Não são propriamente um mistério, as razões por que as sondagens eleitorais falham. As sondagens eleitorais falham porque o objecto das ciências sociais, tal como de resto o seu sujeito, é o homem posto em sociedade – e, como se sabe, não há coisa mais volúvel, volátil e demais qualificativos-graves-usados-como-eufemi
Eu próprio participei, aqui há uns anos, numa macacada dessas. Recrutado como entrevistador no âmbito da cadeira de Introdução à Metodologia das Ciências Sociais, cujo regente era candidato à Câmara de Lagos, rumei ao Algarve numa carrinha apinhada de rapazes e raparigas, que saiu de Lisboa à cinco da tarde e, por volta da meia noite, ainda não tinha passado a Serra do Caldeirão. (Isto antes da auto-estrada, eis como estou velho).
Resultado: foi tão longa a jornada que, à falta de outro entretém, nos apaixonámos todos uns pelos outros ainda antes de chegar a território algarvio. E, se no dia seguinte ainda realizámos alguns inquéritos, depois de uma segunda noite a cirandar entre as diferentes acomodações da residencial já eram tais as pressas e as agendas que, parando nós num café para descansar as pernas entre duas entrevistas, logo saltava de uma janela um mecânico de 45 anos, caía de um telhado um pescador de 39 e irrompia de um bueiro uma escriturária de 52, todos fictícios, mas todos dispostos não só a responder rapidamente ao formulário como, ainda por cima, a votar no adorado professor que nos proporcionava aquela folia.
Nem tudo bateu certo, claro: com mais de 30 por cento de votos no inquérito, o senhor acabou por ficar aquém (salvo erro) dos três por cento nas urnas. Mas lá teve a sua sondagem – e, durante umas semanas, andou feliz. Ele o CDS, o partido por que se candidatava.
Estou a caricaturar? Tudo bem. Por outro lado, as sondagens nunca acertam com a votação do CDS. Nas Legislativas e nas Europeias, nas Autárquicas e nas Regionais – candidate-se o CDS-PP àquilo que se candidatar, não há uma previsão que sequer se aproxime do seu resultado efectivo. E a pergunta é: porque é que, na hora de responderem às sondagens, os portugueses nunca dizem que vão votar no partido de Paulo Portas?
Rodeado de amigos para acompanhar a noite eleitoral na TV, lancei o tema a debate: “Será o quê, malta – será vergonha?” Apareceram várias teses. Numa delas, um bocado teoria-da-conspiração, tudo não passava de uma estratégia montada pelo próprio Portas, que instruía os apoiantes a fingirem-se mortos só para poder declamar, na noite do tira-teimas, um inflamado discurso de vitória. Noutra, é vergonha mesmo: as pessoas vão dizer que votam CDS, mas lembram-se das delicadas posições do partido sobre os imigrantes e do seu constrangedor silêncio a propósito do aquecimento global – e decidem dizer, antes, que vão votar no BE.
Noutra ainda, é tudo a gozar: são os votantes CDS a dizer que vão votar num partido diferente, só para judiarem com os entrevistadores. A minha preferida é aquela em que o cidadão anuncia: “Vou votar CDS-PP”, mas o técnico olha para ele, surpreso, e logo abre um sorriso cúmplice, seguido de palmadinha: “Vá lá, estou a falar a sério…” E há uma em que o diálogo ainda nem sequer acabou (isto hoje, quase uma semana depois das eleições): “Em quem vai votar?” “No CDS.” “Ora, muito bem, mais um para o PS, lá-rá-ri…” “CDS!” “Isso, PS.” “CDS! Eu disse CDS!” “Sim, já percebi, não sou surdo: PS.”
Pois é pena. Ao contrário de ambos os partidos no limite oposto do espectro político (e estes por diferentes razões), o CDS tem provas dadas na estabilização do governo – e em dois períodos históricos distintos. No meio de tanta crise, de tanta chatice e de tanto imposto, dar-lhe a tarefa de fiel da balança da próxima legislatura talvez tenha mesmo sido um gesto de especial sensatez por parte dos portugueses. Por outro lado, deus nos livre de sermos apanhados de caneta na mão, sobretudo antes dos oitenta, a fazer uma cruz à frente de um quadrado azul e amarelo. Os psicólogos haveriam de identificar aqui algum complexo resultante daquilo a que Todorov chamou “memória do mal, tentação do bem”. Pois eu acho que é mais simples do que isso: em política, o bom-senso nunca meteu estilo nenhum.
CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 3 de Outubro de 2009

