
O sentido para que apontam todas as pistas que os anos me têm dado é, pois, óbvio: eu nunca vou perceber do assunto. Mas tenho, apesar de tudo, alguns direitos – e um deles é o de recusar os cânones de beleza vigentes, incluindo aqueles que dizem que uma mulher deve ser de dimensões cómodas, com osso mais do que carne e, aliás, voz mais do que ideias. Talvez até isso, bem vistas as coisas, tenha ver com a idade: os antigos da minha terra referiam-se como “perfeita” a uma mulher carnuda– e eu próprio me vejo, hoje, a lembrar-me desse adjectivo quando me cruzo com espécime de tal tipo. Facto: gosto de uma mulher com defeitos – e um ponderado excesso de carnes, às vezes, é o mais belo deles. Bem vistas as coisas, a formosura pode conviver com a gordura. O que não pode nunca é conviver com a transparência, com a falta de história, com a ausência de profundidade.
Isto para dizer que (e agora é como se saltássemos para algo completamente diferente, o problema é que me alarguei no intróito), a partir de certa altura, deixou de ser a beleza a povoar-me as preocupações quanto ao meu próprio excesso de peso. Sempre o tive, em maior ou em menor grau – e sempre o monitorizei em sede de estoicismo, alternando festins com dietas radicais, ócios com exercícios flagelantes. Hoje, faltam-me as forças, falta-me o desejo e falta-me até a vaidade. Estou (cá vai outra vez) mais velho, talvez mais refastelado – e, sobretudo, sei que um homem com um mínimo de volume inspira segurança a uma mulher. Para dizer a verdade, faço um julgamento moral dos homens que têm demasiado cuidado com o seu aspecto. Num mundo tão cheio de tentações, em alguma delas se há-de cair – e antes na boa-mesa do que na droga ou na política.
O problema é que um tipo da minha idade, dado a vícios diversos, com propensão para a nervoseira e, ainda por cima, excesso de peso começa a tornar-se um barril de pólvora. Para além de tudo, eu sei que esse sacana desse fantasma pós-industrial a que decidimos chamar AVC, sintetizando-o numa sigla como antes sussurrávamos a palavra “cancro”, ainda me permitiria talvez escrever, mas não me deixaria já jogar golfe, que é a única coisa que eu gosto mais de fazer do que escrever. De forma que agora é que é: chegou a altura de controlar o dente. E desta vez (eis, enfim, o que eu queria dizer – e reparem como, incompetente, acabei por guardar a ideia principal para o fim, sujeita a ritmo já meio sumário), não vou guiar-me pelo que dizem os dietistas, a minha mulher ou sequer a sabedoria popular: vou guiar-me pelo palato apenas. Porque os anos também me ensinaram isso: o que sabe bem faz mal.
É queijo fresco, insípido até mais não? Faz bem. É queijo da ilha, picante e seco, mesmo a pedir um Douro? Faz mal. É peru, branco como a esferovite – e, aliás, com um sabor igualzinho ao dela? Faz muito bem, sim senhor. É carninha a sério, com aquele pinguinho de sangue que nos deixa contentes por estarmos vivos? Fuja – faz mal. É abacaxi, sumarento e docinho, lembrando baianas e acarajé? Faz bem “mas”. É ananás, azedo como o diabo, para comer com humildade até que a espinha se contorça num arrepio? Ah, sim, isso é que faz bem mesmo. E por aí fora. Tinha aqui imensos exemplos, mas o espaço acabou. O facto é que, como derradeira ironia após milénios de evolução, temos este paladar que diariamente nos encaminha para a forca. E, se isso não serve como prova de que não há Deus, não sei o que servirá.
CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 26 de Junho de 2010

