Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012
publicado por JN em 24/1/12

Entendamo-nos: o que incomoda em Fama Show não é a sua montagem tipo videoclip. Nem as suas incursões aos domínios da moda, da música ou do cinema. Nem – muito menos – as suas raparigas, apresentadoras e repórteres, todas lindas. Como lareira, em silêncio, Fama Show não tem, aliás, rival na televisão portuguesa: até em modo pause, parado num só frame, pode ser fulgurante. O problema é o seu conteúdo: todo o seu conteúdo, dos assuntos à forma como são tratados. É o conceito – um conceito tão equívoco e retorcido que vai para além do próprio programa, ou mesmo da TV em geral. Fama Show, como outros formatos do seu género, alimenta-se, com absoluto cinismo, do que de pior a fama tem: a ideia de que se trata de um fim em si própria (ou, vá lá, de um reflexo de si própria). Em Fama Show, regra geral, não se é famoso porque se fez isto ou aquilo: é-se famoso porque se é famoso – e, porque se é famoso, pode-se fazer isto ou aquilo, incluindo “cantar”, “representar” ou “desfilar”. Pois a disseminação dessa ideia precisa de ser regulada. Da mesma forma que a lei impede a publicidade ao tabaco ou a consciência obriga as manequins a avisarem as adolescentes para os riscos da anorexia, a atracção da fama-pela-fama também deveria ser, de alguma maneira, dissuadida. Ela própria é uma anorexia, aliás: uma anorexia intelectual. No meio de tudo isto, que entrevistadoras e entrevistadas olhem a cada instante para a câmara, fazendo beicinhos e olhinhos como se tivessem graça, é só má televisão. Temos tanta que eu nem saberia por onde começar.

Prós & Contras, às sextas-feiras na NTV (com Nuno Azinheira)

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1 comentário:
De Manuel Carvalho a 24 de Janeiro de 2012 às 22:42
Fama Show, para mim, tem um rival à sua altura e que é transmitido à mesma hora na RTP1 - Cinco Sentidos, pelo qual eu costumo optar. Muito menos espampanante e mais coerente. Embora também se mova com "famosos" tudo é tratado com mais descrição e talvez interesse, principalmente, nas entrevistas.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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