Sou um homem de sorte: todas as semanas recebo emails de leitores, uns furiosos e outros exultantes com aquilo que escrevi. Os furiosos costumam ser em maior número, mas penso que isso é normal: nós somos quase sempre mais enfáticos quando estamos contra – e há que reconhecer que, para alguém se dar ao trabalho de ligar um computador e articular um texto em defesa de determinada posição, ainda por cima sabendo que em princípio ele só será lido por uma pessoa, é precisa uma dose de perplexidade que não é fácil provocar através de uma simples crónica. De forma que raramente faço mais do que agradecer penhorado o esforço, a atenção e (de alguma forma) o carinho dos leitores. Basicamente, já tive a minha oportunidade, de resto em espaço nobre – agora devo sujeitar-me ao contraditório, seja ele qual for. Pain in the ass que se preze tem de saber aguentar-se à bronca.
Há duas semanas, porém, que sou inundado de emails, de comentários no meu site, de textos na blogosfera e de piscadelas de olho nas redes sociais sobre um mesmo tema – e desta vez vou abrir uma excepção para comentar o frenesi. Não tanto pelos números (e estou a falar de muitas centenas de intervenções), mas por causa de um aspecto em particular no tom delas. O tema é o vegetarianismo, a propósito do qual publiquei aqui, há quinze dias, uma prosa cuja inflamação pouca gente esperava. E o tom de que falo, naturalmente, não tem nada a ver com as obscenidades ou mesmo as ameaças físicas incluídas em tantos emails (tenho muitos anos disto, já nem ligo). O tom de que falo, na verdade, é ainda mais sintomático do que esse nível epidérmico da indignação – e sintetiza-se bem, penso eu, em frases como esta de Mateus Mendes, fundador do Centro Vegetariano: “Inaceitável é que tente o autor atingir os vegetarianos, que tipicamente são pessoas com preocupações ecológicas e éticas acima da média.”
É verdade: houve, ao longo destas semanas, outros momentos interessantes. Por exemplo: ninguém, apesar da tão óbvia piadinha à taróloga Maya, parece ter percebido a ironia sobre o suposto facto de 40% dos portugueses serem vegetarianos. Mais: o número de pessoas que começaram o respectivo email pelo seu CV, sublinhando tanto a carreira académica como a profissão (“eu sou engenheiro”, “eu sou médico”, “eu sou arquitecto”), é pouco menos do que impressionante. Mais ainda: recebi dezenas de emails de Inglaterra e do Brasil, onde os vegetarianos portugueses têm muitos amigos, alguns deles com conta no Orkut e tudo. Num chamaram-me “canibalzinho devorador de cadáveres”, piropo que achei amoroso; noutros diziam-me que eu escrevo mal, pois “à muita gente” (sic) que escreve melhor do que eu – e noutros ainda lembraram-me que o australopithecus e o pithecanthropus eram sobretudo recolectores, desafiando a Humanidade a “evoluir” (sic também) em direcção aos hábitos alimentares deles.
O tom, esse, foi quase sempre o mesmo: os vegetarianos são “superiores”. Ética e filosoficamente superiores, mesmo que obcecados com análises clínicas – e, agora que um canibal ignorante os havia insultado a todos, tocara a reunir para a batalha. Pois fico satisfeito por ter-lhes dado a oportunidade de partirem finalmente em campanha militar, dando uso às armas que já ameaçavam enferrujar. Por outro lado, torno a lamentar que tenhamos assassinado Deus, acabando reféns de mais religiões ainda (e oportunistas, todas elas, quanto a esta nossa urgência primária de espiritualidade). Mas, em vez de voltar a acusar os cavaleiros das boas intenções de serem às vezes piores do que os das más, decidi deixar-me persuadir um bocadinho – e, até, juntar-me à causa. Não prometo tornar-me lactovegetariano, pois gosto muito de ovos. Também não prometo tornar-me ovovegetariano, porque quem me tira o galão de máquina tira-me tudo – e, aliás, não vou comprometer-me a ser ovolactovegetariano também, porque de repente ainda me dá saudades de um half rack com molho agridoce. Mas, se me aceitarem, estou disposto a virar, vá lá, ovolactoentrecostovegetariano.
Assim como assim, não quero ser inimigo de ninguém – e, de resto, não acredito que, para ser vegetariano, eu tenha de rever-me nas “preocupações éticas acima da média” daquele senhor cujo nome não posso dizer aqui, se não o meu email entope de vez (mas que, enfim, acreditava no contributo do vegetarianismo para a “regeração espiritual” da Europa e veio, entretanto, a provocar uma guerra mundial). Só tenho pena, claro, que esse seja apenas mais um exemplo de como não basta ser vegetariano para ganhar um lugar no céu.
CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 24 de Outubro de 2009

