Horrorizamo-nos: “Credo, que coisa tão portuguesa…” – e com isso nunca queremos dizer mais nada senão: “De um terceiro-mundismo atroz!” Nada a fazer: trazemos connosco isto de que ser português é ser mesquinho, pobre de espírito, egoísta – e, quando se trata de falar dos “portugueses em geral”, nunca somos um deles. Curiosidade: o hábito não é especialmente lusitano. A snobeira, já se sabe, é coisa de pobre – e não há país novo-rico onde não se suspire: “Ah, como o meu povo é mesquinho…” Os brasileiros fazem-no. Os angolanos fazem-no. Os eslovacos fazem-no. Os franceses não o fazem, mas porque são ricos há muito tempo – e, de resto, nunca lhes faltou a vaidade colectiva. Muitos americanos não o fazem, mas por etnocentrismo – e, em todo o caso, há sempre alguém, entre a classe “pensante” da costa Leste, disposto a fazê-lo.
Portanto, isto não é um lamento sobre a portugalidade: é um desabafo sobre a espécie. Diz um daqueles emails que circulam pela web, chegando-me à caixa de correio a cada três semanas, que “Ser português é: levar arroz de frango para a praia; guardar as cuecas velhas para polir o carro; tirar a cera dos ouvidos com a chave do carro; gastar uma fortuna no telemóvel, mas pensar duas vezes antes de ir ao dentista; viver em casa dos pais até aos 30; falar mal do Governo e esquecer que se votou nele (…)”. Ora, eu conheço uma dúzia de países onde também se leva arroz para a praia. Já estive noutra dúzia onde se guardam as cuecas velhas para polir o carro. Sei de pelo menos outra dúzia ainda onde se vive até aos 30 anos em casa do papá. E nunca ouvi falar de um só país, já agora, onde não houvesse a tradição de guardar lugar.
E, porém, é uma das mais irritantes características do ser humano quando confrontado com o tormento da espera: guardar lugar para um amigo, para a mulher, para o vizinho que se atrasou, que foi virar o carro ou que fez um desvio para comprar os chupa-chupas. Uma pessoa chega à cafetaria, leva com uma fila de vinte minutos para resgatar uma sopa e depois passa outros vinte às voltas pela sala, com o tabuleiro na mão e a mochila às costas e a sopa a pingar, à procura de um sítio para comer. Há cadeiras vazias? Claro que há. Por exemplo: naquela mesa à esquerda, onde uma senhora gorda espera sozinha, tamborilando os dedos e ajustando os botões do camiseiro. Naquela mesa ao meio, onde um grandalhão aguarda em silêncio, feito boi sentado, de olhar disperso. Naquela mesa ao canto, onde uma rapariga fala alto ao telemóvel, combinando a noitada de sábado. E o que é que cada um deles nos responde se nos aproximamos com o tabuleiro, ousando sequer olhar para uma das cadeiras vazias? “Está ocupado.”
Apetece virar a mesa. Apetece bater-lhes. Apetece fazer um chinfrim e chamar-lhes egoístas, anormais, filhos de uma grandessíssima mãe – e era precisamente isso que faríamos, não fosse insurgir-se o receio de o grandalhão efectivamente ser tão grandalhão como parece, de a senhora rebentar de repente num pranto ou de a rapariga reconsiderar quanto a incluir-nos na sua tão promissora noitada. E, no entanto, nem uma hesitação: dizem-nos “Está ocupado”, como se fosse tão óbvio os lugares estarem ocupados como o céu ser azul e as nuvens branquinhas – e, no fim, ainda franzem a testa, esticam o pescoço e sugam o ar pelo canto da boca, num estalido, como quem diz: “Azarito…”
Depois precisamos de ir às Finanças, andamos uma hora às voltas para estacionar, avistamos um lugar milagroso entre dois Fiat Puntos – e lá está de novo a senhora gorda, agora em pé, acenando e franzindo a testa porque o marido foi dar a volta ao carro e, portanto, o lugar já está ocupado. À noite vamos a um concerto no Coliseu, chegamos um bocado em cima da hora, a maior parte dos lugares livres ficam por detrás dos pilaretes – e lá está a rapariga do telemóvel, com sete belas cadeiras vazias à volta, mas todas elas “ocupadas” por um dos pullovers velhos que ela traz numa mochila que tem especialmente para o efeito. No dia seguinte vamos ao supermercado e lá está o grandalhão a ocupar uma caixa, com ar absolutamente respeitável, enquanto a mulher foi dar uma última volta pelo corredor dos frescos, porque afinal tinha faltado o Häagen-Dazs.
Está mal. Está mal e, quando se trata de um Inverno tão longo como este, uma pessoa já só tem vontade de fazer como o Frank no seu sonho mais selvagem, regando tudo, acendendo um fósforo e estacionando do outro lado da rua, a rir e a ver arder. Eu nunca consegui tolerar estes bois – e, em semanas assim, é sempre o Frank que me vale.
CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 30 de Janeiro de 2010

