Oito rapazes. Dezasseis canções. Zero peças de roupa. Se algum espectáculo permitiu, para já, que se proclamasse o regresso da rentrée, esse espectáculo foi Rapazes Nus a Cantar, musical em cena no Casino Estoril. E no entanto, désolée les filles, os cantantes desnudos são gays. Não talvez os actores (embora eu duvide de que haja muita gente disposta a pôr as mãos no fogo por eles), mas pelo menos as personagens.
Alguma surpresa? Claro que não. Se os ditos oito rapazes fossem heterossexuais, tudo não passava, bem vistas as coisas, de strip masculino (e, para strip masculino tout court, já basta a vida). Tratando-se de gays, pelo contrário, é arte. “Afastem de mim a nudez gratuita!”, parece, aliás, gritar o encenador Henrique Feist, batendo no peito. “A nudez, aqui, também é metafórica”, diz ele. “Simboliza o quão despidos nos sentimos quando falamos de assuntos como a perda e o amor.”
E eu, que costumo passar o mês de Setembro pelas ilhas, lá tenho de esperar pacientemente por tão transformadora experiência. Pois não demoro: mais uns dias e já estou em Lisboa – e, ao chegar, é atirar as malas para um canto, pegar no automóvel e rumar ao Estoril. Afinal, é Henrique Feist quem me garante: o valor artístico do espectáculo é de tal monta que é bem possível, a certa altura, um espectador dar mesmo por si esquecido de que aqueles rapazes estão nus.
Pois eu quero fazer esse teste: pôr-me ali a olhar para aqueles rapazes nus a cantar, tão-ba-la-lão, tão-ba-la-lão, e entretanto ir pensando no amor e na perda. Se não o conseguir, há sempre alguma coisa que se aprende, até porque se trata de “oito rapazes despidos de preconceitos”, reunidos “num espectáculo sem tabus” onde “ninguém tem nada a esconder”, como me recordaram, ao longo das últimas duas semanas, dezenas e dezenas de reportagens de jornais e revistas.
(“Leve um relógio, para ver quanto tempo os órgãos sexuais masculinos ficam na sua retina”, chegou a arriscar o repórter de um diário nacional, entusiasmado, mas eu prefiro deixar que sejam os médicos a decidir se o problema é mesmo da retina ou se não será, por exemplo, do relógio, alguma cebola a precisar de pilha).
Entretanto, porém, assalta-me a pergunta: mas ainda haverá procura para tanta oferta? Quer dizer: ainda haverá mercado para tanta iconografia gay? Garantem-me uns quantos que sim: que, se alguma coisa contribuiu para uma tão grande sobre-representação da homossexualidade na pintura, na literatura, nas artes de palco e na própria historiografia, foi a gulodice dos heterossexuais pelo tema.
Faz sentido. Na verdade, nunca houve tantos gays na vida real como na arte. Hoje em dia, gostamos muito de dizer que os gregos eram todos homossexuais – e, no entanto, apenas a elite da Pólis exercitava a homossexualidade, que as hordas tinham bem mais com o que se preocupar. O mesmo com os mestres renascentistas e os seus aprendizes, séculos e séculos mais tarde. E o mesmo, de alguma maneira, com os burgueses do bairro Castro, mais uma série de séculos para a frente.
E, todavia, a homossexualidade sempre colheu. Sempre colou. Sempre se fez representar, como se na verdade retratasse uma tendência mais do que minoritária – sempre vendeu a rodos, mesmo havendo apenas meia dúzia de homossexuais por centenas de habitantes.
Pois a minha questão é: continuará a vender? É que, entretanto, houve as paradas gay – e, portanto, hoje em dia já ninguém acredita, no verdadeiro sentido de acreditar, que ser gay efectivamente represente uma virtude. E, entretanto, houve Cristiano Ronaldo também – e, portanto, já toda a gente percebeu que a estética gay, incluindo os brincos de brilhantes e as malinhas a tiracolo e os saquinhos de pano da Calvin Klein e as havaianas brasileiras não são outra coisa senão pinderiquices bregas e deprimentes, vulgo “pimba”.
Por mim, estou pronto a contribuir para uma marcha de orgulho hetero, que aliás faz tanto sentido como qualquer outro orgulho a pretexto de uma simples preferência sexual. Até já tenho uma reivindicação: que haja mais espectáculos com gente nua a cantar – e que, de vez em quando, essa gente possa ser feita de pessoas, não de ícones. Tenho a certeza de que, algures lá pelo meio, alguns rapazes gostarão de raparigas e algumas raparigas retribuirão o amor dos rapazes. No fim, talvez até haja perda – e, então, é bem capaz de haver arte também, para grande surpresa de Henrique Feist.
CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 19 de Setembro de 2009

