Quinta-feira, 17 de Abril de 2014
publicado por JN em 17/4/14

Brilho artístico, perfeição técnica, argúcia emocional e – sim – popularidade. Gabriel García Márquez não foi apenas um escritor: foi uma bênção.  Quem não gostaria de ter sido ele – mesmo que isso implicasse morrer hoje, aqui, agora mesmo?

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Terça-feira, 15 de Abril de 2014
publicado por JN em 15/4/14

Viver fora faz-nos muito açorianos. Viver dentro faz-nos muito portugueses.

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publicado por JN em 15/4/14

A julgar pela comunicação social, pelas entrevistas e pelo marketing da programação cultural, há cinquenta escritores, dois mil músicos, duzentos jornalistas, trinta cineastas e, no total, para cima de dois milhões de portugueses que fizeram o 25 de Abril com as suas próprias mãos. Bate certo: elegeram a Revolução dos Cravos como a data mais importante da História de Portugal e, portanto, estavam a falar de si próprios. Chega a causar-me vómitos. Parte do respeito que devemos aos grandes marcos da nossa luta pela liberdade, o supremo bem da organização social, está na disponibilidade para homenagearmos aqueles que verdadeiramente arriscaram a pele para os consumar. Andar por aí a bater no peito e a gritar "Eu também fiz o 25 de Abril", "Eu saí à rua no 25 de Abril e as minhas palmas foram fundamentais", "Eu tinha vinte anos quando foi o 25 de Abril e, portanto, fui eu que reconstruí este país sobre os escombros da velha senhora" – andar por aí a bater no peito e a gritá-lo é a melhor maneira de reduzir o 25 de Abril a nada. E muito me agradaria dizer que o frenesi em curso é subsidiário deste novo mundo dos reality shows, do voto online e das caixas de comentários dos jornais, em que todos podemos até certo ponto ser pelo menos co-protagonistas de tudo o que nos apatecer. O narcisismo lusitano é mais antigo do que isso e nem sequer se limita à classe média. Provavelmente, explica imensas datas, mas nenhuma daquelas que mais gostaria de explicar.

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Domingo, 13 de Abril de 2014
publicado por JN em 13/4/14

Há coisas que a gente não chega a ler, ou a experimentar, ou mesmo a saber. Nesse caso, já não será mau de todo se soubermos que existem. E, se não soubermos que existem, então ao menos que admitamos a existência de coisas que nós não sabemos que existem e que essas coisas podem ser tão válidas como aquelas que sabemos que existem – expressões de arte, modos de vida, visões do mundo. Cada vez me convenço mais que a esta gradação se reduzem ao mesmo tempo um homem culto e a própria ideia de cultura. Tudo o resto, e independentemente das competências técnicas, é ignorância – sem gradações. No fundo, Sócrates disse tudo.

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Quinta-feira, 10 de Abril de 2014
publicado por JN em 10/4/14

Há poucas coisas tão claramente capazes de me elevar o moral como uma boa ronda de golfe, em boa companhia e com um bom resultado. Hoje foi um desses dias. Houve um tempo em que eu jogava com alguma frequência na casa das setenta pancadas. Com os anos, perdi o rasto ao jeito – perdi o swing, como se diz na gíria – e, inevitavelmente, perdi também um pouco do gosto no jogo. A primeira coisa que me aconteceu ao chegar aos Açores, há ano e meio, foi ver-me detectadas duas epicondilites, uma em cada cotovelo. Nos últimos doze meses, joguei muito pouco. Nos últimos seis, creio que quatro vezes, com bandas elásticas e intervalos para alongamentos – e sempre mal, muito mal ou mesmo terrivelmente. Por isso mesmo o setenta-e-oito de hoje, outrora mais ou menos banal, constituiu milagre. Voltei para casa a cantar odes à minha velha madeira 7 MT MacGregor, um taco de senhora que quando o José Manuel Abad mo ofereceu, comprado por vinte euros nos saldos da Decathlon, já era obsoleto, e a recapitular mentalmente a ronda, a elaborar estatísticas, a anotar o que é preciso melhorar. Fiz três greens a três putts, mas deixei dezoito tee shots jogáveis e catorze no fairway ou no green. Arranquei apenas três greens in regulations – ainda assim em boa parte por causa da MacGregor, que me permite disfarçar o mau jogo de ferros –, mas compensei com cinco up-and-downs, mais os dois dos birdies. Bati trinta e três putts, em todo o caso mais do que nos dias bons dos anos bons, e saí com dois birdies, nove pars, seis bogeys, um duplo-bogey e a vitória no match play. E agora aqui estou, a escrever sobre isso, a lembrar-me de tantos textos que antigamente escrevia sobre a poética e a filosofia daquele que um dia descobri como o mais belo jogo do mundo, tão capaz de nos resgatar um dia como de nos partir o coração – e, enfim, a sentir-me o melhor golfista e o melhor escritor e o melhor amante e o sacana mais perigoso que anda aí. Na verdade, nunca me encantou isso da literatura que se concentra no voo da bola mal batida que nos estraga a tarde, vedando-nos a perfeição e devolvendo-nos a condição humana. Eu sempre gostei foi de jogar bem mesmo.

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Quarta-feira, 9 de Abril de 2014
publicado por JN em 9/4/14

Dói-me o ombro esquerdo a um ponto que quase me impede de trabalhar. Em vez de me pôr a fazer contas a ataques cardíacos, vou à meteorologia e confirmo o que esperava: há 87 por cento de humidade. Tenho uma amiga que diz que o segredo para uma boa saúde é não ignorar os sinais. Pergunto-me como farão os velhos, se já nesta idade um tipo tem todos os dias dores num lugar diferente, ou demasiada fome, ou demasiada sede, ou falta de apetite, ou suores frios. É preciso ser um hipocondríaco para viver até aos oitenta, aparentemente. Mas, nesse caso, e parafraseando a anedota, para que raio há-de um homem querer viver até aos oitenta?

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publicado por JN em 9/4/14

À noite, passámo-la a recolher o vómito do cão. Engolira um toalhete Dodot, de modo que foi preciso dar-lhe água oxigenada e esperar que a natureza operasse a sua obra. O veterinário avisou-nos de que perderia o apetite durante uns dias, mas que no fim tudo ficaria bem. Afinal, bebeu a água oxigenada, vomitou 35 vezes e deitou-se feliz. Esta manhã, comeu tudo e pediu mais. À tarde, fez uma caminhada de cinco quilómetros pelas matas à volta dos Viveiros, tornou a tropeçar em arame farpado e a estatelar-se contra as pedras, afundou-se num lamaçal, foi tomar banho a um tanque onde as vacas bebem água no Verão. A seguir, comeu biscoitos, manteiga de amendoim, tostas. Depois, comeu o jantar todo e agora está ali, do lado de fora da porta, a riscar a tinta com as unhas, porque sabe onde estão os toalhetes Dodot e, aparentemente, ainda não comeu tudo o que tinha a comer hoje.

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Terça-feira, 8 de Abril de 2014
publicado por JN em 8/4/14

Maravilhosa caminhada, à hora de almoço, pela Canada dos Pomares e suas afluentes. A Terra Chã é toda ela um só bosque encantado.

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Segunda-feira, 7 de Abril de 2014
publicado por JN em 7/4/14

Creio que – agora, sim – começou a Primavera. Compará-la ao regresso à vida não tem nada de metáfora. Nem de hipérbole. Já trabalho no croquis da horta – agora apenas com as espécies de que gostamos e que já provaram frutificar.

 

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publicado por JN em 7/4/14

Há pouco, na Radio Swiss Jazz, passou "My Inspiration". A Kate bordava, o Melville dormia à lareira e eu lia esparramado no sofá, com a cabeça na almofada mais confortável da sala. Pena apenas não ser a versão dos Dixie Gang, com Paulo Gaspar no clarinete. De resto, nenhuma vida é um equilíbrio perfeito, mas não haver paradoxos já será alguma coisa. Se hoje há um paradoxo na minha é, quando muito, esse de que sempre enferma quem se dedica ao trabalho a que eu me dedico. Um escritor deveria saber despir-se das suas opiniões. Idealmente, nem sequer as ter – não aquilo a que verdadeiramente se chama opiniões. Já um cronista vive delas. É este quem paga as contas cá em casa. É aquele que acorda de manhã e adormece à noite, levando-me pelo dia fora. Tenho-me preocupado com isso: o conflito pode às vezes ser paralisante, e tem-no sido alguns dias deste Inverno demasiado longo. Mas também é muitas vezes apenas burguês, pelo que está tudo bem na mesma.

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Quarta-feira, 2 de Abril de 2014
publicado por JN em 2/4/14

É verdade: esse gesto diz mais sobre ele do que sobre ti. Mas também diz alguma coisa sobre ti, não diz? 

Um dia que os filósofos do "Ama-te a ti mesmo" decifrem isto, o consumo de antidepressivos vem por aí acima outra vez. Deus queira que não.

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Domingo, 30 de Março de 2014
publicado por JN em 30/3/14

Vinte anos ontem sobre a morte dele. Vinte anos hoje sobre o funeral. Presente todos os dias, ainda: nos gestos que repito, nos livros que escrevo, nos livros que leio – naquilo que dizemos uns aos outros, naquilo que eu conto à Catarina. O dono desta casa. Para sempre. José Guilherme.

 

"Sentar-me ali, na cozinha, no mesmo lugar onde José Guilherme se sentou a vida inteira. Abrir o jornal da terra e lê-lo de fio a pavio, enquanto a Catarina prepara o jantar. Acabar de comer e continuar ali sentado, a ler ainda: o resto dos jornais do continente, o livro em curso, contos de um amigo que me pede opinião.
A televisão desligada até não ser mais possível.
Esta cozinha.
Nunca tive melhor varanda sobre o mundo do que ela. A distância é uma sabedoria."

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Sexta-feira, 28 de Março de 2014
publicado por JN em 28/3/14
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Quarta-feira, 26 de Março de 2014
publicado por JN em 26/3/14

A ler "O Enredo Conjugal", de Jeffrey Eugenides. A seguir, garantidamente, "Middlesex" – e depois talvez "Virgens Suicidas". Tornei a encontrar autor para me acompanhar durante uns meses.

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publicado por JN em 26/3/14

Hoje era dia de jogar golfe, portanto está a chover. O “portanto” parece abuso, mas num clima destes o solipsismo é um mínimo de sanidade.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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Os Sítios Sem Resposta
ROMANCE
Porto Editora
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"O Citroën Que Escrevia
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CONTOS
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"O Terceiro Servo"
ROMANCE
Editorial Presença
2002
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DIVULGAÇÃO
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"Banda Sonora Para
Um Regresso a Casa

CRÓNICAS
Porto Editora
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"Crónica de Ouro
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"Todos Nascemos Benfiquistas
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CRÓNICAS
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"José Mourinho, O Vencedor"
BIOGRAFIA
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"Al-Jazeera, Meu Amor"
CRÓNICAS
Editorial Prefácio
2003
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