Brad Pitt reapareceu há dias paramentado de streetwear, o mundo da cultura pop celebrou-o em euforia – e eu celebrei-o com ele. Não celebrámos bem a mesma coisa. O mundo da cultura pop celebrou o regresso de um madraço de 46 anos às calças de ganga de cintura rebaixada, aos gorros e aos óculos escuros, aos brincos e aos anéis. Eu celebrei que o dito madraço tenha rapado o bigode – e, se foi isso que o mundo da cultura pop celebrou também, então pelo menos as razões foram diferentes. Brad Pitt é meio piroso (além de absurdamente bonito), mas pode sempre recorrer, em sua defesa, a nomes como os de Juliette Lewis, Gwyneth Paltrow, Jennifer Aniston ou Angelina Jolie. Bem vistas as coisas, ganhou o meu respeito. Mas dava mau nome ao bigode – e desde que deixara crescer o pêlo no lábio superior, de início para gravar um filme de Tarantino e depois para agitar as convenções sobre o estilo e a beleza, que me tinha em modo de marcação cerrada, ansioso por desatar à cabeçada. Eis-me aqui.
Gosto de bigodes e de homens de bigode. Ainda no outro dia entrei numa daquelas lojas que já não existem, uma oficina de electrotecnia onde se coleccionam grafonolas, se reparam transístores e se trocam as correias a gravadores de bobinas, e fui atendido por um desses homens: um magnífico homem de bigode, alto e magro, bonito e digno, afável sem ser simpático, firme mas não abrutalhado. Tudo nele, em boa verdade, transpirava estrutura, honestidade e determinação. Vi-lhe o bigode, elegante e bem aparado sobre uma camisa de má qualidade (mas impecavelmente engomada), e tracei-lhe a biografia: província até aos 11 anos, aos 12 mudança para Lisboa, para trabalhar como moço de recados do tio, dono de uma oficina de electrotecnia – e entretanto, ali por volta dos 40-45, o tio misericordiosamente libertado de obrigações e remetido enfim ao lar, onde o esperavam um par de pantufas, uma televisão a cores, as regalias possíveis de 60 anos de descontos e (sobretudo) a certeza absoluta de que o negócio ficava em boas mãos.
Dessa massa é feito um homem de bigode. Quer dizer: alguma vez viu, no cinema ou na literatura, na vida real ou em sonhos, um vilão de bigode? Não: não me venha com o exemplo de Hitler. Aquilo de que estou aqui a falar não é de macaquices peludas: nem de bigodinhos escova-de-dentes nem, aliás, de bigodaças arrufiadas; nem de excentricidades à Salvador Dali, nem de malandrices à Errol Flynn; nem de ferraduras como a de James Hetfield, nem de caganitas de mosca como a de Cantinflas. Aquilo de que estou aqui a falar é do velho, simples e conservador bigode chevron (ou divisa): do bigode de Tom Selleck, quando muito do bigode de Burt Reynolds – do bigode do tempo dos nossos pais, quando os bigodes não eram já um mecanismo de distinção social mas eram ainda um sinal de preocupação estética, quando ninguém ganhava um lugar no Paraíso apenas por ter bigode, mas também não era de imediato remetido ao Inferno por tê-lo. Eis aquilo que invejo nos homens de bigode: nunca um deles foi o mau da fita. Nas histórias como no dia-a-dia, os homens de bigode foram sempre os polícias, os bombeiros, os médicos – enfim, os homens do bem. O contrário não colaria.
Acontece que não é um homem de bigode quem quer. Vários amigos mo disseram, ao inteirarem-se da epifania da loja de grafonolas: “É fácil. Deixa crescer um também.” Erro. Um bigode não se pode pôr nem tirar. Não basta ter bigode para ser um homem de bigode. O bigode, para qualificar um verdadeiro homem de bigode, tem de lá estar desde o início dos tempos – e, de resto, não pode ter desaparecido nunca. Não há nada mais triste do que ver pela primeira vez sem bigode um homem que sempre vimos de bigode (lembram-se de Guterres?; lembram-se de Queiroz?). A não ser talvez, tempos mais à frente, voltar a vê-lo com bigode, reconsideração sobre todas as outras desesperada e inútil (tão inútil quanto seria a Sansão tornar a deixar crescer o cabelo). Um bigode é muito mais do que uma pilosidade: é uma metafísica. Vem acompanhado de conversas sobre a necessidade de estudar para ser alguém na vida, a utilidade de amortizar o crédito à habitação, a urgência de substituir as velas do carro, a saudade de quando o fado era o fado, a rádio era a rádio e a Amália Rodrigues cantava o fado na rádio, tanto na Emissora Nacional como na Voz de Lisboa.
Brad Pitt não conhece nem metade deste património. Que diabo: há quanto tempo Brad Pitt não tem de preocupar-se com as velas do carro?
CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 21 de Novembro de 2009

