Confronto-me com mais um criterioso casting para a capa da Playboy portuguesa e lembro-me de uma anedota da infância. Um homem abastado, pai de uma só filha, recebe em casa um pretendente à mão da miúda. O jantar corre bem: Pedro Miguel está nervosíssimo, Margaridinha idem aspas –mas a mãe, bondosa, desdobra-se em simpatias para com o rapaz e o velho, bem vistas as coisas, podia estar muito mais mal-encarado do que está. Até que a refeição acaba, as mulheres retiram-se para a cozinha e os homens sentam-se junto à lareira, para fumar. “O cavalheiro pretende casar com a minha filha por amor ou por interesse?”, pergunta, enfim, o velho dr. Sousa, cheio de gravidade. O moço pensa, meneia a cabeça, franze a testa. E dispara: “Olhe, doutor, deve ser por amor, porque interesse nela eu não tenho nenhum.”
O mesmo, de alguma forma, se passa com a Playboy portuguesa. Depois de Ana Malhoa, Cláudia Jacques e Cristina Areia, a Playboy-a-que-temos-direito desnuda agora Ruth Marlene, que se faz acompanhar nas fotografias pela sua irmã Jéssica (não, não é brincadeira, a moça chama-se mesmo Jéssica, louvado seja Deus Nosso Senhor, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz). Pois é quanto basta para declararmos consumado mais um feito único da autoria da Playboy portuguesa. Depois de ter sido uma das primeiras Playboys do mundo a colocar um homem na capa (Ricardo Araújo Pereira, na edição de Dezembro), a Playboy portuguesa confirma-se também como a primeira Playboy do mundo que os leitores efectivamente compram pelos artigos. Pelas mulheres que ela lá traz é que ninguém a compra, de certeza absoluta.
Por acaso, estou a ser mauzinho. Na verdade, até tenho bastante ternura por Ruth Marlene, que, depois da última plástica que fez ao nariz, ficou parecidíssima com um candeeiro do Zé Carioca que eu tinha na mesa de cabeceira durante a infância, e à luz do qual praticamente aprendi a ler (devo-lhe tanto, ao diabo do candeeiro). Mais: se alguma coisa tem preocupado a Playboy portuguesa, é fazer as pessoas felizes. Pelo andar da carruagem, não há-de tardar muito até termos a senhora dona Júlia Pinheiro na capa, para infinito deleite de tantos e tantos frequentadores dos centros de dia deste país, tão necessitados andam eles de uma alegriazinha – e, mais tarde ou mais cedo, ainda haverá, enfim, umas páginas para a taróloga Maya, o que, tendo em conta as ansiedades da senhora, não deixa de ser um gesto de uma caridade imensa.
Mas não deixa de provocar-me alguma curiosidade a reacção do velho Hugh, lá na mansão californiana onde costuma mandar uns piropos às coelhinhas antes de mais um crapaud com o motorista (a denúncia não é minha, é de Kendra Wilkinson, uma rapariga que viveu lá ano e meio e só fez sexo duas vezes) a este, digamos, estado de coisas. Quer dizer: como é que os senhores da Playboy portuguesa justificam ao bom do Mr. Hefner as escolhas que fazem para a capa da revista? Pronto, vá lá: não falo de Ricardo Araújo Pereira, que de facto é um naco (embora tenhamos ficado todos com a impressão de que tinha muito mais para mostrar, pois aquilo, no fundo, foram só as covinhas do queixo e mais nada). E também não falo de Ana Malhoa, que como todos sabemos foi a inspiração primeira do estilo de Rhianna (e que, portanto, Los Angeles conhece bem). Mas como explicar-lhe que, onde um dia a Playboy teve Marilyn Monroe, a Playboy portuguesa tenha Cláudia Jacques; que, onde um dia a Playboy teve Jane Mansfield, a Playboy portuguesa tenha Cristina Areia; que, onde um dia a Playboy teve Ursula Andress, a Playboy portuguesa tenha o meu candeeiro do Zé Carioca, ainda por cima acompanhado de um candeeirinho chamado (louvado seja Deus Nosso Senhor, Maravilhoso Conselheiro, Anjo da Aliança) Jéssica?
Pois talvez o elucidem, assim que o velho começar a levantar cabelo: “Mas Hugh (podemos tratá-lo por Hugh?), não se esqueça de que cada uma destas raparigas se despe por apenas 800 euros…” – e o mais provável é que o argumento colha. Efectivamente, e após 55 anos a investir milhões para fazer uma revista que não fosse apenas de divas despidas, Hugh Hefner está agora falido, como se lê por toda a imprensa norte-americana. E talvez seja isso, aliás, a explicar porque é que, depois de tantos velhos empresários de comunicação social terem tentado sem sucesso obter o franchise da Playboy para Portugal, o fundador da revista tenha optado por entregá-la a uns tipos que, para não fazerem uma revista apenas de divas despidas, decidiram fazer uma revista apenas de mulheres nuas.
CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 9 de Janeiro de 2010

