Quinta-feira, 24 de Abril de 2014
publicado por JN em 24/4/14

Está montada a horta. Veio cá o Chico Pamplona, para dar uma ajuda, e plantou em três horas o que eu levaria duas semanas a plantar: feijão verde e milho doce com fartura, os inevitáveis tomateiros (a que o Rodrigo vai juntar mais três ou quatro pés de uma espécie maluca, vietnamita ou assim), pimentos, nabos, beterraba muita, muita alface. Ficam a faltar as beldroegas, que vou trazer do Pezinho de Nossa Senhora este fim-de-semana, mais as abóboras, os alhos e pouco mais. A ver se ainda consigo deixar prontas, antes de viajar, as estufinhas e as redes. E assim se dá por iniciada a melhor fase do ano. Em 2015 marco umas férias em Março, para ir espairecer algures. Uf.

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publicado por JN em 24/4/14

Que sentido fazem documentários televisivos sobre o 25 de Abril a partir de entrevistas a dirigentes do Bloco de Esquerda com 14 anos de idade? A extrema-esquerda não é dona do 25 de Abril. Ainda é preciso dizê-lo, e talvez nada demonstre tão bem  que Abril continua por cumprir em pleno.

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Quarta-feira, 23 de Abril de 2014
publicado por JN em 23/4/14

No fundo, é apenas isto. Alguém que escreve diariamente vai a escrever "Se eu tivesse inscrevido o meu nome na lista, talvez tivesse sido seleccionado" e logo se obriga a escrever "Se eu tivesse inscrito o meu nome na lista, talvez tivesse sido seleccionado" – depois vai a escrever "Se a Scarlett Johansson tivesse ganhado um Óscar, tínhamos podido ver mais fotos dela" e logo se obriga a escrever "Se a Scarlett Johansson tivesse ganho um Óscar, tínhamos podido ver mais fotos dela". O mais provável é que as conjugações originais, sendo a certas, não passem no revisor – e, se passarem, lá estará o leitor, sempre judicioso, na caixa de comentários online (quando não os próprios colegas, zangadíssimos, nos grupos de Facebook): "Ganda palhaço! Estes jornalistas são uns grandes ATRASADOS MENTAAAAIS. Não é 'inscrevido' nem 'ganhado', ó FDP!" É metade do retrato de um tempo. A outra metade é o escriba forçar-se a escrever mal só porque já não tem pachorra para insignificâncias.

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Domingo, 20 de Abril de 2014
publicado por JN em 20/4/14

Chovem carroças no dia em que o Benfica vai ser campeão. Uma desgraça nunca vem só.

 

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publicado por JN em 20/4/14

O poema do Rui Cóias, apesar de tudo:

 

“16.

 

O mar invadiu as outras costas, chegou ao centro da ilha. Não sinto.

 

Subiu no nevoeiro pelo lado do vulcão, mas não o sentimos, perto da urze.

 

A chuva vem caindo há semanas inteiras enquanto mordemos o mentastro.

 

Posso agora atenuar a voz, deixá-la junto a ti, para que te acompanhe.

 

Vai depressa. Vai, e se quiseres, perdoa-me. Mas simplesmente

vai e recua apenas o tempo de colher as framboesas.

 

Então perdoa-me.

 

A verdade é que recomeçarei a fuga, traçarei nos mapas o clarão nocturno

e o perigo do arquipélago visível. E tudo o que me resta é sossegar.

 

Farei da memória a função do geógrafo. E adormecerei, despercebido.

 

A minha companhia levar-me-á de porto em porto, até sinal teu já não haver.

 

Hei-de regressar às cidades, mas quando ficarem cobertas de um pó fino.

 

E na enseada do ouvidor, dirão um dia poder encontrar-te em certa ilha

entoando sapateias aos amantes que vieram ouvir a nossa história.

 

Não temo o meu anjo, aguardarei que me chame, até ficar ferido.

 

E haverão de procurar-me no outono e na bagacina, meu amor...”

 

RUI CÓIAS

In “A Função do Geógrafo”

Edições Quasi, Dezembro de 2000

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publicado por JN em 20/4/14

Tudo aquilo sobre que não escrevi nas últimas semanas.

O que verdadeiramente acho sobre o fenómeno Manuel Forjaz, o modo como viveu os seus últimos anos e a maneira como o país, a comunicação social e uma certa classe social os viveram com ele. O jantar com os Capareiras no Ti Choa, numa noite fria, em que a dada altura se levanta o António Pinto da Basto para cantar Sinatra e depois voltamos dois, eu e a Catarina, a ouvir aos berros o “Down To The Waterline”, uma das canções da adolescência que efectivamente ainda se conseguem ouvir. O encontro com Alberto da Ponte em Angra e o almoço com Poiares Maduro em São Mateus. O prémio com que o Jornal da Praia decidiu honrar-me. A impressão de que Março e Abril, com a sua chuva infernal após um Inverno que se julgava vencido, são os melhores meses para um homem se tornar alcoólico. A festa dos 125 anos da Sociedade Recreio dos Lavradores da Ribeirinha e o momento que tive o privilégio de dividir com o Maduro Dias e uns velhotes muito divertidos. A urgência de umas férias, as dificuldades de concentração e os perigos para os prazos do romance. A enchente de Angra no Sábado de Aleluia, com filas de trânsito nas ruas e fila até à porta n o Basílio Simões – tudo para comprar amêndoas de Páscoa e plantios para as hortas domésticas. Os planos para pintar a casa. O poema do Rui Cóias sobre os Açores. O heimlich e o unheimlich. A desilusão em geral e em particular. A gloriosa elaboração da Ana Bárbara sobre o narcisismo dos diálogos de hoje em dia: “Selfie em forma de conversa.” O elucidativo conceito pós-freudiano que o Pereira introduziu ao almoço de ontem, enquanto falávamos precisamente disso: “Investimento narcísico.” A graçola com que, afinal, resolvemos a tarde de má-língua: “Depois olhamos-lhe para o polegar e verificamos, não são alguma surpresa, que é de facto oponível."

Nada disso deixou der selfie também, naturalmente.

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publicado por JN em 20/4/14

Tenho a impressão de que os plantios, este ano, secam no alguidar. Um dia de sol para se poder plantar uma horta - um dia de sol, ao menos!

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Quinta-feira, 17 de Abril de 2014
publicado por JN em 17/4/14

Brilho artístico, perfeição técnica, argúcia emocional e – sim – popularidade. Gabriel García Márquez não foi apenas um escritor: foi uma bênção.  Quem não gostaria de ter sido ele – mesmo que isso implicasse morrer hoje, aqui, agora mesmo?

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Terça-feira, 15 de Abril de 2014
publicado por JN em 15/4/14

Viver fora faz-nos muito açorianos. Viver dentro faz-nos muito portugueses.

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publicado por JN em 15/4/14

A julgar pela comunicação social, pelas entrevistas e pelo marketing da programação cultural, há cinquenta escritores, dois mil músicos, duzentos jornalistas, trinta cineastas e, no total, para cima de dois milhões de portugueses que fizeram o 25 de Abril com as suas próprias mãos. Bate certo: elegeram a Revolução dos Cravos como a data mais importante da História de Portugal e, portanto, estavam a falar de si próprios. Chega a causar-me vómitos. Parte do respeito que devemos aos grandes marcos da nossa luta pela liberdade, o supremo bem da organização social, está na disponibilidade para homenagearmos aqueles que verdadeiramente arriscaram a pele para os consumar. Andar por aí a bater no peito e a gritar "Eu também fiz o 25 de Abril", "Eu saí à rua no 25 de Abril e as minhas palmas foram fundamentais", "Eu tinha vinte anos quando foi o 25 de Abril e, portanto, fui eu que reconstruí este país sobre os escombros da velha senhora" – andar por aí a bater no peito e a gritá-lo é a melhor maneira de reduzir o 25 de Abril a nada. E muito me agradaria dizer que o frenesi em curso é subsidiário deste novo mundo dos reality shows, do voto online e das caixas de comentários dos jornais, em que todos podemos até certo ponto ser pelo menos co-protagonistas de tudo o que nos apatecer. O narcisismo lusitano é mais antigo do que isso e nem sequer se limita à classe média. Provavelmente, explica imensas datas, mas nenhuma daquelas que mais gostaria de explicar.

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Domingo, 13 de Abril de 2014
publicado por JN em 13/4/14

Há coisas que a gente não chega a ler, ou a experimentar, ou mesmo a saber. Nesse caso, já não será mau de todo se soubermos que existem. E, se não soubermos que existem, então ao menos que admitamos a existência de coisas que nós não sabemos que existem e que essas coisas podem ser tão válidas como aquelas que sabemos que existem – expressões de arte, modos de vida, visões do mundo. Cada vez me convenço mais que a esta gradação se reduzem ao mesmo tempo um homem culto e a própria ideia de cultura. Tudo o resto, e independentemente das competências técnicas, é ignorância – sem gradações. No fundo, Sócrates disse tudo.

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Quinta-feira, 10 de Abril de 2014
publicado por JN em 10/4/14

Há poucas coisas tão claramente capazes de me elevar o moral como uma boa ronda de golfe, em boa companhia e com um bom resultado. Hoje foi um desses dias. Houve um tempo em que eu jogava com alguma frequência na casa das setenta pancadas. Com os anos, perdi o rasto ao jeito – perdi o swing, como se diz na gíria – e, inevitavelmente, perdi também um pouco do gosto no jogo. A primeira coisa que me aconteceu ao chegar aos Açores, há ano e meio, foi ver-me detectadas duas epicondilites, uma em cada cotovelo. Nos últimos doze meses, joguei muito pouco. Nos últimos seis, creio que quatro vezes, com bandas elásticas e intervalos para alongamentos – e sempre mal, muito mal ou mesmo terrivelmente. Por isso mesmo o setenta-e-oito de hoje, outrora mais ou menos banal, constituiu milagre. Voltei para casa a cantar odes à minha velha madeira 7 MT MacGregor, um taco de senhora que quando o José Manuel Abad mo ofereceu, comprado por vinte euros nos saldos da Decathlon, já era obsoleto, e a recapitular mentalmente a ronda, a elaborar estatísticas, a anotar o que é preciso melhorar. Fiz três greens a três putts, mas deixei dezoito tee shots jogáveis e catorze no fairway ou no green. Arranquei apenas três greens in regulations – ainda assim em boa parte por causa da MacGregor, que me permite disfarçar o mau jogo de ferros –, mas compensei com cinco up-and-downs, mais os dois dos birdies. Bati trinta e três putts, em todo o caso mais do que nos dias bons dos anos bons, e saí com dois birdies, nove pars, seis bogeys, um duplo-bogey e a vitória no match play. E agora aqui estou, a escrever sobre isso, a lembrar-me de tantos textos que antigamente escrevia sobre a poética e a filosofia daquele que um dia descobri como o mais belo jogo do mundo, tão capaz de nos resgatar um dia como de nos partir o coração – e, enfim, a sentir-me o melhor golfista e o melhor escritor e o melhor amante e o sacana mais perigoso que anda aí. Na verdade, nunca me encantou isso da literatura que se concentra no voo da bola mal batida que nos estraga a tarde, vedando-nos a perfeição e devolvendo-nos a condição humana. Eu sempre gostei foi de jogar bem mesmo.

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Quarta-feira, 9 de Abril de 2014
publicado por JN em 9/4/14

Dói-me o ombro esquerdo a um ponto que quase me impede de trabalhar. Em vez de me pôr a fazer contas a ataques cardíacos, vou à meteorologia e confirmo o que esperava: há 87 por cento de humidade. Tenho uma amiga que diz que o segredo para uma boa saúde é não ignorar os sinais. Pergunto-me como farão os velhos, se já nesta idade um tipo tem todos os dias dores num lugar diferente, ou demasiada fome, ou demasiada sede, ou falta de apetite, ou suores frios. É preciso ser um hipocondríaco para viver até aos oitenta, aparentemente. Mas, nesse caso, e parafraseando a anedota, para que raio há-de um homem querer viver até aos oitenta?

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publicado por JN em 9/4/14

À noite, passámo-la a recolher o vómito do cão. Engolira um toalhete Dodot, de modo que foi preciso dar-lhe água oxigenada e esperar que a natureza operasse a sua obra. O veterinário avisou-nos de que perderia o apetite durante uns dias, mas que no fim tudo ficaria bem. Afinal, bebeu a água oxigenada, vomitou 35 vezes e deitou-se feliz. Esta manhã, comeu tudo e pediu mais. À tarde, fez uma caminhada de cinco quilómetros pelas matas à volta dos Viveiros, tornou a tropeçar em arame farpado e a estatelar-se contra as pedras, afundou-se num lamaçal, foi tomar banho a um tanque onde as vacas bebem água no Verão. A seguir, comeu biscoitos, manteiga de amendoim, tostas. Depois, comeu o jantar todo e agora está ali, do lado de fora da porta, a riscar a tinta com as unhas, porque sabe onde estão os toalhetes Dodot e, aparentemente, ainda não comeu tudo o que tinha a comer hoje.

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Terça-feira, 8 de Abril de 2014
publicado por JN em 8/4/14

Maravilhosa caminhada, à hora de almoço, pela Canada dos Pomares e suas afluentes. A Terra Chã é toda ela um só bosque encantado.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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Os Sítios Sem Resposta
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"O Terceiro Servo"
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