O que é trágico não é propriamente o debate gerado em torno de Caim. O que é trágico é que, desde 1991-92, período ao longo do qual José Saramago publicou O Evangelho Segundo Jesus Cristo e Sousa Lara, tonto, o vetou como candidato nacional ao Prémio Literário Europeu, a literatura portuguesa não tenha produzido mais um só debate digno desse nome – e que quando, sem outra coisa que dizer, Saramago experimenta repetir que “Deus não é de fiar” ou “a Bíblia é um manual de maus costumes”, desate toda a gente aos berros, como se nunca o tivesse ouvido antes.
Já o ouviu. Bem vistas as coisas, José Saramago não diz nem escreve nada, hoje, que não tenha já escrito em 1991: que Deus é a própria origem do Mal. E, se reagimos com tal energia à simples reapresentação, quase vinte anos depois, dessa mesma ideia, é porque andámos demasiado tempo a discutir se Margarida Rebelo Pinto tem direito a gastar o nosso oxigénio comum ou se Vasco Pulido Valente deve, na idade em que está, persistir em sujeitar-se anualmente ao bungee jumping emocional que é, para ele, ler um livro de Miguel Sousa Tavares.
José Saramago é, provavelmente (não, não os li a todos), o maior narrador português dos últimos 50 anos. Ofereceu-nos páginas sublimes em Memorial do Convento, em O Ano da Morte de Ricardo Reis, em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, em Ensaio Sobre a Cegueira – e, se um dia tivesse sido posto a referendo que escritor da sua geração deveríamos canonizar primeiro, eu próprio teria votado nele. Por outro lado, e como qualquer outro criador que se preze, tem uma série de obras precoces em que está sobretudo à procura de uma voz e outras tantas serôdias em que mergulha na procura de uma nova, porque entretanto a antiga se esgotou.
Na verdade, todos os seus romances desde Todos Os Nomes (a estes, sim, li-os todos) são um pouco isto: a procura de algum tipo de nova perspectiva sobre a condição humana e o mundo que essa condição impõe (e, nesse aspecto, um fracasso). Por outro lado, são também a constituição de um extenso e diversificado catálogo de soluções narrativas, à maneira de Ravel, em torno da escravidão do homem pela mais brilhante das suas criações: o próprio Deus (e, nesse sentido, um êxito). Talvez se possa dizer que merecíamos um Nobel melhor, não sei. Mas uma coisa que se pode dizer de certeza é que o Nobel português merecia melhores portugueses.
Entretanto, faz o que pode com aquilo que tem. E o que fez, nas entrevistas dadas a propósito deste Caim, foi mostrar que ainda nos conhece como ninguém – que ainda sabe onde estão os nossos interruptores consumistas e o que é preciso fazer para accioná-los. Tenho pena que, quanto a mais um livro, não se tenha ainda dedicado à exegese, por exemplo, do Corão, neste momento um livro com um potencial fratricida muito superior ao do Velho Testamento. Mas aceito que esteja refém da sua fé: essa imensa fé dos cristãos ateus – não dos cristãos agnósticos, que não acreditam (nem deixam de acreditar) em nada, mas dos cristãos ateus mesmo: aqueles que acreditam com todas as suas forças na inexistência de um Deus único, castigador e bondoso, egoísta e magnânime.
Por outro lado, há uma coisa que ficamos a dever-lhe: ter-nos ajudado a recordar, numa altura em que a Sociedade Bíblia de Portugal se empenha na divulgação da nova Bíblia Para Todos, que a Bíblia Sagrada não é apenas a saga de um povo, mas também o que séculos e séculos de exegeses oficiais (incluindo as várias cristãs e, até, as das restantes religiões monoteístas) fizeram dela. Impotente perante a miríade de conjugações entre o que deve ser lido literalmente e o que deve ser entendido de forma simbólica, a Bíblia permaneceu sobretudo aquilo que diz a sua letra, entretanto quase sempre usada para proibir e castigar, muito mais do que para permitir e premiar – e Caim é um importante contraponto a este novo exercício, ao mesmo tempo lírico e historicista, de transformá-la num romance de aventuras.
Eu, felizmente, não preciso dele. Mais: como Saramago, professo com paixão o ateísmo – no fundo, penso demasiadas vezes nestas coisas para me deixar entusiasmas por dois ou três aforismos heréticos a pretexto do lançamento de um novo livro. De forma que, esgotado o assunto, emprateleirei com gosto o Caim e o Abel – e regressei depressa ao Chandler, agora que as Edições Contraponto o vão resgatando a essa saudosa mas decrépita Colecção Vampiro. Eu queria mesmo era ser Philip Marlowe. Philip Marlowe não pretende salvar a Humanidade – e às vezes há um grande romantismo nisso.
CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 31 de Outubro de 2009

