Há algo de reconfortante na candidatura de Fernando Nobre à Presidência da República. Todos os povos, já se sabe, merecem um Barack Obama – e este, bem vistas as coisas, não é nem melhor nem pior do que a maior parte dos outros Barack Obamas que podíamos ter. Para além de tudo, qualquer homem que possa impedir Manuel Alegre de telefonar a Vaclav Havel a fazer negaças, cantando de lado de cá do telefone: “Eu também já sou presidente, toma, toma…”, é homem que, em minha opinião, deve avançar sem hesitações.
Tão-pouco me inquieta, aliás, que Fernando Nobre não tenha experiência política, ou sequer que a sua primeira intervenção se tenha assemelhado perigosamente ao discurso de tomada de posse do novo presidente da Junta de Freguesia de Sobradelo da Goma, Póvoa de Lanhoso, a que infelizmente não pude assistir, mas sobre o qual recebi relatos. Quem acompanha os escândalos da posição e a forma como a oposição os gere, quem sabe de onde vem esta crise e como se propõem resolvê-la os diferentes candidatos a primeiro-ministro, quem vê a agonia do PS e a lutas internas no PSD e a demagogia do Bloco de Esquerda e o silêncio do CDS e a propostas capitalistas do PCP – quem vive em Portugal, enfim, sabe que este sistema partidário não está outra coisa senão falido e, portanto, urgente de substituição por outro sistema qualquer.
Nesse sentido, Fernando Nobre é uma espécie de “candidato Melhoral”, que não faz bem nem faz mal. Talvez coloque, de alguma forma perigosamente, a esperança no sítio errado, confiante que continua na bondade original da espécie. Mas sempre nos permite ter mais um nome no boletim, o que não deixa de dar um certo estilo. Eusébio, que é Eusébio, nunca o conseguiu.
Acontece que não pode ser Presidente da República quem quer. Sim, eu sei que já lá tivemos Jorge Sampaio, o que não é grande cartão de visita para o cargo. Mas a questão é que, para além de assegurar a representação da República Portuguesa e a independência nacional, um Presidente da República tem de garantir ainda a unidade do Estado e o regular funcionamento das instituições. Se Portugal não fosse um regime semipresidencialista, ou atribuísse ao seu presidente funções tão patéticas como (por exemplo) a Alemanha ou a Itália guardam para o seu chefe de Estado, tudo bem. Para gerir crises políticas da dimensão daquela em que estamos a entrar – e por muito que, no caso, Cavaco Silva pareça demasiado tranquilo –, duvido que tenha capacidade. Eu também gostava muito da Irmã Lúcia e nem por isso queria vê-la em Belém.
De resto, não podia ser mais absurda a ideia de que esta candidatura, sendo política, não é politizada. Primeiro porque, representando para a candidatura oficial do PS (Manuel Alegre) o mesmo que Manuel Alegre representou há quatro anos para a candidatura do PS (Mário Soares), Fernando Nobre dá por si, de repente, no epicentro da mais intrincada e ressentida luta partidária da nossa história recente, ainda por cima no papel de marioneta – e, mais a mais, sem se ter apercebido a tempo de que, nos bastidores, alguém lhe puxava os cordelinhos. Depois porque, para quem se reclama protagonista da candidatura “dos que não tiveram voz até agora”, Fernando Nobre cai demasiado na retórica que alimenta tantos e tantos partidos inúteis, incluindo alguns a que os portugueses deram e dão voz. Feitas as contas, José Sócrates mata uma série de coelhos de uma só cajadada: vinga-se de Alegre, garante a reeleição do Presidente que bem vistas as coisas lhe dá mais jeito – e, no fim, nem sequer suja as mãos. Para um primeiro-ministro em xeque, não está nada mal.
Afinal, podemos apenas lamentar a auto-destruição de mais um dos nossos heróis, tão depauperado andamos já deles. Porque aquilo que Fernando Nobre consegue com esta inusitada candidatura, destinada quando muito a aproveitar a publicidade gratuita e a posicionar-se mediaticamente no caminho do Nobel, é provar-nos que, como já desconfiávamos, não há melhor mercado, hoje em dia, do que o mercado da boa-vontade. Ainda bem que sou um cínico. Já agora, façam lá um Governo com Margarida Pinto Correia com ministra da Cultura, Fernando Póvoas com ministro da Saúde e Vítor Baía com ministro da Juventude e Desporto – tudo gente bem-aventurada, em alguns casos até com fundações –, a ver se eu não me rio na mesma.
CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 27 de Fevereiro de 2010

