Juro-vos: eu não queria escrever esta crónica. Não agora. Malhar nos vegetarianos é tão fácil que chega a ser cobardia – e um homem precisa de ter uma ou duas crónicas cobardes de molho para a eventualidade de, em semana de maior aflição, todas as demais falharem. Mas não resisto. Jornais e televisões, rádios e sites, redes sociais e spamming: toda a gente se esforçou, nos últimos dias, por recordar-me a passagem de mais uma Semana Mundial Vegetariana, incluindo o Dia Mundial do Vegetarianismo. E, portanto, aqui vai. Quem vier atrás que feche a porta. Na verdade, eu estava desertinho.
Assim por alto, devo dizer que acho o vegetarianismo (qual é aquela palavra?) uma idiotice. Tanto quanto sei, a maior parte dos vegetarianos aderiu à moda por razões de natureza (passe a redundância) naturalista. Ora, Deus (ou o Big Bang, ou o demónio, que sei eu?) fez-nos omnívoros, com necessidade de comer um tanto de tudo – e um vegetariano, para poder sobreviver, tem de andar a tomar comprimidos (chamam-lhes “suplementos”, ao que sei) com doses cavalares de ferro, zinco, magnésio, sódio e potássio, entre outros nutrientes em que a carne é rica. Não me parece lá muito (como é que se diz agora?) biológico. Quer dizer: um comprimido com uma dose de vitaminas do complexo B equivalente à de 37 bifes do lombo – parece-lhe natural, isso?
Entretanto, e a acreditar no triunfalismo com que foi assinalado mais um dia mundial da dita religiãozinha, “há cada vez mais portugueses” (é o que leio por todo lado, ipsis verbis) vegetarianos. Vegetarianos ou semi-vegetarianos (também ditos pixo-vegetarianos), que são aqueles que admitem o consumo esporádico de peixe ou marisco – mas que também contam para o campeonato. Acho bem que contem: para mim, não fica ninguém de fora. Não vale a pena sermos fundamentalistas. Sei-o por experiência própria: não é por ter deixado de fumar que me furto a um ou outro bafinho em dia de festa, a uma ou outra cigarrilha em momento de maior loucura – e, no entanto, faço questão de continuar a contar como não fumador (ou, vá lá, pixo-não fumador).
De qualquer maneira, não é apenas por dedução que se diz que os vegetarianos têm aumentado entre nós. De facto, Portugal está um rectangulozinho cada vez mais tonto – e, portanto, o mais natural é que tenha mais vegetarianos também. Mas há igualmente dados estatísticos. Segundo um inquérito online conduzido pelo insuspeito Centro Vegetariano, aliás, os devoradores de vegetal podem mesmo atingir, por esta altura, cerca de 40% da população portuguesa. Pronto, pronto, não devemos acreditar em todas os inquéritos online. Da última vez que levámos em linha de conta um inquérito online, já andávamos a apregoar que a taróloga Maya (que saudades eu tinha de citar a taróloga Maya) era a portuguesa mais sexy, esquecendo-nos de que ainda existe a senhora dona Júlia Pinheiro. Mas, quer dizer, sempre hão-de querer dizer alguma coisa, estes inquéritos.
E os resultados, apoiados em 589 respostas de portugueses e portuguesas, trazem-nos algumas conclusões expectáveis e outras tantas (rufem os tambores) impressionantes. Motivos ético-filosóficos, motivos de saúde, mesmo simples motivos económicos – as razões que levam as pessoas ao vegetarianismo são da mais diversa ordem. Mas eu permito-me destacar um dado: aquele que diz que, em cada 100 portugueses vegetarianos, 26 são-no por “razões espirituais”. É um número inesperado – e que, tanto quanto sei, surpreendeu o próprio Centro Vegetariano. Mas, enfim, talvez não tenha sido muito sensato despachar o inquérito quase todo nas lojas de mobiliário da Almirante Reis (sobretudo sem o cuidado de sublinhar que estavam em causa todos os tipos de carne, não apenas a de vaca).
E, pronto, assim se passou mais um dia mundial: o dia mundial que recordarei para sempre como aquele em que descobri que até para gatos já há comida vegetariana. Entretanto, porém, fiquei com uma dúvida. Perdão, duas. Primeira: se ninguém comesse carne, será que continuaríamos a criar vacas, ou deixaríamos simplesmente extinguir a espécie? Segunda: e, se ninguém comesse carne e a criação continuasse, não se tornariam as vacas tantas (e, aliás, tão pouca a relva, ainda por cima disputada connosco) que não lhes restaria outra solução senão tornarem-se carnívoras, acabando, então sim, por serem elas a devorarem-nos a nós? Bom, nesse caso, não será boa ideia deixar amaricar os gatos: vamos precisar de tantos aliados quanto pudermos arranjar , que a guerra prevê-se dura.
CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 10 de Outubro de 2009

