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03 Outubro 2009

Não são propriamente um mistério, as razões por que as sondagens eleitorais falham. As sondagens eleitorais falham porque o objecto das ciências sociais, tal como de resto o seu sujeito, é o homem posto em sociedade – e, como se sabe, não há coisa mais volúvel, volátil e demais qualificativos-graves-usados-como-eufemismo-para-o-esdrúxulo-esquizofrénico do que o homem posto em sociedade. De resto, quem quer que tenha tido um papel mais ou menos activo numa sondagem sabe-o bem: os inquiridos mentem um bocado, os inquiridores têm tendência para inventar outro tanto.

Eu próprio participei, aqui há uns anos, numa macacada dessas. Recrutado como entrevistador no âmbito da cadeira de Introdução à Metodologia das Ciências Sociais, cujo regente era candidato à Câmara de Lagos, rumei ao Algarve numa carrinha apinhada de rapazes e raparigas, que saiu de Lisboa à cinco da tarde e, por volta da meia noite, ainda não tinha passado a Serra do Caldeirão. (Isto antes da auto-estrada, eis como estou velho).
Resultado: foi tão longa a jornada que, à falta de outro entretém, nos apaixonámos todos uns pelos outros ainda antes de chegar a território algarvio. E, se no dia seguinte ainda realizámos alguns inquéritos, depois de uma segunda noite a cirandar entre as diferentes acomodações da residencial já eram tais as pressas e as agendas que, parando nós num café para descansar as pernas entre duas entrevistas, logo saltava de uma janela um mecânico de 45 anos, caía de um telhado um pescador de 39 e irrompia de um bueiro uma escriturária de 52, todos fictícios, mas todos dispostos não só a responder rapidamente ao formulário como, ainda por cima, a votar no adorado professor que nos proporcionava aquela folia.
Nem tudo bateu certo, claro: com mais de 30 por cento de votos no inquérito, o senhor acabou por ficar aquém (salvo erro) dos três por cento nas urnas. Mas lá teve a sua sondagem – e, durante umas semanas, andou feliz. Ele o CDS, o partido por que se candidatava.
Estou a caricaturar? Tudo bem. Por outro lado, as sondagens nunca acertam com a votação do CDS. Nas Legislativas e nas Europeias, nas Autárquicas e nas Regionais – candidate-se o CDS-PP àquilo que se candidatar, não há uma previsão que sequer se aproxime do seu resultado efectivo. E a pergunta é: porque é que, na hora de responderem às sondagens, os portugueses nunca dizem que vão votar no partido de Paulo Portas?
Rodeado de amigos para acompanhar a noite eleitoral na TV, lancei o tema a debate: “Será o quê, malta – será vergonha?” Apareceram várias teses. Numa delas, um bocado teoria-da-conspiração, tudo não passava de uma estratégia montada pelo próprio Portas, que instruía os apoiantes a fingirem-se mortos só para poder declamar, na noite do tira-teimas, um inflamado discurso de vitória. Noutra, é vergonha mesmo: as pessoas vão dizer que votam CDS, mas lembram-se das delicadas posições do partido sobre os imigrantes e do seu constrangedor silêncio a propósito do aquecimento global – e decidem dizer, antes, que vão votar no BE.
Noutra ainda, é tudo a gozar: são os votantes CDS a dizer que vão votar num partido diferente, só para judiarem com os entrevistadores. A minha preferida é aquela em que o cidadão anuncia: “Vou votar CDS-PP”, mas o técnico olha para ele, surpreso, e logo abre um sorriso cúmplice, seguido de palmadinha: “Vá lá, estou a falar a sério…” E há uma em que o diálogo ainda nem sequer acabou (isto hoje, quase uma semana depois das eleições): “Em quem vai votar?” “No CDS.” “Ora, muito bem, mais um para o PS, lá-rá-ri…” “CDS!” “Isso, PS.” “CDS! Eu disse CDS!” “Sim, já percebi, não sou surdo: PS.”
Pois é pena. Ao contrário de ambos os partidos no limite oposto do espectro político (e estes por diferentes razões), o CDS tem provas dadas na estabilização do governo – e em dois períodos históricos distintos. No meio de tanta crise, de tanta chatice e de tanto imposto, dar-lhe a tarefa de fiel da balança da próxima legislatura talvez tenha mesmo sido um gesto de especial sensatez por parte dos portugueses. Por outro lado, deus nos livre de sermos apanhados de caneta na mão, sobretudo antes dos oitenta, a fazer uma cruz à frente de um quadrado azul e amarelo. Os psicólogos haveriam de identificar aqui algum complexo resultante daquilo a que Todorov chamou “memória do mal, tentação do bem”. Pois eu acho que é mais simples do que isso: em política, o bom-senso nunca meteu estilo nenhum.

CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 3 de Outubro de 2009

publicado por JN às 23:15
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Sempre que é divulgada uma sondagem, os representantes de cada partido têm quase sempre duas reacções. Se a sondagem lhes é favorável argumentam como válida e daí partem para uma intervenção triunfante. Se a sondagem os prejudica começam por dizer algo do género “ As sondagens valem o que valem”, frase enigmática que permite todas as continuações. Mas se a sondagem lhes é muito desfavorável atiram, com ar superior, o supremo argumento “ A verdadeira sondagem é no dia das eleições”. Poucos são os políticos que encaram a sondagens muito a sério pois apenas se servem delas com esperança que o seu partido suba nas votações e assim possam esgrimir argumentos contra os adversários.
A entrevista em geral é pelo telefone, ao fim da tarde, quando em princípio toda a gente está em casa. Também existe o processo de eleição fictícia, com voto secreto numa urna, em plena rua ou de porta a porta. Mas este processo é muito demorado e portanto mais caro que o telefónico. O problema é que cada vez há mais famílias sem telefone fixo e assim todas estas pessoas saem automaticamente das amostras, isto é, não existem como eleitores, pois as entrevistas só são realizadas nas casas cujos telefones estão numa lista.
O mecanismo das sondagens em Portugal ainda é muito imperfeito. Os clientes são pouco exigentes, as empresas pouco rigorosas, há pouco dinheiro para gastar nas sondagens e no final disto tudo os políticos mais sensatos sabem que as sondagens pouco ou nada influenciam os eleitores. Apenas servem para os habituais fait divers que alimentam as primeiras páginas da imprensa escrita ou os programas de debates nas TV’s.
O CDS que se apresenta como muito "prejudicado" com as sondagens para as Europeias e Legislativas, até Paulo Portas pediu uma audiência ao Presidente da República para tratar do assunto. No entanto até acabou, aparentemente, por ser altamente "beneficiado" o que não deixa de ser uma contraditória ironia!
Manuel da Silva Carvalho a 5 de Outubro de 2009 às 00:40

De facto, quando me disse que ia votar CDS atirei-lhe com aquele olhar reprovador, de censura, mas ela, não se fazendo rogada, lançou rapidamente três, no máximo quatro argumentos para defender o voto.
Afinal há excepções.
Ah, ela tem, se o cálculo não me falha, 47.
Helena a 7 de Outubro de 2009 às 16:36

LOL! A cadeira era Métodos, não seria antes IOP? Quem era o prof, já n me lembro... eu lembro-me que me calhou a freguesia do Campo Grande e fui bater à porta do Mário Soares...
Ricardo Figueira a 8 de Outubro de 2009 às 13:22

Nunca fui entrevistado para sondagens. Votei CDS PP para as legislativas, votarei numa coligação de direita (que inclui o CDS PP) nas autárquicas, e numa sondagem responderia POUS4.

Viva Ermelinda Pereira e o panado de polvo. Viva a liberdade.

RDS
RDS a 8 de Outubro de 2009 às 17:32

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joel neto

Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974. Publicou “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Al-Jazeera, Meu Amor” (crónicas, 2003), “José Mourinho, O Vencedor” (biografia, 2004), "Todos Nascemos Benfiquistas – Mas Depois Alguns Crescem" (crónicas, 2007) e "Crónica de Ouro do Futebol Português" (obra colectiva, 2008). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista, tem trabalhado na imprensa escrita, na televisão e na rádio, como repórter, cronista, comentador, apresentador e autor de conteúdos. (saber mais)
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