Nós nunca sabemos bem o que a nossa memória vai reter – e não raras vezes damos por nós surpreendidos como uma recordação inútil, tirada de um filme série B ou apenas de um dia sem inspiração (mas que, apesar disso, nos repovoa sempre que determinada situação se repete). Eu, por exemplo, sou frequentemente repovoado por uma cena de Acorrentados (ou de outro qualquer sucedâneo de Big Brother, não me lembro bem qual). Dois concorrentes, um rapaz e uma rapariga, ganham um jantar. O restaurante é de qualidade, as câmaras estão lá – e tanto um como o outro vão lindos, cerimoniosíssimos, impressionando-se um ao outro e até, de alguma maneira, a si próprios. Até que o empregado lhes traz o vinho (branco, para acompanhar peixe) e serve a pinguinha da prova. O rapaz põe a sua melhor pose. Beberica e pensa. Beberica de novo e bochecha um bocadinho. Cheira, chocalha, volta a bebericar – e só então faz uma ligeira vénia, assentindo quanto à qualidade do néctar. O empregado vira costas. E diz ele, irrompendo num riso nervoso: “Hugh-hugh [esgar quase irreproduzível, exigindo onomatopeia]. Tá xequinho!”
Pois todas as vezes que estou num restaurante e assisto a essa cena da prova, o tipo muito cerimonioso em frente a uma rapariga – e mais cerimonioso ainda se em frente a plateia maior –, chocalhando e cheirando o vinho, bochechando-o e assentindo com uma vénia, imagino-o num esgar, assim tenha o empregado virado as costas: “Hugh-hugh. Tá xequinho!” Quando estou num restaurante e, aliás, quando estou no supermercado. Qual é o corredor de que eu mais gosto num supermercado? O dos vinhos. Não há só uma razão para isso, claro. No supermercado que eu frequento, o corredor dos vinhos fica mesmo ao lado dos dos frescos, com a prateleira de queijos gordos a vedar a entrada e as promoções de caju a disfarçar a saída – e, quando um homem vai às compras a dois, obrigando-se a acenar afirmativamente em direcção a propostas de seitan e de salsichas de peru, de rúcula e de bolachas de arroz, não tarda dá por si com uma certa necessidade de evasão. Acontece que é precisamente ali, no corredor dos vinhos, que se encontram os homens do vinho. E nada me diverte mais, num supermercado, do que os homens do vinho.
Porque eu sei onde é que eles vão a seguir: vão a uma festa. Porque eu sei do que é que eles ficaram encarregados: de levar o vinho. E porque eu sei como é que essa festa decorrerá. Um nadinha atrasado, fazendo-se esperar apenas aquele subtil espaço de tempo durante o qual os convivas ainda não podem tê-lo, mas já se permitem desejá-lo, o homem do vinho vai vestido com uma de duas fardas: um fato azul escuro sem gravata, à yuppie em gozo de merecida folga, ou com um longo casaco de pele de pêssego, à intelectual que interrompeu o acto da criação para ir privilegiar aqueles circunstantes com a sua presença. Em qualquer caso, traz as garrafas de vinho num saco de papel e o rosto naquele modo blasée que só consegue pôr quem já viu muita coisa e andou por muitos lugares. E, então, dá início ao seu show: abre o saco com a pompa de quem descerra a Arca Sagrada, dispõe as garrafas sobre a bancada da cozinha como quem alinha uma colecção de Rodins – e depois ali fica, à espera dos elogios: o pelintra de sempre, mas um pelintra que viu o Sideways e empinou o almanaque do João Paulo Martins.
Porque é isso o vinho, não é – o que distingue a classe do resto? Eu acho que é (assim como assim, já toda a gente tem um BMW). E portanto ali permanece o nosso homem, sempre nas imediações das bebidas, sempre com a testa levemente franzida, sempre à coca de alguém que observe, em direcção à anfitriã: “Mas este vinho é maravilhoso, Paula. Quem trouxe?”, permitindo-lhe enfim erguer o copo, conferir o néctar em contra-luz e penetrar distraidamente na conversa: “Um trincadeirazinho curioso que andam a fazer ali em Pias... 2002. Um razoável ano, por sinal.” Ora, podia (e era isto que eu queria dizer) ser meu amigo, esse homem? Difícil. Se alguma coisa lhe admiro, é a possibilidade de desencaminhar a estagiária loira, à hora de almoço, para ir vê-lo comprar vinho à Garrafeira de Campo de Ourique, tratando aquele senhor gordo pelo nome e ensaiando o espectáculo para o fim-de-semana seguinte. De resto, prefiro esperar que um dia, almoçando à minha frente, ele rejeite uma garrafa que o empregado lhe traga – e que, na sua argumentação de recusa, seja capaz de demonstrar que não o faz apenas para provar que pode. Até lá, chamem-me bruto, bebo cerveja. Essa sim, hugh-hugh, está sempre fresquinha.
CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 19 de Dezembro de 2009

