. Achei-os um cliché tremendo e estava mesmo para declará-lo, mas depois as ganzas começaram a rodar e foi-me escasseando o rancor. Não se esteve mal. Da música, não me lembro.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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Os Sítios Sem Resposta
ROMANCE
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"O Citroën Que Escrevia
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"O Terceiro Servo"
ROMANCE
Editorial Presença
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"Banda Sonora Para
Um Regresso a Casa

CRÓNICAS
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"Crónica de Ouro
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OBRA COLECTIVA
Círculo de Leitores
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"Todos Nascemos Benfiquistas
(Mas Depois Alguns Crescem)"

CRÓNICAS
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"José Mourinho, O Vencedor"
BIOGRAFIA
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"Al-Jazeera, Meu Amor"
CRÓNICAS
Editorial Prefácio
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