Porque é que os vampiros estão outra vez na moda? Em parte, pela mesma razão que tornaram a vir a lume na recta final da era vitoriana, com a publicação de Drácula, ou voltaram a manifestar-se ao longo dos anos 50 e 60 do século XX, na sequência dos filmes da Hammer Horror com Christopher Lee no papel do conde de Bram Stoker: porque personificam quase todos os conflitos que importam ao entendimento da espécie, incluindo aqueles que opõem o progresso ao obscurantismo, os animais aos homens e, naturalmente, estes a Deus. Invocados e temidos pelo menos desde a Antiguidade Clássica, os vampiros conseguiram corresponder às ansiedades das mais diferentes épocas – e ainda hoje a obra-prima de Stoker é tida como o segundo livro mais vendido de sempre (a seguir à Bíblia Sagrada, pois), superando marcos da cultura popular e erudita como A Vida e as Opiniões de Tristram Shandy, de Lawrence Sterne, Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez, ou (não resisto, desculpem) Um Amor Em Tempos de Guerra, de Júlio Magalhães.
E, porém, cada período de fulgor iluminou algumas dessas contradições em particular. O Drácula de Bram Stoker era verdadeiramente um monstro: aprendera os códigos de sociabilização, mas apenas para se apropriar deles – e, além disso, não só era de uma fealdade prodigiosa, como era um assassino sem quaisquer constrangimentos éticos. Temê-lo era, em boa parte, temer a própria imortalidade. Quem fosse mordido pelo vampiro virava o mesmo que ele: mais do que uma alma danada, um ser sem alma (e sem redenção). E, embora o final do século XIX fosse já uma época de questionamento, não deixava de ser também de profunda religiosidade. Sigmund Freud e a sua Psicanálise ainda eram apenas um rumor – e o que estava em jogo na dualidade consciente/inconsciente, no duelo entre o sono e a vigília, era a relação do Homem, sugado na sua vontade pelo vício que o vampiro lhe brandia, com o próprio Deus. Havia ali evasão. Mas, se o edifício era modernista, as suas fundações eram góticas. No essencial, a busca era ainda a do Divino, embora por terríficos caminhos.
Nada disso se passa com esta nova geração dos vampiros. Os vampiros que hoje temos usam um tanto dessa fantasia original, outro tanto do manifesto sexual latente nos congéneres dos anos 1950 e 1960 (incluindo a libertação da mulher e a inversão dos géneros, com piscadela de olho à aceitação da homossexualidade) – e depois uma série de tiques próprios deste tempo. Talvez tenha sido uma sorte, para Stephenie Meyer, ter-se lembrado de escrever “Crepúsculo”. Mas o êxito da saga (“Luz e Escuridão”), nesta altura, não foi fortuito. Hoje, os vampiros estão por todo o lado: na literatura e no cinema, na TV, nos jogos de vídeo e na memorabilia. E estão em todo o lado por motivos claros: porque são agora frescos e belos, fundindo na perfeição a sensualidade e o mito da eterna juventude; porque são sombrios e marginais, personificando ao mesmo tempo o apelo do oculto e a inquietação da inadaptabilidade; e porque, apesar de tudo, se mantêm perigosos, com tudo o que aí há de lúdico e, em simultâneo, de abissal.
São as urgências deste tempo: a sensualidade, a inadaptação, a juventude, a vida eterna – e não é de estranhar que muitos dos admiradores do género defendam mesmo que o vampiro é o James Dean (epítome maior desse desassossego) do século XXI. Mas ainda é o perigo o elemento mais relevante. Tanto em Stephenie Meyer como na sua contemporânea L. J. Smith, os vampiros dividem-se entre os assassinos tout court, hedonistas puros e duros, e os assassinos que desenvolveram uma consciência e procuram dominar a sua própria sede de sangue. E, não só estes últimos vampiros se distinguem de Drácula, como são verdadeiramente o arquétipo do Homem do milénio. “O inferno são os outros”, dizia Sartre, o supremo filósofo pós-freudiano. O inferno são os outros, tanto quanto nós próprios – e em nós habitam tanto o Inferno como o Céu. Todo o Bem, como de resto todo o Mal, está no Homem – e permanecerão ambos no Homem quando um dia, como é inevitável, ele for contagiado. Deus simplesmente desapareceu da equação – e o que aqui reste do gótico não é mais do que uma especulação sobre a possibilidade de o Absoluto residir agora noutro lado que não no Céu.
O mundo está bem melhor. Estamos talvez mais à mercê dos vampiros, mas também já lhes plantámos no ventre o nosso cavalo de Tróia. Afinal, talvez ainda haja alguma coisa a fazer pela Espécie.
CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 14 de Novembro de 2009

