Terça-feira, 22 de Julho de 2014
publicado por JN em 22/7/14
Encontrarás sempre uma prova insofismável daquilo em que queres acreditar.
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Domingo, 20 de Julho de 2014
publicado por JN em 20/7/14

Dia maravilhoso, depois, com os sogros e com o bicho. Espraiámo-nos até demasiado tarde na esplanada do Beira-Mar, levámos o Melville a passear pelas estradas à volta dos Viveiros, parámos no Negrito para um mergulho de fim de tarde, passámos nos Silveiras a comprar umas espetadas de cherne e viemos para casa abrir a garrafa de Muros de Magma que, num gesto que jamais poderei agradecer devidamente, a Cooperativa dos Biscoitos nos guardou durante dois anos. É talvez o melhor vinho de mesa da história dos Açores, e só ele já teria resolvido tudo o que da semana pudesse ter restado de lamentável. Mas também é para dias assim, perfeitos, que se vive num lugar destes. De vez em quando, há que preciso exercê-los.</div>
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Quarta-feira, 9 de Julho de 2014
publicado por JN em 9/7/14

A Alemanha esmagou o Brasil por 7-1. E porque tirou o pé do acelerador. Para além de todas as circunstâncias, é o melhor futebol do mundo, o da Alemanha. Mais ou menos como escrevi em “Todos Nascemos Benfiquistas (Mas Depois Alguns Crescem)”.

 

***

 

COMPASSO BINÁRIO.

Se de uma pessoa se pode dizer alguma coisa a partir do futebol de que gosta, quero portanto que se saiba isto: que gosto do futebol alemão. Mesmo quando vejo o Sporting defrontar o Bayern de Munique – mesmo aí, proto-hooligan, quero sobretudo ver jogar os alemães. Futebol espanhol, holandês, africano? Equívocos, não mais. Aprecio o futebol argentino pela raça, o futebol inglês pela paixão, o futebol italiano pela segurança. Mas é o futebol alemão que verdadeiramente me encanta. Futebol brasileiro? Para barroco basta-me Bach – e o que quer que venha a seguir é como continuar a comer muito depois de estar satisfeito.

Uma equipa brasileira tem três tempos: defesa, meio-campo e ataque. Uma equipa alemã tem dois, defesa e ataque – ou, mais provavelmente, um só tempo mesmo. Um alemão ataca quando quer preparar a defesa e defende quando quer preparar o ataque – e nem o ataque é a melhor defesa, como proclamam os ingénuos, nem a defesa o melhor ataque, como querem os ressentidos. Ambas as coisas podem ser uma só – todas as coisas juntas como uma só, num movimento de primeira e segunda e terceira e quarta investidas sucedendo-se a um ritmo compassado. Isso nos ensinam os alemães sobre a vida.

Harmonia. Unidade. Inexorabilidade. Eis o que me interessa no futebol: geometria. Comparar o futebol alemão com o futebol brasileiro é como comparar o ‘Matrix’ com a ‘Orquídea Selvagem’:  de um lado um futebol pantomineiro, às arrecuas, encenadíssimo, como se no fundo não tivesse dentro de si próprio uma origem ou um destino; do outro um futebol rectilíneo, rápido e ‘high tech’, sem espartilhos de coreografia – um espectáculo que ocupa todo o palco, alta e baixa ao mesmo nível, o espaço cénico como um só universo repleto e hermético.

A bola não é o centro do futebol alemão? Precisamente. Eu gosto sempre mais do futebol quando este consegue abstrair-se da bola. Olha-se para um jogador alemão a levantar os olhos para a baliza e sabe-se que vai ser golo, esteja a bola onde estiver. E, se não se trata de um alemão, mas apenas de mais um daqueles brasileiros ou paraguaios ou croatas que este mundo pôs agora a circular, tanto melhor: o futebol vira decoração moderna, misturada, tensão, cada peça como uma peça única e irrepetível – vira arte pura.

Vou deixar os génios de lado. Os génios nunca são comparáveis. Pelé, Garrincha ou Ronaldinho, Beckenbauer, Mathäus ou Klinsmann – a esses não se pode compará-los. Mas o facto é que, se vejo os filmes, gosto mais de um golo do meio-campo do Klaus Augenthaler do que de uma sucessão de fintas de Jairzinho. Gosto mais de um livre de Andreas Brehme do que de uma cavalgada do Fenómeno. Mais de um desvio de Klose do que de um vólei de Rivaldo. E gosto mais porque, se o futebol brasileiro se joga com as extremidades, que é onde se concentra a habilidade, o alemão joga-se com o corpo todo, que é por onde circula a alma.

Harmonia, unidade, inexorabilidade. Força e energia, generosidade e calculismo. Geometria, no fundo – e sempre um pouco de cinismo. O Brasil é um dos meus países preferidos. Da Alemanha, nem sequer gosto particularmente. Mas o samba não é a única dança. E eu adoro aquele bailado simples em que a seguir é sempre golo. Mesmo que a bola não entre. Mesmo que não haja bola.

O futebol alemão é o homem a suplantar a sua condição de homem. Não há nada de mais superlativamente humano do que isso.

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Domingo, 15 de Junho de 2014
publicado por JN em 15/6/14

«No segundo dia deu por si de pé no centro do corredor, rodando o olhar entre as divisões que se abriam à sua volta, e julgou perceber melhor a matéria de que era feito o seu povo. Tudo oxidava. Os metais oxidavam, as madeiras oxidavam, as paredes e os tecidos e os objectos oxidavam – e o que não oxidava ressequia ao sol, tombava à fúria do vento ou, sobrevivendo aos abalos de terra, deixava-se corroer pela chuva: primeiro um furinho apenas, provocado por alguma goteira oportunista, e logo um buraco maior, um barranco, uma derrocada.

E, no entanto, havia algo de belo nisso também, como se ao cabo de uma vida um homem pudesse dizer, sem grande esforço metonímico, que as entranhas da terra se revolviam, enfim, no seu próprio estômago. Havia algo de belo nisso, nessa devastação, e André teria tirado ali magníficas fotografias sobre o declínio e a relutância.

O tempo chegaria, pensou José Artur. “O tempo chegará”, repetiu para si próprio, mas na verdade não teve a certeza disso.»

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Domingo, 8 de Junho de 2014
publicado por JN em 8/6/14

«Era uma sexta-feira de Agosto quando José Artur meteu pela primeira vez a chave à porta da casa da infância na qualidade de seu legítimo proprietário. João de Brito quisera passar-lha para as mãos muito antes, no mesmo dia em que se reuniram para acertar os pormenores da transacção, mas ele decidira declinar a oferta.

Ansiava por aquele momento e temia-o ao mesmo tempo. E, de qualquer modo, o advogado tinha direito a despedir-se adequadamente da casa. Fora o seu protector, o homem que voltara atrás para a resgatar, e, agora que chegara o momento de libertá-la, podia muito bem, mesmo não o sabendo ainda, deixar-se a si próprio preso lá dentro.

A memória de José Guilherme podia ser tão poderosa quanto isso, e ademais nunca a gratidão se isentou da sua porção de culpa.»

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Quarta-feira, 4 de Junho de 2014
publicado por JN em 4/6/14

Eu estava guardado para ler isto: Ami James, o rapaz das tatuagens do Rock In Rio, é amplamente referido na imprensa portuguesa como "o artista norte-americano Ami James". Imagino que seja como os nossos pais antigamente diziam dos homens de bons ofícios: aquele gajo é um artista na carpintaria, aquele mecânico em termos de cambotas é um grande artista. Mas, caramba, trata-se de tatuagens — o que é que de mais bimbo este tempo tem para oferecer?

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Domingo, 1 de Junho de 2014
publicado por JN em 1/6/14

Hoje levámos pela primeira vez o Melville à praia. Procurámos um lugar íntimo, só para nós, e imaginámos um cenário totalmente idílico, os dois nadando com placidez, o cão correndo para a água e deslizando ao nosso encontro, borboletas rodeando-nos aos três, numa folia benigna. Resultou no que, provavelmente, era mais razoável esperar: gritos, correrias, arranhadelas - e, no fim, de algum modo que não cheguei a perceber, o cão isolado numa ilha de rocha, trémulo de frio e de medo, mas não o suficiente para resistir ao pitéu de larvas que languesciam sobre um resto de peixe putrefacto. Felizmente, distávamos do automóvel apenas dois quilómetros de rocha irregular e escarpas. E, de qualquer maneira, a Catarina também não gostava assim tanto daquelas sandálias.

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Sábado, 31 de Maio de 2014
publicado por JN em 31/5/14

Morreu a Conceição. Lentamente, vão desaparecendo as minhas referências da Terra Chã. Voltei no limite, mas felizmente ainda a tempo de dar um abraço ao Fernandinho, à Adelina (mais à filha Bárbara, de quem me fiz um dia uma espécie de padrinho ad-hoc) e ao Manuel Aurora. Foi o meu primeiro amigo, o Manuel Aurora, e brindámos ao que a mãe representou sempre para eles: uma mãe até às últimas consequências, apesar da sua pobre instrução. Tivemos uma grande infância, e em parte também por causa dela: nós e ainda o Renato e a Raquel, o Jorge e a Telma. Lembrámo-la durante horas, à infância, e ao fazê-lo também homenageávamos Conceição.

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Quinta-feira, 29 de Maio de 2014
publicado por JN em 29/5/14

A única vez que vi os Rolling Stones ao vivo – sim, eu não me sinto no direito de dizer "Os Stones", não tenho a vossa intimidade –, acabei rodeado por burgueses de 60 anos desertinhos por limpar o pó às ganzas. Achei-os um cliché tremendo e estava mesmo para declará-lo, mas depois as ganzas começaram a rodar e foi-me escasseando o rancor. Não se esteve mal. Da música, não me lembro.

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Quarta-feira, 28 de Maio de 2014
publicado por JN em 28/5/14

A França pôs-se um dia nas mãos de Pétain, mas também acolheu Beckett e Jacques Brel, e quanto a mim não há matéria de desagravo mais merecedora da nossa indulgência. Posto isto, quase todos os sinais que hoje nos chegam da terra de Marianne dão-nos conta de um país confuso, não apenas com a sua posição na Europa e no Mundo, mas também com aquilo que constitui a sua identidade e o distingue. No domingo, nas eleições Europeias, venceu Marine Le Pen, o que de repente traz para o Mediterrâneo a dianteira no recrudescimento de um ódio em que lideravam nórdicos, centro-europeus e países da antiga Cortina de Ferro. Na segunda-feira, e com o beneplácito da federação nacional de futebol, a Adidas pegou no autocarro que transportou a selecção gaulesa em 2010, por ocasião do terrível Mundial da África do Sul, e destruiu-o numa espécie de exorcismo público. É marketing? É marketing, sim senhor. Mas é marketing com recurso à superstição, e a última coisa que se espera da pátria de Sartre e de Foucault é que sirva de propaganda ao obscurantismo, assim como a última coisa que se espera da terra do “Liberdade, Fraternidade, Igualdade” é que sirva de bandeira à xenofobia e ao racismo. Vivemos tempos difíceis de decifrar, mas uma coisa é evidente: o mundo é melhor quando a França é melhor, e o futebol não escapa a isso também. O espectáculo da Adidas foi de um mau-gosto desolador. Já não bastava os novos filmes franceses imitarem todos os de Hollywood?

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Terça-feira, 27 de Maio de 2014
publicado por JN em 27/5/14

O Melville já protege a casa com um certo garbo, e portanto chegou a altura de premiá-lo. Leva a sua primeira placa de Cuidado Com o Cão, em tributo à fera em se se está a tornar. Parabéns, Melville! Melville? Adormeceu...

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Segunda-feira, 26 de Maio de 2014
publicado por JN em 26/5/14

Não votei Marinho e Pinto. Mas só pelo gosto de ver os partidos tradicionais a celebrar vitoriazinhas e até derrotas retumbantes, os políticos-comentadores indignados com o "recrudescimento do populismo" (como se não fossem o seu mais visível efeito) e a elite pátria em geral a tentar perceber onde falharam os seus agentes nas irmandades, nas finanças e nos motéis de borda de estrada – só por isso teria valido completamente a pena. Grandes eleições, eis o que isto foi.

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Quinta-feira, 22 de Maio de 2014
publicado por JN em 22/5/14

Mas "opiniões" como? Como é que isso são "opiniões"? Um homem que disse um dia uma tolice – sei lá: que Ricardo Araújo Pereira está esgotado, que Cristiano Ronaldo é um vaidoso mau de bola, que Jane Austen não passa de uma escritora light – e depois achou que não lhe restava senão defender isso até ao fim, concentrando os protestos da audiência com um misto de garbo e tremor, não é um homem de opiniões: é apenas um tolo. Desta sorte anda o nosso debate público – nos cafés, no Facebook, na televisão, nos jornais mais sérios e nas próprias universidades. Como é que se pode sequer conversar, hoje em dia?

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Quarta-feira, 21 de Maio de 2014
publicado por JN em 21/5/14

Concluída, enfim, a catalogação de notas trazidas das viagens das últimas semanas. “Cerrados” entra na fase final da sua primeira redacção. A luz que brilha ao fundo do túnel, ainda que ténue, é a do prelo. Este romance escreve-se em cinco anos, trabalhando a tempo inteiro. Espero não pagar demasiado caro o facto de tê-lo escrito em três, trabalhando nele apenas metade do dia.

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Domingo, 18 de Maio de 2014
publicado por JN em 18/5/14

Horta sachada. Tomateiros, milho doce, nabos – está tudo viçoso e saudável, apesar da ausência em Lisboa. Os caracóis têm andado no feijão verde e os pombos nas alfaces, mas já foram tomadas medidas. Tudo está bem quando acaba bem.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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Os Sítios Sem Resposta
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"O Terceiro Servo"
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"Banda Sonora Para
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"José Mourinho, O Vencedor"
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"Al-Jazeera, Meu Amor"
CRÓNICAS
Editorial Prefácio
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