Nunca votei em José Sócrates. Vindo da esquerda (esquerda bem esquerdinha, como aliás deve vir qualquer pós-adolescente com coração), fui votando todos os anos um partido mais à direita – e, entretanto, arrastando-me cada vez mais penosamente em direcção às mesas de voto, incapaz de reconhecer qualquer boa-vontade, qualquer altruísmo, qualquer emoção entre essa desengraçada classe que se propõe gerir o nosso património comum.
Este ano, gostava de estar recenseado na Terra Chã, para poder decidir entre o Zé Luís e o Rómulo: entre uma linha mais urbana e outra mais rural, entre a possibilidade de ter à porta uma tourada de fama e a promessa de garantir para os nativos três ou quatro empregos na nova cadeia a construir no fim da freguesia – e, sobretudo, entre o filho do sr. Bretão e o filho do sr. Weber (ou, melhor ainda, entre a educação que o sr. Bretão deu ao Zé Luís e a educação que o sr. Weber deu ao Rómulo, que é aquilo a que cada vez mais acho que as pessoas devem ser reduzidas).
Estando recenseado em Lisboa, resta-me votar em candidatos à Junta que não conheço e em candidatos à Câmara cujas prioridades estão no pólo oposto das minhas (tal como, de resto, já tinha de votar em candidatos a primeiro-ministro em que não me revejo, nem no discurso, nem na pose, nem no trajecto, nem na sensibilidade, nem em nada). No essencial, estou indeciso – e, portanto, lá terei de decidir-me em cima da hora, como se vai tornando habitual. Mesmo assim, Sócrates é que será difícil. Quando Sócrates apareceu, já eu tinha passado por aquela região há algum tempo – e, entretanto, ainda não consegui juntar dois bons argumentos para começar a fazer o caminho inverso.
E que importância tem isto tudo? Bom, nem mais nem menos importância do que saber que há aí pela imprensa um tipo que deixou de fumar, que fez nudismo durante uma tarde, que adora o seu iPhone, que desconfia de Paulo Bento, que come pipocas como um alarve e que deplora dejectos de cão, temas com os quais, no passado, já consegui atarefar-vos durante um bocado.
E, no entanto, há quem o considere o mais importante de tudo: em quem vai votar Joel Neto? Em quem vai votar Paulo Alexandre? Em quem vai votar José Augusto? Em quem irá votar aquele tipo que chamou corruptos aos gajos do BPN? Que camisola veste aquele outro que dispõe de coluna fixa no Expresso? E o que quererá dizer aquele outro ainda que usou a sua coluna no Público para chamar corruptos aos gajos do BPP e, “paradoxalmente”, pedir justiça no caso Casa Pia – quererá ele dizer que vota PS ou PSD, que é de esquerda ou de direita, que está connosco ou contra nós?
Folgo em saber que de bom grado me receberiam na esquerda. Foi o que percebi na semana passada quando, depois de um ano a criticar o abjecto telejornal de Manuela Moura Guedes, me vi de repente no papel de amigalhaço do nosso Primeiro. No telefone e no email, no site e no FaceBook – em todos os canais através dos quais alguém pode insultar-me, elogiar-me ou fazer-me chegar a informação de que me morreu uma tia rica e posso finalmente mandar os deadlines às urtigas, pingaram ao longo de uma semana mensagens de ódio ou afecto a propósito de um texto em que defendia a decisão da TVI. Para muitos, eu era afinal amigo. Para outros tantos, inimigo. Para todos, havia-me posicionado. Havia-me definido.
E eu fiquei estupefacto, porque pensava que seis anos de crónicas e artigos e comentários e críticas – ainda por cima persistindo na ideia de que um homem só pode ser jornalista se for antes um cidadão, e portanto tiver ideias, perspectivas, parcialidades – tinham chegado para definir-me. Afinal, não: faltava o clube. Não o do Sporting e do Benfica – já se sabe que sou do Sporting. Não o do McIntosh e do PC – já se sabe que sou do MacIntosh. Não o do jazz e da clássica – já se sabe que sou do jazz. Não o do ISCSP e da Nova – já se sabe que sou do ISCSP. Simplesmente, é mês de eleições. Faltava a política partidária.
Pois eu acho que este hábito não passa de cobardia: incapacidade de pensar pela própria cabeça – e, entretanto, medo de ser apanhado na curva, pensando uma coisa que mais ninguém pensa. Embora os clubistas da esquerda e da direita se empenhassem em mostrar-me que Manuela Moura Guedes era um problema político, Manuela Moura Guedes nunca passou, para mim, de um problema fundamentalmente jornalístico. Só quando conseguiu dividir ao meio as melhores cabeças deste país se tornou num problema político. E isso tem muito mais a ver com a fragilidade das ditas cabeças do que com a força do dito fenómeno.
CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 12 de Setembro de 2009

