Escrevo-vos no domingo – e, como tem acontecido de há tantos domingos a esta parte, chove copiosamente. Alguns acham graça: dispensados de mergulhar no trânsito, põem-se à janela a ver a chuva cair, como se a sua casa, o seu ecrã plasma e o seu bacalhau com natas fossem ameias de uma fortaleza que nada alguma vez abalará a um domingo. Para mim, é um pequeno desastre. Este era o meu domingo: o domingo em que se disputava um torneio essencial para a escolha da selecção que o meu clube de golfe enviará ao campeonato nacional do meu escalão – e, se é verdade que acabei por jogar os 18 buracos da ordem, persuadindo dois mártires a caminhar comigo sob a chuva e a trovoada, também o é que a prova em si foi cancelada e, bem vistas as coisas, o meu domingo se estragou.
Às vezes tento explicar a um incréu o que é que, no golfe, chega para arrancar-me da cama a um domingo de madrugada e fazer-me enfrentar o frio, o vento, a chuva e os trovões para percorrer oito quilómetros a bater com um pau numa bola. Quase sempre se riem. Eu digo-lhes: “O golfe não é só um desporto, mas uma filosofia.” Falo-lhes da insana dificuldade do jogo. Falo-lhes das páginas que Faulkner e Wodehouse e Updike lhe dedicaram. Falo-lhes do convívio quase religioso com outros pacientes da mesma obsessão. Falo-lhes da perfeição daquele exercício físico, do equilíbrio mental a que ele nos desafia, das proezas que nele conseguimos e dos imensos desaires que nele experimentamos. Riem-se. O golfe é um jogo de velhos, dizem. Um jogo de ricos. Um jogo de palermas. E eu, para não erguer as mãos aos céus e parafrasear o Cristo: “Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que dizem”, rio-me com eles.
Portanto, não é de literatura que me socorrerei para explicar-vos porque é que a candidatura de Portugal à organização da Ryder Cup 2018 é, de facto, um imperativo nacional. Socorro-me de números. Erguida sobre um investimento infinitamente menor do que o necessário (por exemplo) para um Europeu de Futebol, a Ryder Cup pode ter um impacte directo na nossa economia acima dos 250 milhões de euros (como aconteceu em 2006, quando se realizou na Irlanda) e um impacte indirecto que pode ir até mil vezes esse valor. Trata-se, afinal, do terceiro maior evento desportivo do mundo em termos televisivos, chegando a 180 países – e é nesses países que quase 1,5 mil milhões de espectadores se dariam conta do milagre que é, em Outubro, mês em que se disputa a prova, haver um país ocidental repleto de campos de golfe belíssimos, de hotéis fantásticos, de praias convidativas e, entretanto, de sol maravilhoso.
Não será fácil. A candidatura da Holanda parece frágil, mas a Suécia, a Alemanha e a Espanha têm tradições competitivas com que não podemos sequer sonhar. Por outro lado, tanto na Suécia como na Alemanha já faz frio em Outubro, o que poderá fazer pender a balança para os três candidatos do Sul: França, Espanha e Portugal. A França é um pretendente fortíssimo: tem bastante tradição competitiva, tem experiência organizativa e tem algum sol. Mas, se o bom tempo for essencial, como parece que será, Espanha e Portugal levam vantagem. Ora, se ambos têm calor e experiência organizativa, Espanha já foi o palco da única edição europeia da prova disputada fora das ilhas britânicas (1997). Resta Portugal. Problema: Portugal é, com Espanha, candidato à organização do Mundial de futebol desse mesmo 2018 – e em nenhum caso a Ryder Cup Europe permitirá que as competições se cruzem.
É claro que, se Portugal possuísse um jogador de topo, era mais fácil fazer vingar a sua candidatura. É claro que, se Portugal tivesse mais do que os 20 mil golfistas que tem, poderia muito mais eficazmente obter esse major boost para a sua desgraçada economia. É claro que, se os portugueses acompanhassem aquele que é agora o desporto em mais acentuado processo de globalização, era incomparavelmente mais simples provar que qualquer prova golfística aqui realizada seria um sucesso. Mas não. Preferimos rir-nos de quem gosta de golfe, um jogo com 250 anos de tradição (e, aliás, inventado pelos pobres, ao contrário do futebol). Preferimos interpor providências cautelares para salvar três pinheiros podres (como aconteceu no Jamor), obstruindo a construção de uma infra-estrutura modelar para a formação de jogadores. Preferimos mandar fechar um campo de treinos perfeito (como aconteceu nas Amoreiras) só porque não gostamos de ver os ricos brincar. Preferimos exercer o nosso velho ressentimento, a nossa velha inveja, a nossa velha ignorância. Somos assim.
CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 06 de Março de 2010

