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  <title>Joel Neto.Com</title>
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  <updated>2010-03-07T09:24:11Z</updated>
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    <issued>2010-03-06T23:09:42</issued>
    <title>Complexo de inferioridade</title>
    <published>2010-03-07T09:14:35Z</published>
    <updated>2010-03-07T09:24:11Z</updated>
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    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img width="300" vspace="3" hspace="3" height="333" border="3" align="left" alt="" style="border-color: black;" src="http://www.erratica.us/wp-content/uploads/2007/07/gulg-golf.jpg" /&gt;Escrevo-vos no domingo &amp;ndash; e, como tem acontecido de há tantos domingos a esta parte, chove copiosamente. Alguns acham graça: dispensados de mergulhar no trânsito, põem-se à janela a ver a chuva cair, como se a sua casa, o seu ecrã plasma e o seu bacalhau com natas fossem ameias de uma fortaleza que nada alguma vez abalará a um domingo. Para mim, é um pequeno desastre. Este era o meu domingo: o domingo em que se disputava um torneio essencial para a escolha da selecção que o meu clube de golfe enviará ao campeonato nacional do meu escalão &amp;ndash; e, se é verdade que acabei por jogar os 18 buracos da ordem, persuadindo dois mártires a caminhar comigo sob a chuva e a trovoada, também o é que a prova em si foi cancelada e, bem vistas as coisas, o meu domingo se estragou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Às vezes tento explicar a um incréu o que é que, no golfe, chega para arrancar-me da cama a um domingo de madrugada e fazer-me enfrentar o frio, o vento, a chuva e os trovões para percorrer oito quilómetros a bater com um pau numa bola. Quase sempre se riem. Eu digo-lhes: &amp;ldquo;O golfe não é só um desporto, mas uma filosofia.&amp;rdquo; Falo-lhes da insana dificuldade do jogo. Falo-lhes das páginas que Faulkner e Wodehouse e Updike  lhe dedicaram. Falo-lhes do convívio quase religioso com outros pacientes da mesma obsessão. Falo-lhes da perfeição daquele exercício físico, do equilíbrio mental a que ele nos desafia, das proezas que nele conseguimos e dos imensos desaires que nele experimentamos. Riem-se. O golfe é um jogo de velhos, dizem. Um jogo de ricos. Um jogo de palermas. E eu, para não erguer as mãos aos céus e parafrasear o Cristo: &amp;ldquo;Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que dizem&amp;rdquo;, rio-me com eles.&lt;br /&gt;
Portanto, não é de literatura que me socorrerei para explicar-vos porque é que a candidatura de Portugal à organização da Ryder Cup 2018 é, de facto, um imperativo nacional. Socorro-me de números. &lt;b&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;&lt;span style="font-size: larger;"&gt;Erguida sobre um investimento infinitamente menor do que o necessário (por exemplo) para um Europeu de Futebol, a Ryder Cup pode ter um impacte directo na nossa economia acima dos 250 milhões de euros (como aconteceu em 2006, quando se realizou na Irlanda) e um impacte indirecto que pode ir até mil vezes esse valor. Trata-se, afinal, do terceiro maior evento desportivo do mundo em termos televisivos, chegando a 180 países &amp;ndash; e é nesses países que quase 1,5 mil milhões de espectadores se dariam conta do milagre que é, em Outubro, mês em que se disputa a prova, haver um país ocidental repleto de campos de golfe belíssimos, de hotéis fantásticos, de praias convidativas e, entretanto, de sol maravilhoso&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;.&lt;br /&gt;
Não será fácil. A candidatura da Holanda parece frágil, mas a Suécia, a Alemanha e a Espanha têm tradições competitivas com que não podemos sequer sonhar. Por outro lado, tanto na Suécia como na Alemanha já faz  frio em Outubro, o que poderá fazer pender a balança para os três candidatos do Sul: França, Espanha e Portugal. A França é um pretendente fortíssimo: tem bastante tradição competitiva, tem experiência organizativa e tem algum sol. Mas, se o bom tempo for essencial, como parece que será, Espanha e Portugal levam vantagem. Ora, se ambos têm calor e experiência organizativa, Espanha já foi o palco da única edição europeia da prova disputada fora das ilhas britânicas (1997). Resta Portugal. Problema: Portugal é, com Espanha, candidato à organização do Mundial de futebol desse mesmo 2018 &amp;ndash; e em nenhum caso a Ryder Cup Europe permitirá que as competições se cruzem.&lt;br /&gt;
É claro que, se Portugal possuísse um jogador de topo, era mais fácil fazer vingar a sua candidatura. É claro que, se Portugal tivesse mais do que os 20 mil golfistas que tem, poderia muito mais eficazmente obter esse major boost para a sua desgraçada economia. É claro que, se os portugueses acompanhassem aquele que é agora o desporto em mais acentuado processo de globalização, era incomparavelmente mais simples provar que qualquer prova golfística aqui realizada seria um sucesso. Mas não. Preferimos rir-nos de quem gosta de golfe, um jogo com 250 anos de tradição (e, aliás, inventado pelos pobres, ao contrário do futebol). Preferimos interpor providências cautelares para salvar três pinheiros podres (como aconteceu no Jamor), obstruindo a construção de uma infra-estrutura modelar para a formação de jogadores. Preferimos mandar fechar um campo de treinos perfeito (como aconteceu nas Amoreiras) só porque não gostamos de ver os ricos brincar. Preferimos exercer o nosso velho ressentimento, a nossa velha inveja, a nossa velha ignorância. Somos assim.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size: smaller;"&gt;&lt;b&gt;CRÓNICA (&amp;quot;Muito Bons Somos Nós&amp;quot;). NS', 07 de Março de 2010&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-02-27T18:34:26</issued>
    <title>O candidato pop</title>
    <published>2010-02-27T17:16:16Z</published>
    <updated>2010-02-27T18:35:44Z</updated>
    <category term="crónica"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img width="300" vspace="3" hspace="3" height="292" border="3" align="left" src="http://4.bp.blogspot.com/_vqHfixke1L8/S0IGWVTa8zI/AAAAAAAABJA/vu_pKIkbO4k/s320/FernandoNobreFoto.JPG" style="border-color: black;" alt="" /&gt;Há algo de reconfortante na candidatura de Fernando Nobre à Presidência da República. Todos os povos, já se sabe, merecem um Barack Obama &amp;ndash; e este, bem vistas as coisas, não é nem melhor nem pior do que a maior parte dos outros Barack Obamas que podíamos ter. Para além de tudo, qualquer homem que possa impedir Manuel Alegre de telefonar a Vaclav Havel a fazer negaças, cantando de lado de cá do telefone: &amp;ldquo;Eu também já sou presidente, toma, toma&amp;hellip;&amp;rdquo;, é homem que, em minha opinião, deve avançar sem hesitações.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tão-pouco me inquieta, aliás, que Fernando Nobre não tenha experiência política, ou sequer que a sua primeira intervenção  se tenha assemelhado perigosamente ao discurso de tomada de posse do novo presidente da Junta de Freguesia de Sobradelo da Goma, Póvoa de Lanhoso, a que infelizmente não pude assistir, mas sobre o qual recebi relatos. Quem acompanha os escândalos da posição e a forma como a oposição os gere, quem sabe de onde vem esta crise e como se propõem resolvê-la os diferentes candidatos a primeiro-ministro, quem vê a agonia do PS e a lutas internas no PSD e a demagogia do Bloco de Esquerda e o silêncio do CDS e a propostas capitalistas do PCP &amp;ndash; quem vive em Portugal, enfim, sabe que este sistema partidário não está outra coisa senão falido e, portanto, urgente de substituição por outro sistema qualquer.&lt;br /&gt;
Nesse sentido, &lt;b&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;&lt;span style="font-size: larger;"&gt;Fernando Nobre é uma espécie de &amp;ldquo;candidato Melhoral&amp;rdquo;, que não faz bem nem faz mal. Talvez coloque, de alguma forma perigosamente, a esperança no sítio errado, confiante que continua na bondade original da espécie. Mas sempre nos permite ter mais um nome no boletim, o que não deixa de dar um certo estilo. Eusébio, que é Eusébio, nunca o conseguiu&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;.&lt;br /&gt;
Acontece que não pode ser Presidente da República quem quer. Sim, eu sei que já lá tivemos Jorge Sampaio, o que não é grande cartão de visita para o cargo. Mas a questão é que, para além de assegurar a representação da República Portuguesa e a independência nacional, um Presidente da República tem de garantir ainda a unidade do Estado e o regular funcionamento das instituições. Se Portugal não fosse um regime semipresidencialista, ou atribuísse ao seu presidente funções tão patéticas como (por exemplo) a Alemanha ou a Itália guardam para o seu chefe de Estado, tudo bem. Para gerir crises políticas da dimensão daquela em que estamos a entrar &amp;ndash; e por muito que, no caso, Cavaco Silva pareça demasiado tranquilo &amp;ndash;, duvido que tenha capacidade. Eu também gostava muito da Irmã Lúcia e nem por isso queria vê-la em Belém.&lt;br /&gt;
De resto, não podia ser mais absurda a ideia de que esta candidatura, sendo política, não é politizada. Primeiro porque, representando para a candidatura oficial do PS (Manuel Alegre) o mesmo que Manuel Alegre representou há quatro anos para a candidatura do PS (Mário Soares), Fernando Nobre dá por si, de repente, no epicentro da mais intrincada e ressentida luta partidária da nossa história recente, ainda por cima no papel de marioneta &amp;ndash; e, mais a mais, sem se ter apercebido a tempo de que, nos bastidores, alguém lhe puxava os cordelinhos. Depois porque, para quem se reclama protagonista da candidatura &amp;ldquo;dos que não tiveram voz até agora&amp;rdquo;, Fernando Nobre cai demasiado na retórica que alimenta tantos e tantos partidos inúteis, incluindo alguns a que os portugueses deram e dão voz. Feitas as contas, José Sócrates mata uma série de coelhos de uma só cajadada: vinga-se de Alegre, garante a reeleição do Presidente que bem vistas as coisas lhe dá mais jeito &amp;ndash; e, no fim, nem sequer suja as mãos. Para um primeiro-ministro em xeque, não está nada mal.&lt;br /&gt;
Afinal, podemos apenas lamentar a auto-destruição de mais um dos nossos heróis, tão depauperado andamos já deles. Porque aquilo que Fernando Nobre consegue com esta inusitada candidatura, destinada quando muito a aproveitar a publicidade gratuita e a posicionar-se mediaticamente no caminho do Nobel, é provar-nos que, como já desconfiávamos, não há melhor mercado, hoje em dia, do que o mercado da boa-vontade. Ainda bem que sou um cínico. Já agora, façam lá um Governo com Margarida Pinto Correia com ministra da Cultura, Fernando Póvoas com ministro da Saúde  e Vítor Baía com ministro da Juventude e Desporto &amp;ndash; tudo gente bem-aventurada, em alguns casos até com fundações &amp;ndash;, a ver se eu não me rio na mesma.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size: smaller;"&gt;&lt;b&gt;CRÓNICA (&amp;quot;Muito Bons Somos Nós&amp;quot;). NS', 27 de Fevereiro de 2010&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-02-06T23:00:21</issued>
    <title>Adeus, Lusitânia</title>
    <published>2010-02-04T17:15:06Z</published>
    <updated>2010-02-04T17:15:06Z</updated>
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    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img width="301" vspace="3" hspace="3" height="209" border="3" align="left" src="http://www.gazeta3.com/noticias/LusitaniaAnos45Anos50.jpg" style="border-color: black;" alt="" /&gt;O primeiro jogo de futebol a que eu assisti ao vivo foi um Lusitânia-Angrense, decorria talvez o ano de 1981 e sentiam-se ainda, um pouco por toda a ilha, os ecos do terramoto que nos dizimara no ano anterior. Não tenho na memória todos os pormenores desse acontecimento épico, mas sei que comi amendoins, que me passeei entre a bancada, o peão e a cabeceira Poente do Campo de Jogos de Angra do Heroísmo, onde os automóveis eram estacionados mesmo atrás da baliza para as senhoras poderem espreitar a festa enquanto faziam renda &amp;ndash; e que o Lusitânia venceu, depois um guedelhudo do meio campo do Angrense ter tentado expulsar o árbitro (não me peçam para explicar), acabando ele próprio expulso, com dramáticas consequências para a resistência da sua equipa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De maneira que os meus primeiros heróis futebolísticos (que digo eu, os meus primeiros heróis, ponto) não foram Meszaros, Manuel Fernandes ou Jordão, os ídolos do Sporting nesses idos de 80: foram Álvaro, Dionísio, Teves, Carlos Alberto, Aristides ou João Medeiros, os esteios daquela simultaneamente humilde e gloriosa equipa que me introduziu ao verde e branco, à atmosfera do peão e à poeira que se erguia da terra batida quando a Providência, distraída, nos brindava com um dia de sol. Fiz deles um hábito, claro. Filho do chefe do policiamento, sob a asa do qual podia assistir de graça à bola, tomei duas decisões: ver tantas jogos do Sport Clube Lusitânia quanto pudesse e, quando enfim tivesse idade, envergar eu próprio a sua camisola linda.&lt;br /&gt;
À segunda experiência , redundada nuns quantos jogos, em outros tantos frangos monumentais e numa certa dificuldade em lidar com a intestineira durante os pontapés de canto, já a sublimei por aí, em crónicas de jornal e em contos, em rodas de amigos e em conversas de alcova. À primeira também &amp;ndash; mas quero voltar a fazê-lo. Porque, durante anos, eu vi. Vi, comendo amendoins, o Lusitânia vencer o E. Amadora por 3-0, no ano (se bem me lembro) em que mais perto estivemos de chegar à primeira divisão. Vi, vestido de verde e branco, o Lusitânia empatar 0-0 com o Boavista, com João Alves de luvas pretas no meio-campo adversário, num jogo após o qual Álvaro e João Medeiros rumariam ao Bessa. E vi, com o emblema que comprara na Casa Stuart ao peito, o Lusitânia esmagar várias vezes o Angrense, naquilo que era então o meu Benfica-Sporting &amp;ndash; e que eu próprio viria a disputar mais tarde, embora sempre com frangos e intestineira.&lt;br /&gt;
Pois esse clube, símbolo de um povo, vai acabar, depois do fracasso da enésima assembleia geral destinada a engendrar uma solução para o passivo de três milhões de euros que acumulou enquanto andou a brincar ao basquetebol. Esse clube quase centenário, contemporâneo do Belenenses e do Sp. Braga, mais antigo do que o Rio Ave ou a U. Leiria; esse clube onde jogaram Mário Lino, Moisés (que podia ter sido Rui Barros) e o malogrado Marroco; esse clube que foi 21 vezes campeão dos Açores, 38 vezes campeão da Terceira e o primeiro do arquipélago a chegar aos nacionais; esse clube que encantou a minha geração, que encantou outras quatro ou cinco gerações antes da minha e que ainda hoje tinha mais de 500 atletas em acção; esse clube que era o maior clube dos Açores até o poder socialista perceber que o futebol podia render votos e que, sendo na ilha de São Miguel que os votos mais contavam, mais valia investir no Santa Clara &amp;ndash; esse clube a que chamávamos &amp;ldquo;Lusitana&amp;rdquo;, ou mesmo &amp;ldquo;Sténia&amp;rdquo;, consoante a freguesia de que vínhamos ou as aspirações que cultivávamos, vai acabar. Não vai acabar com o futebol, note-se: vai acabar.&lt;br /&gt;
E eu, &lt;b&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;&lt;span style="font-size: larger;"&gt;em vez de limitar-me a perguntar onde estávamos todos enquanto isto acontecia, lamento a vergonha. A vergonha dos lusitanistas, dos terceirenses e dos açorianos. A minha própria vergonha, no papel de cidadão de cada uma dessas três identidades. A vergonha de um povo que se acomodou aos subsídios e perdeu o brio nas suas instituições. A vergonha de um poder político para o qual, se nem tudo são votos, nada interessa mais do que eles. A vergonha de uma modalidade que se centrou nas ligas de campeões, nas selecções nacionais feitas de estrangeiros e nas sociedades desportivas, esquecendo quase tudo o que lhe era essencial&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt; &amp;ndash; e que agora, um pouco por todo o país, um pouco por todo o mundo vai perdendo aqueles que foram os seus primeiros, mais abnegados e mais agregadores agentes. A vergonha, sim. Que ao menos nos pese a vergonha.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size: smaller;"&gt;&lt;b&gt;CRÓNICA (&amp;quot;Muito Bons Somos Nós&amp;quot;). NS', 6 de Fevereiro de 2010&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-01-30T23:48:50</issued>
    <title>Boi sentado</title>
    <published>2010-01-31T00:53:56Z</published>
    <updated>2010-01-31T00:53:56Z</updated>
    <category term="crónica"/>
    <content type="html">&lt;img width="301" vspace="3" hspace="3" height="248" border="3" align="left" src="http://www.dedodegente.com.br/imagens/produtos/182/sentado.gif" style="border-color: black;" alt="" /&gt;
&lt;p&gt;Horrorizamo-nos: &amp;ldquo;Credo, que coisa tão portuguesa&amp;hellip;&amp;rdquo; &amp;ndash; e com isso nunca queremos dizer mais nada senão: &amp;ldquo;De um terceiro-mundismo atroz!&amp;rdquo; Nada a fazer: trazemos connosco isto de que ser português é ser mesquinho, pobre de espírito, egoísta &amp;ndash; e, quando se trata de falar dos &amp;ldquo;portugueses em geral&amp;rdquo;, nunca somos um deles. Curiosidade: o hábito não é especialmente lusitano. A snobeira, já se sabe, é coisa de pobre &amp;ndash; e não há país novo-rico onde não se suspire: &amp;ldquo;Ah, como o meu povo é mesquinho&amp;hellip;&amp;rdquo; Os brasileiros fazem-no. Os angolanos fazem-no. Os eslovacos fazem-no. Os franceses não o fazem, mas porque são ricos há muito tempo &amp;ndash; e, de resto, nunca lhes faltou a vaidade colectiva. Muitos americanos não o fazem, mas por etnocentrismo &amp;ndash; e, em todo o caso, há sempre alguém, entre a classe &amp;ldquo;pensante&amp;rdquo; da costa Leste, disposto a fazê-lo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Portanto, isto não é um lamento sobre a portugalidade: é um desabafo sobre a espécie. Diz um daqueles emails que circulam pela web, chegando-me à caixa de correio a cada três semanas, que &amp;ldquo;Ser português é: levar arroz de frango para a praia; guardar as cuecas velhas para polir o carro; tirar a cera dos ouvidos com a chave do carro; gastar uma fortuna no telemóvel, mas pensar duas vezes antes de ir ao dentista; viver em casa dos pais até aos 30; falar mal do Governo e esquecer que se votou nele (&amp;hellip;)&amp;rdquo;. Ora, eu conheço uma dúzia de países onde também se leva arroz para a praia. Já estive noutra dúzia onde se guardam as cuecas velhas para polir o carro. Sei de pelo menos outra dúzia ainda onde se vive até aos 30 anos em casa do papá. E nunca ouvi falar de um só país, já agora, onde não houvesse a tradição de guardar lugar.&lt;br /&gt;
E, porém, é uma das mais irritantes características do ser humano quando confrontado com o tormento da espera: guardar lugar para um amigo, para a mulher, para o vizinho que se atrasou, que foi virar o carro ou que fez um desvio para comprar os chupa-chupas. Uma pessoa chega à cafetaria, leva com uma fila de vinte minutos para resgatar uma sopa e depois passa outros vinte às voltas pela sala, com o tabuleiro na mão e a mochila às costas e a sopa a pingar, à procura de um sítio para comer. &lt;b&gt;&lt;span style="font-size: larger;"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Há cadeiras vazias? Claro que há. Por exemplo: naquela mesa à esquerda, onde uma senhora gorda espera sozinha, tamborilando os dedos e ajustando os botões do camiseiro. Naquela mesa ao meio, onde um grandalhão aguarda em silêncio, feito boi sentado, de olhar disperso. Naquela mesa ao canto, onde uma rapariga fala alto ao telemóvel, combinando a noitada de sábado. E o que é que cada um deles nos responde se nos aproximamos com o tabuleiro, ousando sequer olhar para uma das cadeiras vazias? &amp;ldquo;Está ocupado.&amp;rdquo;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
Apetece virar a mesa. Apetece bater-lhes. Apetece fazer um chinfrim e chamar-lhes egoístas, anormais, filhos de uma grandessíssima mãe &amp;ndash; e era precisamente isso que faríamos, não fosse insurgir-se o receio de o grandalhão efectivamente ser tão grandalhão como parece, de a senhora rebentar de repente num pranto ou de a rapariga reconsiderar quanto a incluir-nos na sua tão promissora noitada. E, no entanto, nem uma hesitação: dizem-nos &amp;ldquo;Está ocupado&amp;rdquo;, como se fosse tão óbvio os lugares estarem ocupados como o céu ser azul e as nuvens branquinhas &amp;ndash; e, no fim, ainda franzem a testa, esticam o pescoço e sugam o ar pelo canto da boca, num estalido, como quem diz: &amp;ldquo;Azarito&amp;hellip;&amp;rdquo;&lt;br /&gt;
Depois precisamos de ir às Finanças, andamos uma hora às voltas para estacionar, avistamos um lugar milagroso entre dois Fiat Puntos &amp;ndash; e lá está de novo a senhora gorda, agora em pé, acenando e franzindo a testa porque o marido foi dar a volta ao carro e, portanto, o lugar já está ocupado. À noite vamos a um concerto no Coliseu, chegamos um bocado em cima da hora, a maior parte dos lugares livres ficam por detrás dos pilaretes &amp;ndash; e lá está a rapariga do telemóvel, com sete belas cadeiras vazias à volta, mas todas elas &amp;ldquo;ocupadas&amp;rdquo; por um dos pullovers velhos que ela traz numa mochila que tem especialmente para o efeito. No dia seguinte vamos ao supermercado e lá está o grandalhão a ocupar uma caixa, com ar absolutamente respeitável, enquanto a mulher foi dar uma última volta pelo corredor dos frescos, porque afinal tinha faltado o Häagen-Dazs.&lt;br /&gt;
Está mal. Está mal e, quando se trata de um Inverno tão longo como este, uma pessoa já só tem vontade de fazer como o Frank no seu sonho mais selvagem, regando tudo, acendendo um fósforo e estacionando do outro lado da rua, a rir e a ver arder. Eu nunca consegui tolerar estes bois &amp;ndash; e, em semanas assim, é sempre o Frank que me vale.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size: smaller;"&gt;&lt;b&gt;CRÓNICA (&amp;quot;Muito Bons Somos Nós&amp;quot;). NS', 30 de Janeiro de 2010&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-01-23T15:42:08</issued>
    <title>Esta flora estupenda, negra, artificial e insaciável</title>
    <published>2010-01-23T15:52:26Z</published>
    <updated>2010-01-23T16:38:24Z</updated>
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    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img width="300" vspace="3" hspace="3" height="233" border="3" align="left" src="http://news.cnet.com/i/bto/20100111/croppedRoxxxy_610x473.jpg" style="border-color: black;" alt="" /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que mais me constrange, nesta história da Roxxxy &amp;ndash; vocês sabem: aquela boneca mecânica que &amp;ldquo;Não cozinha, não aspira, mas ocupa-se de tudo o resto, se é que me faço entender&amp;rdquo; &amp;ndash; é a motivação que, no dizer do próprio, inspirou o seu criador, Douglas Hines, proprietário da empresa norte-americana True Company. Conta ele que, no fatídico dia 11 de Setembro de 2001, um dos seus melhores amigos estava a trabalhar no World Trade Center, vindo a falecer em resultado da queda das torres. &amp;ldquo;Prometi a mim mesmo que iria criar um programa que guardasse a sua personalidade, e isso acabou por originar a fundação da True Companion e o lançamento da Roxxxy&amp;rdquo;, explica.&lt;br /&gt;
A homenagem é comovente, a técnica de marketing quase brilhante. Douglas Hines não só é amigo do seu amigo, como conhece os botõezinhos emocionais dos compatriotas &amp;ndash; e, posto perante a necessidade de rentabilizar o milhão de dólares que investira na criação da dita boneca, partiu logo para a artilharia pesada: a comoção colectiva com o 11 de Setembro. Por outro lado, não lhe gabo as amizades. Diz o próprio, de novo sobre a boneca: &amp;ldquo;É uma autêntica companhia e tem personalidade própria. Entende, escuta e fala com o utilizador.  Se ele gosta de Porsches, ela também gosta.  Se ele gosta de futebol, ela também gosta&amp;rdquo; &amp;ndash; e eu só posso duvidar do seu entendimento sobre o que é a personalidade própria (e, portanto, da personalidade daqueles que o rodeiam também).&lt;br /&gt;
De resto, nada contra Roxxxy. Casa sem um brinquedinho sexual que seja não é casa nem é nada &amp;ndash; e, se alguém escolhe como artefacto uma morenaça grandalhona de 1,73 m, 54 quilos, sutiã copa C, coração mecânico e inteligência artificial (embora me pareça que estamos conversados sobre a inteligência da dita), pois que dê Deus saúde a Roxxsy, aos seus namorados e aos mecânicos que um dia tiverem de encarregar-se das terapias de casal. Tenho, porém, algumas objecções quanto a esta coisa da substituição do homem (ou da mulher) pela máquina. Sou um filho do capitalismo, é bem verdade, mas nem por isso deixo de ter coração.&lt;br /&gt;
O primeiro aspecto, como se diz nuns fóruns que eu cá sei, tem a ver com o preço de Roxxxy. A quanto anda uma &amp;ldquo;massagista&amp;rdquo; de carne e osso, por esta altura: cem euros? Pois, nesse caso, cinco mil euros equivalerão a cinquenta visitas ao ateliê de lady Véronique, masseuse &amp;ndash; e, portanto, vai ser preciso uma utilização assaz intensiva para promover a amortização do investimento, o que pode levar o utilizador a negligenciar as suas restantes actividades relevantes, incluindo noitadas de PlayStation, reuniões dos escuteiros e idas ao Estádio da Luz. Por outro lado, deve ser fácil, para ele, dar presentes de Natal à sua nova esposa: qualquer latinha de óleo Castrol a contenta, com certeza.&lt;br /&gt;
No mais, não me incomoda a ideia de alguém ter de levar a mulher à revisão de &amp;ldquo;x&amp;rdquo; em &amp;ldquo;x&amp;rdquo; quilómetros, que nós também levamos as nossas ao médico. Nem sequer a necessidade de, ocasionalmente, ligá-la à Internet para lhe actualizar o software, que (sabe Deus) também a nós nos apetece, tantas e tantas vezes, fazer um upgrade às nossas. Já me inquieta um pouco mais, confesso, a validade dessa promessa de que Roxxxy é o instrumento ideal &amp;ldquo;para que pessoas tímidas que não se atrevem a expressar a sua sexualidade possam ter experiências sem correr riscos&amp;rdquo;. Como se sabe, não há máquina que não avarie &amp;ndash; e a possibilidade de esta avariar, retorcendo-se nas suas roldanas e esmigalhando-se nas suas rodas dentadas e explodindo nos seus fusíveis, no exacto instante em que um homem está a expressar-se é perspectiva um tanto arrepiante.&lt;br /&gt;
Mas, enfim, o brinquedo não é para mim. No máximo, posso duvidar do conceito que preside à sua invenção, assim como da lógica por detrás de algumas das suas especificações. Quer dizer: &lt;b&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;&lt;span style="font-size: larger;"&gt;mesmo para um homem do século XXI, moderno e tal (como, claro, é o público-alvo de uma boneca sexual, especialmente esta), uma mulher que não cozinha nem aspira já é uma mulher com duas limitações a mais.  Agora, imaginemos que, para além de não cozinhar nem aspirar, essa mulher fala. E, entretanto, imaginemos ainda que, para além de não cozinhar, de não aspirar e de se pôr a falar durante a bola, o Telejornal e as reposições do Fama Show, essa mulher tem a cara do Cláudio Ramos depois de levar com uma tábua que se desprendeu do soalho&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;.&lt;br /&gt;
Pois eis, minhas esquálidas figuras dúbias, chefes de família vagamente felizes e paternais, os &amp;ldquo;Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força&amp;rdquo;, de que falava Álvaro de Campos. Acautelem-se, claro, é com o &amp;ldquo;Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria&amp;rdquo;.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size: smaller;"&gt;&lt;b&gt;CRÓNICA (&amp;quot;Muito Bons Somos Nós&amp;quot;). NS', 23 de Janeiro de 2010&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-01-16T18:52:09</issued>
    <title>O diabo em cuecas</title>
    <published>2010-01-16T18:54:02Z</published>
    <updated>2010-01-16T18:55:26Z</updated>
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    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img width="300" vspace="3" hspace="3" height="409" border="3" align="left" alt="" style="border-color: black;" src="http://img.blogs.abril.com.br/1/davintedigital/imagens/calca2.jpg" /&gt;Convencionou-se que quem nos oferece cuecas são as avós (pelo Natal) e as esposas (ao longo do resto do ano). Nem sempre é assim. Aqui há uns anos, por ocasião de um aniversário redondo, pessoa amiga, tomada sabe-se lá por que epifania, ofereceu-me um par de cuecas de marca. Lembro-me de apalpar o embrulho, semicerrar os olhos, franzir a testa e torcer ostensivamente o nariz, como sempre faz o aniversariante consciente de que está na iminência de abrir um presente indesejado e não encontra outro caminho senão apimentar o desconforto: &amp;ldquo;Não me digas que são meias, minha malandra&amp;hellip;&amp;rdquo; Pois não eram meias, não: eram cuecas &amp;ndash; um sumptuoso par de boxers platinum, perfeitamente chuleados e com um cós bordado a dizer Hugo Boss (em letras grandes) e depois The World Greatest (em letras mais pequeninas).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Guardei-as no fundo da gaveta &amp;ndash;  e nunca as estreei. Se passar o dia inteiro com as insígnias &amp;ldquo;O Maior do Mundo&amp;rdquo;, referindo-se essas palavras a mim próprio, já me parecia estranho, passar o dia inteiro com as insígnias &amp;ldquo;O Maior do Mundo&amp;rdquo;, referindo-se essas palavras a outrem (em concreto, ao sr. Boss), parecia-me um perfeito absurdo. Para além do mais, como é que uma pessoa tem coragem de andar 24 horas com um par de cuecas no valor de 50 ou 60 euros (a não ser que efectivamente cultive a esperança de um dia se cruzar com Beyoncé Knowles, isto é)? Como é que uma pessoa pode cobrir a genitália com o orçamento do Zimbabwe, a verba atribuída anualmente por José Sócrates à pasta da Cultura e os cachets das próximas duas sessões de fotografias de Ruth Marlene, tudo somado &amp;ndash; e não se sentir culpado com isso?&lt;br /&gt;
Naturalmente, se alguma vez, ao longo destes anos todos, me ocorreu ir ao fundo da gaveta e resgatar as Hugo Boss, The World Greatest, foi esta semana. &lt;b&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;&lt;span style="font-size: larger;"&gt;Era domingo, a chuva caía com uma abundância prodigiosa, o vento fazia tremer as fundações, o frio encarquilhava-nos a pele e penetrava-nos pelas juntas e ia ofender-nos os ossos, perfurando-os como um garfo e depois torcendo-se sobre si próprio. E, no entanto, ali andavam eles pelo metro de Lisboa: centenas de rapazes e de raparigas em cuecas, pernas cabeludas e rabos que ainda podiam ter algum préstimo, coxas celulíticas e canelas perfeitinhas &amp;ndash; tudo numa feliz boa-vai-ela, como se não fosse Inverno, como se não houvesse gripe, como se a retoma não estivesse ainda a ano e meio de distância. E eu tive inveja&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;: pela liberdade, pela ousadia &amp;ndash; e, naturalmente, pelo despojamento com que exibiam as suas cuecas Calvin Klein, as suas tangas La Perla e os seus boxers Hugo Boss iguaizinhos aos que eu um dia proscrevera.&lt;br /&gt;
Compromissos inadiáveis impediram-me de comparecer. Mas fiquei sensível à mensagem da urgência de causar &amp;ldquo;situações de caos e de alegria&amp;rdquo;, de forma a deixar as pessoas &amp;ldquo;mais conscientes de que às vezes as regras se alteram e o mundo não é sempre igual&amp;rdquo;, como disseram os organizadores da dita flash mob &amp;ndash; e estou convencido de que, de facto, o melhor a fazer é andar em cuecas no metropolitano, promover guerras de almofadas e organizar campanhas de abraços grátis. E, como me sinto um tanto descoroçoado por o Dia Sem Calças (eu gosto de chamar-lhe &amp;ldquo;Dia Em Cuecas&amp;rdquo;, mas é petit nom) só regressar em Janeiro que vem, decidi propor à ImprovLisboa, com autorização inclusive para ela usar as minhas ideias na reuniões do comité mundial da ImprovEverywhere, uma série de &amp;ldquo;Dias Sem&amp;rdquo; e &amp;ldquo;Dias Com&amp;rdquo; a realizar ao longo de 2010, de forma a irmo-nos ocupando com alguma coisa até ser hora de despir as calças outra vez.&lt;br /&gt;
Uma ideia, por exemplo, era fazer-se o Dia Sem Parvoíces De Quem Não Tem Mais Nada Para Fazer Senão Andar a Chamar a Atenção Sobre Absolutamente Nada. Outra era fazer-se o Dia Com Um Trabalhinho Para Ociosos Urbanos Que Não Sabem A Diferença Entre Vestir As Calças Ou Andar Com Elas Na Mão, Entre Comer A Sopa Em Silêncio Ou Sorvê-la Com O Ruído De Um Aspirador, Entre Sentar-se Direito Numa Cadeira Ou Descalçar Os Sapatos E Pôr Os Pés Nojentos Em Cima da Mesa. E outra ainda era fazer-se, no fim, como uma espécie de gala final, o Dia Sem Grilhões De Espécie Alguma, incluindo livre-trânsito para as pessoas escarrarem e darem traques em público, roubarem chocolates no supermercado e ficarem a dever os créditos ao banco, fornicarem pelas praças e atropelarem os peões nas passadeiras.&lt;br /&gt;
Afinal, todas estas convenções em que vivemos são o quê, senão o sinal de uma sociedade doente, subjugada por regras e incapaz de perceber que o mundo não tem de ser sempre igual? Sejamos diferentes. Toca a dar traques.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-01-09T16:14:03</issued>
    <title>As curvas de Zé Carioca</title>
    <published>2010-01-09T16:18:04Z</published>
    <updated>2010-01-15T23:50:44Z</updated>
    <category term="crónica"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img width="300" vspace="3" hspace="3" height="225" border="3" align="left" alt="" style="border-color: black;" src="http://osexoeacidade.files.wordpress.com/2008/08/ruth-marlene-fhm-record.jpg" /&gt;Confronto-me com mais um criterioso casting para a capa da Playboy portuguesa e lembro-me de uma anedota da infância. Um homem abastado, pai de uma só filha, recebe em casa um pretendente à mão da miúda. O jantar corre bem: Pedro Miguel está nervosíssimo, Margaridinha idem aspas &amp;ndash;mas a mãe, bondosa, desdobra-se em simpatias para com o rapaz e o velho, bem vistas as coisas, podia estar muito mais mal-encarado do que está. Até que a refeição acaba, as mulheres retiram-se para a cozinha e os homens sentam-se junto à lareira, para fumar. &amp;ldquo;O cavalheiro pretende casar com a minha filha por amor ou por interesse?&amp;rdquo;, pergunta, enfim, o velho dr. Sousa, cheio de gravidade. O moço pensa, meneia a cabeça, franze a testa. E dispara: &amp;ldquo;Olhe, doutor, deve ser por amor, porque interesse nela eu não tenho nenhum.&amp;rdquo;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O mesmo, de alguma forma, se passa com a Playboy portuguesa. Depois de Ana Malhoa, Cláudia Jacques e Cristina Areia, a Playboy-a-que-temos-direito desnuda agora Ruth Marlene, que se faz acompanhar nas fotografias pela sua irmã Jéssica (não, não é brincadeira, a moça chama-se mesmo Jéssica, louvado seja Deus Nosso Senhor, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz). Pois é quanto basta para declararmos consumado mais um feito único da autoria da Playboy portuguesa. Depois de ter sido uma das primeiras Playboys do mundo a colocar um homem na capa (Ricardo Araújo Pereira, na edição de Dezembro), a Playboy portuguesa confirma-se também como a primeira Playboy do mundo que os leitores efectivamente compram pelos artigos. Pelas mulheres que ela lá traz é que ninguém a compra, de certeza absoluta.&lt;br /&gt;
Por acaso, estou a ser mauzinho. Na verdade, até tenho bastante ternura por Ruth Marlene, que, depois da última plástica que fez ao nariz, ficou parecidíssima com um candeeiro do Zé Carioca que eu tinha na mesa de cabeceira durante a infância, e à luz do qual praticamente aprendi a ler (devo-lhe tanto, ao diabo do candeeiro). Mais: se alguma coisa tem preocupado a Playboy portuguesa, é fazer as pessoas felizes. Pelo andar da carruagem, não há-de tardar muito até termos a senhora dona Júlia Pinheiro na capa, para infinito deleite de tantos e tantos frequentadores dos centros de dia deste país, tão necessitados andam eles de uma alegriazinha &amp;ndash; e, mais tarde ou mais cedo, ainda haverá, enfim, umas páginas para a taróloga Maya, o que, tendo em conta as ansiedades da senhora, não deixa de ser um gesto de uma caridade imensa.&lt;br /&gt;
Mas não deixa de provocar-me alguma curiosidade a reacção do velho Hugh, lá na mansão californiana onde costuma mandar uns piropos às coelhinhas antes de mais um crapaud com o motorista (a denúncia não é minha, é de Kendra Wilkinson,  uma rapariga que viveu lá ano e meio e só fez sexo duas vezes) a este, digamos, estado de coisas. Quer dizer: como é que os senhores da Playboy portuguesa justificam ao bom do Mr. Hefner as escolhas que fazem para a capa da revista? Pronto, vá lá: não falo de Ricardo Araújo Pereira, que de facto é um naco (embora tenhamos ficado todos com a impressão de que tinha muito mais para mostrar, pois aquilo, no fundo, foram só as covinhas do queixo e mais nada). E também não falo de Ana Malhoa, que como todos sabemos foi a inspiração primeira do estilo de Rhianna (e que, portanto, Los Angeles conhece bem). Mas &lt;b&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;&lt;span style="font-size: larger;"&gt;como explicar-lhe que, onde um dia a Playboy teve Marilyn Monroe, a Playboy portuguesa tenha Cláudia Jacques; que, onde um dia a Playboy teve Jane Mansfield, a Playboy portuguesa tenha Cristina Areia; que, onde um dia a Playboy teve Ursula Andress, a Playboy portuguesa tenha o meu candeeiro do Zé Carioca, ainda por cima acompanhado de um candeeirinho chamado (louvado seja Deus Nosso Senhor, Maravilhoso Conselheiro, Anjo da Aliança) Jéssica?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;
Pois talvez o elucidem, assim que o velho começar a levantar cabelo: &amp;ldquo;Mas Hugh (podemos tratá-lo por Hugh?), não se esqueça de que cada uma destas raparigas se despe por apenas 800 euros&amp;hellip;&amp;rdquo; &amp;ndash; e o mais provável é que o argumento colha. Efectivamente, e após 55 anos a investir milhões para fazer uma revista que não fosse apenas de divas despidas, Hugh Hefner está agora falido, como se lê por toda a imprensa norte-americana. E talvez seja isso, aliás, a explicar porque é que, depois de tantos velhos empresários de comunicação social terem tentado sem sucesso obter o franchise da Playboy para Portugal, o fundador da revista tenha optado por entregá-la a uns tipos que, para não fazerem uma revista apenas de divas despidas, decidiram fazer uma revista apenas de mulheres nuas.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size: smaller;"&gt;&lt;b&gt;CRÓNICA (&amp;quot;Muito Bons Somos Nós&amp;quot;). NS', 9 de Janeiro de 2010&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-01-02T17:01:30</issued>
    <title>A morte dos cafés</title>
    <published>2010-01-02T17:24:40Z</published>
    <updated>2010-01-02T17:24:40Z</updated>
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    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img width="300" vspace="3" hspace="3" height="449" border="3" align="left" src="http://www.textually.org/ringtonia/archives/images/set3/too-loud-2.png" style="border-color: black;" alt="" /&gt;Se há coisa que me complica com os nervos, é &amp;ldquo;um espaço&amp;rdquo;. Um restaurante que não é bem um restaurante, mas &amp;ldquo;um espaço&amp;rdquo; onde se degustam iguarias especialíssimas, entre outros apontamentos gourmet. Uma livraria que não é bem uma livraria, mas &amp;ldquo;um espaço&amp;rdquo; de cultura e de troca, ideal para chás exóticos e longas conversas sobre o sentido da vida. Um bar que não é bem um bar, mas &amp;ldquo;um espaço&amp;rdquo; onde imperam o design, o bom gosto e a música assim-assim.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sempre preferi, para dizer a verdade, as pessoas. São as pessoas, para mim, a determinar a atmosfera de um lugar &amp;ndash; e, se hoje recordo os velhos botequins, de cujo tempo ainda sou, não é de certeza pelo balcão de mármore ou pelas mesas com tampo de fórmica onde se jogava dominó (as mesmas mesas que os &amp;ldquo;espaços&amp;rdquo; foram recuperar às lojas de penhores), mas pelos bêbebos que se acumulavam pelos seus cantos, o Ti Manuel Gatinho e o João Branco, o José Jadeu e o próprio Ti António Nosso, que nem sequer sei se era bêbedo mas parece que se matou.&lt;br /&gt;
De forma que, durante todos os anos em que, mais tarde, fui frequentador de cafés, era atrás desses homens que ia: do seu esgar de raiva ao fazer estampar sobre a fórmica um doble de senas, dos seus monossílabos ao mesmo tempo rudes e ternos, das suas histórias que não vinham de lado nenhum nem perseguiam qualquer propósito &amp;ndash; até das vezes que cada um deles se acercava do pórtico para escarrar lá para fora, não fosse a tia Chica estar à coca e fazer queixa ao Jorge quando ele chegasse da cidade, que então sim haviam de ser elas.&lt;br /&gt;
Nunca mais os encontrei (embora tenha procurado pouco por portos e docas, é verdade). Entretanto, morreram os botequins &amp;ndash; e com eles, provavelmente, uma parte da minha curiosidade sobre o que serão as pessoas da sua porta para dentro e o que disso deixam entrever quando estão com os copos, com a ânsia de baralhar o dominó ou apenas com a solidão. Mas houve um tempo, mesmo assim, em que os cafés me deram histórias.&lt;br /&gt;
O Café dos Artistas, no Parque Meyer, por onde cirandava o pessoal da Revista e estacionava ao longo de todo o dia uma senhora para quem eu estava a estudar para médico e tinha de diagnosticar-lhe um nó que sentia na garganta. A Pastelaria Primavera, no Casal do Marco, onde bebiam o Vasco e o Redondo e o Nuno (era Nuno?), que perdiam sempre no snooker mas não me davam hipóteses na aguardente. A Leitaria Santa Bárbara, em Angra, onde o Jacinto, a um canto, me cumprimentava com o &amp;ldquo;Ora fifa!&amp;rdquo; do costume &amp;ndash; e onde eu me condoía com a doença mental, a doença dele e a de quem mais houvesse pirado, assim impotente perante as obrigações e as rotinas e as conversas mais banais do quotidiano.&lt;br /&gt;
Pois tudo isso acabou. &lt;b&gt;&lt;span style="font-size: larger;"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;Em Lisboa e em Angra do Heroísmo, no Porto e em Vila Velha de Ródão &amp;ndash; cada café em que eu entre está agora transformado numa de duas coisas: num café que não é bem um café (antes, lá está, &amp;ldquo;um espaço&amp;rdquo;) ou numa espécie de discoteca de feira cigana, com a Rádio Comercial ou (mais frequentemente ainda) a RTP aos gritos, os velhos berrando uns com os outros porque querem ouvir o que está a dizer a menina Sónia Araújo e as senhoras de meia idade pousando o saco das compras e de imediato batendo o pé e abanando a cabeça de forma ostensiva, naquela sua maneira muito peculiar de dizerem que ainda são jovens e felizes&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;.&lt;br /&gt;
Os cafés e, de resto, as papelarias, as floristas, os cabeleireiros e os talhos: tudo transformado num grande mercado medieval com dolby surround e ecrã plasma, o Pedro Ribeiro a contar anedotas e a Sónia Araújo a fazer rugas de tanto sorrir, os jornais jogados a um canto e a empregada demorando o galão de máquina até o Quim Barreiros acabar a cantoria, os velhos perguntando-se a si próprios se é mesmo melhor aquilo do que a aguardente e as senhoras das compras rogando pragas à prole, que se era apenas por causa da sua provecta idade não teria sido preciso ir procriar a trinta quilómetros de distância, pois, como se vê pelos gostos musicais e pela agilidade do artelho, elas próprias ainda estavam em condições de formar os netos e de prepará-los para a modernidade&lt;br /&gt;
Já ninguém conversa nos cafés (era isso que eu queria dizer) &amp;ndash; e é pena. Bem vistas as coisas, até a barulheira da máquina de moer grãos e o escarro ocasional dos jogadores de dominó eram preferíveis a este autismo que agora povoa os bairros portugueses. Terreno fértil para os &amp;ldquo;espaços&amp;rdquo;, naturalmente. É dos autismos que as religiões se alimentam.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size: smaller;"&gt;&lt;b&gt;CRÓNICA (&amp;quot;Muito Bons Somos Nós&amp;quot;). NS', 2 de Janeiro de 2010&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-12-26T20:18:11</issued>
    <title>Vinte anos disto</title>
    <published>2009-12-26T20:24:51Z</published>
    <updated>2009-12-26T20:24:51Z</updated>
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    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img width="300" vspace="3" hspace="3" height="300" border="3" align="left" src="http://rlv.zcache.com/save_a_journalist_buy_a_newspaper_tshirt-p235715584762340934uh8q_400.jpg" style="border-color: black;" alt="" /&gt;Diz Agustina que estamos sempre a escrever o mesmo livro, independentemente da trama e do próprio género, do fulgor de cada momento e até das manobras de diversão a que recorremos para despistar o voyeurismo &amp;ndash; e a mesma coisa se passa, até certo ponto, com as crónicas de jornal. Colecção de perplexidades e obsessões, cada crónica de jornal é, no essencial, um fragmento da biografia do seu autor. De maneira que, se aqui ando há uma eternidade a abusar do vosso tempo para encher-vos de mim próprio, mal nenhum virá ao mundo se o fizer ainda uma última vez antes que badalem as badaladas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Passaram-se em 2009 vinte anos sobre a primeira vez que publiquei um texto num jornal &amp;ndash; e, agora que se conclui mais uma translação e a regra pede o chamado balanço do ano, só me apetece acender um charuto, recostar-me na poltrona e aborrecer-vos com as gloriosas histórias dos muitos chefes de Estado com quem privei, das inúmeras vezes que estive debaixo de fogo, ouvindo-as assobiar &amp;ndash; e, naturalmente, das imensas estagiárias que, ao longo destas duas décadas, não conseguiram resistir aos meus encantos de repórter de guerra acabado de chegar de um cenário de conflito.&lt;br /&gt;
Não se preocupem: nunca estive debaixo de fogo, da única vez que tentei penetrar na Casa Branca um senhor de auricular perguntou-me se era o novo rapaz das entregas da Myers Flower Shop, de cujas petúnias aparentemente madame Hillary não podia dispensar-se &amp;ndash; e, quanto às raparigas, o melhor que posso argumentar em minha defesa é que não me lembro agora dos nomes todos, pelo que guardo a enumeração para as memórias (com a promessa de que será exaustiva). Além disso, sempre me interessaram muito mais os losers, as pequenas histórias e os minúsculos equívocos do quotidiano &amp;ndash; e aos equívocos não vale a pena enumerá-los assim, a correr, sem tempo nem espaço para insinuar aquilo de que são visitadores.&lt;br /&gt;
Mas sempre &lt;b&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;&lt;span style="font-size: larger;"&gt;quero deixar registado (e agora vamos entrar numa parte um bocado lamechas, se calhar é melhor pararem por aqui) que nem quando eu me sentava na cozinha fria dos Açores, folheando os jornais da adolescência e engendrando planos para tomar de assalto o Washington Post e a cadeira de Bob Woodward, eu podia imaginar que uma pequena crónica, um ínfimo apontamento, uma breve que seja continuariam, vinte anos depois, impregnados da mesma vertigem original daquelas dez ou doze linhas escritas a esferográfica&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;, versando a minha indignação perante o facto de os clubes de futebol madeirenses serem muito mais generosamente subsidiados do que os congéneres açorianos (o meu mundo era limitado, eu sei), que um dia fui entregar à redacção do Diário Insular.&lt;br /&gt;
Passaram-se duas décadas. Entretanto, deixei os Açores, andei na faculdade, conheci o meu bocadinho de mundo. Trabalhei em jornais desportivos, em jornais populares e em jornais de referência. Fui estagiário e fui redactor, fui chefe (o pior chefe da História) e fui freelancer. Escrevi livros, enterrei amigos e escrevi novos livros para dedicar a esses amigos. Fui gordo, fui magro, fui novamente gordo e novamente magro. O que nunca deixou de lá estar foram os jornais.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Conheci-os quando o Luciano começou a levá-los lá para casa, dissecando-me as tragédias do Sporting &amp;ndash; e, quando dei por mim a fazer os meus próprios, redigidos na máquina de escrever que pedi emprestada a um tio e não cheguei a devolver-lhe em vida, percebi que me tinha apaixonado. De então para cá, desencantei-me várias vezes. E, no entanto, aí estão eles ainda, proporcionando-me uma vigia sobre o mundo, trazendo-me leitores conhecidos e leitores anónimos, perfumando de tinta e de papel reciclado e de magia o meu café matinal.&lt;br /&gt;
Quando os jornalistas me perguntam o que é que eu sou, costumo responder: &amp;ldquo;Sou um escritor de jornais.&amp;rdquo; Quando os escritores me olham com aquele ar de quem me reconhece como um deles, não tardo a encontrar uma oportunidade de dizer-lhes: &amp;ldquo;Sou um jornalista dos livros.&amp;rdquo; Sempre tive um problema com as hordas, as capelinhas e as camisolas fáceis. Mas o que nunca deixei de ser (e por mais que tenha sido outras coisas em simultâneo) foi isso: um homem dos jornais. E, se a um adolescente que me escreva a pedir conselhos começo sempre por enumerar os defeitos da profissão (&amp;ldquo;muito trabalho&amp;rdquo;, &amp;ldquo;pouco dinheiro&amp;rdquo;, &amp;ldquo;cada vez menos do prestígio do passado&amp;rdquo;), algo dentro de mim tem vontade de erguer-lhe o copo e parafrasear o brinde americano: &amp;ldquo;A nós e àqueles como nós, que apesar de tudo ainda os há alguns!&amp;rdquo;&lt;br /&gt;
Os jornais vão acabar, como se diz agora? Pois, enquanto não acabarem, não acabaram.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size: smaller;"&gt;&lt;b&gt;CRÓNICA (&amp;quot;Muito Bons Somos Nós&amp;quot;). NS', 26 de Dezembro de 2009&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-12-19T23:47:03</issued>
    <title>O homem do vinho</title>
    <published>2009-12-20T00:53:44Z</published>
    <updated>2009-12-20T00:53:44Z</updated>
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    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img width="300" vspace="3" hspace="3" height="195" border="3" align="left" src="http://www.thesunblog.com/gourmetgal/WineGoneBad.JPG" style="border-color: black;" alt="" /&gt;Nós nunca sabemos bem o que a nossa memória vai reter &amp;ndash; e não raras vezes damos por nós surpreendidos como uma recordação inútil, tirada de um filme série B ou apenas de um dia sem inspiração (mas que, apesar disso, nos repovoa sempre que determinada situação se repete). Eu, por exemplo, sou frequentemente repovoado por uma cena de Acorrentados (ou de outro qualquer sucedâneo de Big Brother, não me lembro bem qual). Dois concorrentes, um rapaz e uma rapariga, ganham um jantar. O restaurante é de qualidade, as câmaras estão lá &amp;ndash; e tanto um como o outro vão lindos, cerimoniosíssimos, impressionando-se um ao outro e até, de alguma maneira, a si próprios. Até que o empregado lhes traz o vinho (branco, para acompanhar peixe) e serve a pinguinha da prova. O rapaz põe a sua melhor pose. Beberica e pensa. Beberica de novo e bochecha um bocadinho. Cheira, chocalha, volta a bebericar &amp;ndash; e só então faz uma ligeira vénia, assentindo quanto à qualidade do néctar. O empregado vira costas. E diz ele, irrompendo num riso nervoso: &amp;ldquo;Hugh-hugh [esgar quase irreproduzível, exigindo onomatopeia]. Tá xequinho!&amp;rdquo;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pois todas as vezes que estou num restaurante e assisto a essa cena da prova, o tipo muito cerimonioso em frente a uma rapariga &amp;ndash; e mais cerimonioso ainda se em frente a plateia maior &amp;ndash;, chocalhando e cheirando o vinho, bochechando-o e assentindo com uma vénia, imagino-o num esgar, assim tenha o empregado virado as costas: &amp;ldquo;Hugh-hugh. Tá xequinho!&amp;rdquo; Quando estou num restaurante e, aliás, quando estou no supermercado. Qual é o corredor de que eu mais gosto num supermercado? O dos vinhos. Não há só uma razão para isso, claro. No supermercado que eu frequento, o corredor dos vinhos fica mesmo ao lado dos dos frescos, com a prateleira de queijos gordos a vedar a entrada e as promoções de caju a disfarçar a saída &amp;ndash; e, quando um homem vai às compras a dois, obrigando-se a acenar afirmativamente em direcção a propostas de seitan e de salsichas de peru, de rúcula e de bolachas de arroz, não tarda dá por si com uma certa necessidade de evasão. Acontece que é precisamente ali, no corredor dos vinhos, que se encontram os homens do vinho. E nada me diverte mais, num supermercado, do que os homens do vinho.&lt;br /&gt;
Porque eu sei onde é que eles vão a seguir: vão a uma festa. Porque eu sei do que é que eles ficaram encarregados:  de levar o vinho. E porque eu sei como é que essa festa decorrerá. Um nadinha atrasado, fazendo-se esperar apenas aquele subtil espaço de tempo durante o qual os convivas ainda não podem tê-lo, mas já se permitem desejá-lo, o homem do vinho vai vestido com uma de duas fardas: um fato azul escuro sem gravata, à yuppie em gozo de merecida folga, ou com um longo casaco de pele de pêssego, à intelectual que interrompeu o acto da criação para ir privilegiar aqueles circunstantes com a sua presença. Em qualquer caso, traz as garrafas de vinho num saco de papel e o rosto naquele modo blasée que só consegue pôr quem já viu muita coisa e andou por muitos lugares. E, então, dá início ao seu show: abre o saco com a pompa de quem descerra a Arca Sagrada, dispõe as garrafas sobre a bancada da cozinha como quem alinha uma colecção de Rodins &amp;ndash; e depois ali fica, à espera dos elogios: o pelintra de sempre, mas um pelintra que viu o Sideways e empinou o almanaque do João Paulo Martins.&lt;br /&gt;
Porque é isso o vinho, não é &amp;ndash; o que distingue a classe do resto? Eu acho que é (assim como assim, já toda a gente tem um BMW). E portanto ali permanece o nosso homem, sempre nas imediações das bebidas, sempre com a testa levemente franzida, sempre à coca de alguém que observe, em direcção à anfitriã: &amp;ldquo;Mas este vinho é maravilhoso, Paula. Quem trouxe?&amp;rdquo;, permitindo-lhe enfim erguer o copo, conferir o néctar em contra-luz e penetrar distraidamente na conversa: &amp;ldquo;Um trincadeirazinho curioso que andam a fazer ali em Pias... 2002. Um razoável ano, por sinal.&amp;rdquo; Ora, podia (e era isto que eu queria dizer) ser meu amigo, esse homem? Difícil. &lt;b&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;&lt;span style="font-size: larger;"&gt;Se alguma coisa lhe admiro, é a possibilidade de desencaminhar a estagiária loira, à hora de almoço, para ir vê-lo comprar vinho à Garrafeira de Campo de Ourique, tratando aquele senhor gordo pelo nome e ensaiando o espectáculo para o fim-de-semana seguinte. De resto, prefiro esperar que um dia, almoçando à minha frente, ele rejeite uma garrafa que o empregado lhe traga  &amp;ndash; e que, na sua argumentação de recusa, seja capaz de demonstrar que não o faz apenas para provar que pode. Até lá, chamem-me bruto, bebo cerveja&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;. Essa sim, hugh-hugh, está sempre fresquinha.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size: smaller;"&gt;&lt;b&gt;CRÓNICA (&amp;quot;Muito Bons Somos Nós&amp;quot;). NS', 19 de Dezembro de 2009&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-12-12T19:13:11</issued>
    <title>Uma stripper lá em casa</title>
    <published>2009-12-12T19:15:39Z</published>
    <updated>2009-12-12T19:30:31Z</updated>
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    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img width="300" vspace="3" hspace="3" height="451" border="3" align="left" alt="" style="border-color: black;" src="http://farm4.static.flickr.com/3097/2781924519_a30341e8e8_o.jpg" /&gt;Eu sabia que a palavrinha não tardava &amp;ndash; e, efectivamente, escassas linhas mais à frente, lá estava ela: &amp;ldquo;auto-estima&amp;rdquo;. A história: uma rapariga de Lisboa tirou um curso de Psicologia, mudou-se para Londres a convite de uma empresa multinacional, aborreceu-se com aquele nevoeiro todo, inscreveu-se num curso nocturno na London School of Striptease (uma espécie de London School of Economics and Political Science, mas em versão Demi Moore) e agora, aos 31 anos, anda a percorrer os ginásios de Portugal dando aulas de &amp;ldquo;striptease e burlesco&amp;rdquo; a raparigas sérias, senhoras casadas e noivas em dia de despedida de solteira.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não vou entrar em muitos pormenores &amp;ndash; a história vinha toda contada na última edição desta mesma revista. O importante é isto: desde que tenham &amp;ldquo;entre os 18 e os 80 anos&amp;rdquo;, todas as mulheres portuguesas podem agora, ao som de Marvin Gaye, Peggy Lee ou (supõe-se) Joe Cocker, aprender a técnica do bump&amp;amp;gind, baseada numa suave rotação de anca que termina com um remate seco da mesma na direcção de uma das ilhargas (&amp;ldquo;a fazer lembrar Betty Boop&amp;rdquo;), ou mesmo aquele outro movimento que não tem nome, mas passa por uma palmada no próprio rabo, após a qual a dançarina vira ostensivamente o olhar para a audiência, com claros benefícios (lá está) para a sua auto-estima.&lt;br /&gt;
É todo um mundo novo que se abre à frente das mulheres. Casadas ou solteiras, executivas ou desperate housewifes, em estado normal ou mesmo grávidas (sim, mesmo grávidas, desde que não &amp;ldquo;muito&amp;rdquo;), elas não só estão agora autorizadas a fazer figura de urso, como ainda por cima a mostrar o orgulho que têm nisso. Lamenta Isabel Martins: &amp;ldquo;Em Londres, há muitas mulheres de negócios que à noite fazem os seus espectáculos. Aqui, ainda tenho muitas pessoas que vêm ao workshop às escondidas da família e dos amigos.&amp;rdquo; Estou com ela: este país está feito uma parvalheira. Entretanto, porém, registo com esperançoso deleite a notícia de que a maior parte das suas alunas não só já cumpre o dressing code da (hum) modalidade, aparecendo nas aulas de saia e de top, como ainda por cima traz logo sapatos altos.&lt;br /&gt;
Mas tenho, já agora, algumas objecções. Primeira: para quê estes anos todos de luta pela igualdade de direitos, se tantas e tantas mulheres mais não querem, afinal, do que ser reduzidas aos objectos dançantes a que nós, com tão boa vontade, as reduzíamos no passado? Segunda: para quê toda esta obsessão com a nudez, se tantas e tantas mulheres (como tantos e tantos homens) se encontram já numa idade em que ficam muito mais bonitas vestidas do que despidas? Terceira: embora a auto-estima seja importantíssima e isso tudo, não seria talvez melhor estimarmo-nos um bocadinho menos e não perdemos tempo com parvoíces? Quarta (e esta é mais um pedido pessoal do que uma objecção): importa-se a senhora professora stripper de não insistir na tecla de que até já teve uma aluna de 59 anos, visto ser essa a idade da minha própria mãe?&lt;br /&gt;
De resto, não me admira que os ginásios invistam em aulas de strip. Da maneira que as coisas andam, basta alguém dizer que gostava de aprender a jogar à bisca lambida, que logo aparece um professor todo atlético pronto a ensinar a lamber o polegar (e, aliás, alcandorado de provas científicas de que uma boa cartada é fundamental para a auto-estima). E também não me admira que a pioneira no striptease-com-benefícios-para-o-bem-est&lt;wbr /&gt;ar-geral seja uma psicóloga. Aliás, por mim, estes psicólogos que polvilham as páginas dos jornais e das revistas, a brincar aos Carlos Amarais Dias, bem podiam enveredar todos por uma carreira no varão. Quando a esta senhora Isabel Martins, e por muito bonitinha que seja, até nem tenho grande curiosidade. Mas já guardei na carteira uma nota de vinte com o nome de Eduardo Sá escrito.&lt;br /&gt;
No mais, qualquer fascínio pela arte do strip enferma de dois equívocos. Ao contrário do que diz Isabel Martins, não é verdade que seja &amp;ldquo;quase impossível sair de um par de calças de ganga de forma sensual&amp;rdquo;. &lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;&lt;span style="font-size: larger;"&gt;&lt;b&gt;Uma mulher sexy será sempre uma mulher sexy, mesmo que vestida de esquimó &amp;ndash; e uma mulher a fingir que é sexy será sempre uma mulher a fingir que é sexy, mesmo que (ou sobretudo se) vestida com sapatos altos, meias de renda e mais nada. E, ao contrário do que pensam todas as alunas de Isabel Martins, não há um só homem que, podendo entabular conversa com uma mulher de calças de ganga, preferisse vê-la no varão&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;. O varão é o quê, afinal: uma metáfora para o nosso membro viril? E é suposto o quê: sentimo-nos bem na nossa própria pele, quando confrontados com aquele falo monstruoso a que ela, nua e exigente, se agarra agora?&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size: smaller;"&gt;&lt;b&gt;CRÓNICA (&amp;quot;Muito Bons Somos Nós&amp;quot;). NS', 12 de Dezembro de 2009&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-12-05T11:43:17</issued>
    <title>Num doce balanço, a caminho do mar</title>
    <published>2009-12-05T11:48:21Z</published>
    <updated>2009-12-05T11:48:21Z</updated>
    <category term="crónica"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img width="301" vspace="3" hspace="3" height="192" border="3" align="left" src="http://oglobo.globo.com/fotos/2007/04/22/22_MHG_cult_camila.jpg" style="border-color: black;" alt="" /&gt;Como se já não bastassem os gays, agora temos as brasileiras. Todas os meses, e esteja eu em Lisboa ou nos Açores, no Minho ou no Alentejo, ouço uma mulher portuguesa, a propósito de um filho, de um vizinho ou (sobretudo) de um pretendente involuntário, ter um desabafo do género: &amp;ldquo;Eu não sou nada xenófoba. Juro. Mas, caramba, ele vai casar com uma brasileira&amp;hellip; Com uma brasileira!&amp;rdquo; Para uma certa categoria de portuguesas, mais valia que os filhos, os vizinhos e os ex-futuros maridos casassem com uma boneca insuflável, uma ovelha ou mesmo uma abóbora, para citar apenas as heroínas românticas de Saramago. Brasileiras é que não. São todas levianas, vêm todas à procura de dinheiro &amp;ndash; e, se o casamento der para o torto, de bom grado passarão a dedicar-se à má vida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não são apenas as mulheres a desdenhar do que vem do Brasil, diga-se. Para muitos de nós, o brasileiro é o português que relaxou e saiu para sambar. Pensamo-lo nós, os detentores da mais frágil economia europeia, sobre eles, os protagonistas de uma das economias mais fulgurantes do mundo: o brasileiro é o português que fracassou na vida. O país que construiu, e que nós tão bem conhecemos durante aquela semana e meia que passámos em Porto de Galinhas, é uma coisa sem rei nem roque, manhosa e cheia de segundas intenções &amp;ndash; e ele próprio, naturalmente, é assim também: vigarista e falinhas mansas, preguiçoso e ladrão de bancos. Se for futebolista, claro, pode jogar na selecção portuguesa. Mas com o mesmo estatuto que, antigamente, tinham as criadas trazidas da província: gente para lavar os paninhos da senhora, corresponder às necessidades do senhor, ajudar na iniciação do menino &amp;ndash; e depois ir parir longe, a desavergonhada.&lt;br /&gt;
Pois eu, que li o Érico e ouvi o Chico, que me ri com o Jô e dancei com a bateria do Salgueiro, que fiz amigos em Porto Alegre e me apaixonei em São Paulo &amp;ndash; eu sei demasiado do Brasil e dos brasileiros para embarcar nessa conversa dos manhosos e das arrivistas. Dizer que todos os brasileiros são aldrabões e todas as brasileiras levianas é o mesmo que dizer que todos os portugueses emigrados no Brasil são padeiros e se chamam Seu Manoel e que todas as portuguesas emigradas em França são porteiras e se chamam Madame Silvá. E, assim de repente, lembro-me de umas quatro ou cinco brasileiras com quem me casaria sem pestanejar (se não fosse já casado, isto é): Gisele Bündchen, Maria Rita, Maitê Proença (sim, Maitê Proença), Camila Pitanga, Juliana Paes. Estas todas e, aliás, uma série de outras que me interessariam sobretudo por razões físicas, portanto não intelectuais.&lt;br /&gt;
Casaria eu e casará, com total apoio do pai, um filho meu, se assim o entender. Mesmo sendo açoriano, sempre fui muito bem acolhido aqui, neste vosso país &amp;ndash; e nada terei contra um casamento com uma nativa, tentação em que eu próprio já caí. Mas há algo numa brasileira bonita que me encanta. Talvez seja apenas o sotaque, mas o mais provável é que seja o facto de quase todas elas parecerem saídas de uma daquelas telenovelas que me povoaram a adolescência. Más, as novelas brasileiras? Pelo amor de Deus: as novelas brasileiras puseram frente a frente os ricos e os pobres (e depois misturaram-nos); puseram frente a frente o homem e a mulher (e depois explicaram-lhes que não havia uma forma só de misturá-los); puseram frente a frente a obrigação e a diversão (e depois mostraram-nos que era possível elas coexistirem sem se misturarem). As novelas brasileiras foram os nossos anos 60: a nossa revolução sexual, a nossa libertação estética, a nossa democratização do quotidiano.&lt;br /&gt;
Não fossem as novelas brasileiras e, provavelmente, a depilação do buço teria demorado ainda mais a implantar-se entre as portuguesas. De resto, &lt;b&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;&lt;span style="font-size: larger;"&gt;há brasileiras que vêm para Portugal trabalhar como prostitutas? Pois ainda bem. Só vieram trazer savoir faire, perfume e dignidade à profissão. Tanto quanto me parece, não são as brasileiras que andam pelos semáforos e pelas rotundas deste país, caçando camionistas em troca de uns cobres para a dose seguinte&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;. Pelo contrário, e depois de tantos anos de neo-realismo, o mercado está agora novamente bem servido de cortesãs, o que não deixa de ser um conforto para muita gente. No mais, e para um jovem português em idade de casar encontrar galdérias fatelas, não é preciso ir ao Brasil: basta ir às personagens de muitas telenovelas portugueses &amp;ndash; e, provavelmente, bastará, dentro de alguns anos, ir às raparigas autorizadas pelos pais a assistir diariamente àquelas paradas de maus costumes.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size: smaller;"&gt;&lt;b&gt;CRÓNICA (&amp;quot;Muito Bons Somos Nós&amp;quot;). NS', 5 de Dezembro de 2009&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-11-29T18:40:47</issued>
    <title>Os fanáticos do sushi</title>
    <published>2009-12-01T18:44:33Z</published>
    <updated>2009-12-01T18:49:11Z</updated>
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    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img width="300" vspace="3" hspace="3" height="229" border="3" align="left" alt="" style="border-color: black;" src="http://ratekin.files.wordpress.com/2008/10/nemo1.jpg" /&gt;Cruzei-me com o fórum a meio de uma pesquisa no Google já não sei bem sobre o quê. Tema: o sushi. Pergunta da miúda (americana, segundo percebi), lançando o debate: &amp;ldquo;Is it weird that I hate sushi?&amp;rdquo; Quer dizer: &amp;ldquo;É estranho eu não gostar de sushi?&amp;rdquo; Mais do que estranho: &amp;ldquo;É marado? Sou assim tão extra-terrestre por não gostar de atum cru, de arroz avinagrado, daquele gengibre que me deixa uma sensação estranha na boca, do wasabi que me dá cabo do estômago?&amp;rdquo; Tom dominante nas respostas: &amp;ldquo;Claro que não, miúda. És apenas ignorante. Nunca comeste o verdadeiro sushi. Talvez se tivesses sido instruída por um veterano como eu... Agora, já não vais lá. Paciência. Paz à tua alma.&amp;rdquo;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Assim se dividem, aparentemente, os bourgeois et bohemians do século XXI: há os que gostam de sushi e os que não gostam dele. Os que gostam podem respirar de alívio: terão o seu lugar no Paraíso. Os que não gostam estão em apuros. Se conseguem forjar uma pose sobranceira, de quem já provou mas entretanto descobriu melhor, ainda têm uma oportunidade: basta explicarem-nos que coisa melhor é essa, afinal. Se não gostam porque não conseguiram comer o peixe cru &amp;ndash; ou, pior ainda, porque simplesmente não apreciaram a iguaria &amp;ndash; mais vale mudarem-se já para a província, que ainda há muitas vagas para mecânicos e empregadinhas de café por preencher.&lt;br /&gt;
E, no entanto, nunca vejo alguém a comer sushi. Vou com frequência a restaurantes japoneses &amp;ndash; e em nenhum deles vejo os meus estilosos vizinhos a fazer outra coisa que não depenicar. &lt;b&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;&lt;span style="font-size: larger;"&gt;Entram em magotes, aos quatro e aos seis e aos oito de cada vez, pedem três ou quatro pratos para partilhar &amp;ndash; e depois ali andam, esfaimados, engonhando num só maki, dividindo nigiris a meio, ansiosos por que aquilo acabe depressa para poderem voltar para casa e atacar os restos dos almoço. Mas já fizeram o seu papel: viram e foram vistos a comer sushi&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;. Porque, afinal, é disso que se trata. O sushi é uma roupa que se veste. É a lagosta dos tempos modernos: é caro, é repugnante &amp;ndash; e a ninguém passaria pela cabeça comê-lo senão em público.&lt;br /&gt;
Eu confeccionei-o uma vez em casa. Estávamos nos Açores há quase um mês, urgentes já de alguma urbanidade, e decidimos espairecer entre as prateleiras de uma lojinha gourmet. Resultado: um cabaz com arroz e vinagre doce, alga kombu e alga nori, livro de receitas e apetrechos para enrolar, wasabi, gengibre e molho de soja &amp;ndash; enfim, uma parafernália de ingredientes, temperos e ferramentas que, adicionadas ao atum e ao salmão comprados no supermercado, nos custaram o equivalente a meia dúzia de jantares no japonês habitual. Ao regressar a casa, claro, convidámos os pais e os sogros, todos eles iniciados em tais matérias &amp;ndash; e, naturalmente, a soirée oscilou entre o fracasso total e o êxito completo.&lt;br /&gt;
A comida foi um fracasso. Começámos a cozinhar às cinco da tarde &amp;ndash; e à uma da manhã ainda ninguém tinha jantado. A alga kombu desfez-se no arroz, que por isso não deu ponto. O vinagre era de mais, as maquinetas de maki revelaram-se difíceis de operar, o corte do peixe demorou uma eternidade. Mas o resto foi um êxito. As fotos  ficaram lindas. Enlouquecidos pela fome, os pais e os sogros (sobretudo o meu pai, que eu deixara a pão e água a noite inteira, com um jornal na mão e ordens para ficar quietinho) comeram como se não houvesse amanhã. E, principalmente, tivemos público: quatro cidadãos de meia idade a quem os próprios pauzinhos metiam confusão. Pois fizemos a nossa fita. Éramos uns moderninhos &amp;ndash; e o facto de os convidados terem jurado jamais repetir a experiência apenas acentuava o nosso triunfo.&lt;br /&gt;
O sushi, hoje, é assim: não só apenas faz sentido comê-lo em frente a testemunhas, com só faz sentido comê-lo se essas testemunhas o detestarem. No fundo, somos uns malucos, ao pormo-nos para ali a comer aquelas coisas esquisitas. É como com as viagens: enchemos a boca com os destinos exóticos a que já fomos e com os destinos radicais a que ainda vamos &amp;ndash; e, ao pormos a mochila às coisas, já não nos preocupa outra coisa senão as fotografias e os souvenirs, a ver se o pessoal lá em casa se rende de vez ao nosso cosmopolitismo, aos perigos que vivemos, aos estranhos povos com que nos enturmámos, às praias maravilhosas em que nos banhámos. No fim, aquilo de que estamos à procura, mais uma vez, é de público. De sermos os maiores da nossa rua. Esquecemo-nos de que, por esta altura, já toda a gente foi à Patagónia &amp;ndash; e de que, de resto, toda a gente já experimentou peixe cru também.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size: smaller;"&gt;&lt;b&gt;CRÓNICA (&amp;quot;Muito Bons Somos Nós&amp;quot;). NS', 28 de Novembro de 2009&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-11-21T18:43:30</issued>
    <title>Ode ao bigode</title>
    <published>2009-11-21T18:47:40Z</published>
    <updated>2009-11-21T18:47:40Z</updated>
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    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img width="300" vspace="3" hspace="3" height="450" border="3" align="left" src="http://thesebootsaremadeforstalking.com/wordpress/wp-content/uploads/2008/12/bradsstache.jpg" style="border-color: black;" alt="" /&gt;Brad Pitt reapareceu há dias paramentado de streetwear, o mundo da cultura pop celebrou-o em euforia &amp;ndash; e eu celebrei-o com ele. Não celebrámos bem a mesma coisa. O mundo da cultura pop celebrou o regresso de um madraço de 46 anos às calças de ganga de cintura rebaixada, aos gorros e aos óculos escuros, aos brincos e aos anéis. Eu celebrei que o dito madraço tenha rapado o bigode &amp;ndash; e, se foi isso que o mundo da cultura pop celebrou também, então pelo menos as razões foram diferentes. Brad Pitt é meio piroso (além de absurdamente bonito), mas pode sempre recorrer, em sua defesa, a nomes como os de Juliette Lewis, Gwyneth Paltrow, Jennifer Aniston ou Angelina Jolie. Bem vistas as coisas, ganhou o meu respeito. Mas dava mau nome ao bigode &amp;ndash; e desde que deixara crescer o pêlo no lábio superior, de início para  gravar um filme de Tarantino e depois para agitar as convenções sobre o estilo e a beleza, que me tinha em modo de marcação cerrada, ansioso por desatar à cabeçada. Eis-me aqui.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Gosto de bigodes e de homens de bigode. Ainda no outro dia entrei numa daquelas lojas que já não existem, uma oficina de electrotecnia onde se coleccionam grafonolas, se reparam transístores e se trocam as correias a gravadores de bobinas, e fui atendido por um desses homens: um magnífico homem de bigode, alto e magro, bonito e digno, afável sem ser simpático, firme mas não abrutalhado. Tudo nele, em boa verdade, transpirava estrutura, honestidade e determinação. Vi-lhe o bigode, elegante e bem aparado sobre uma camisa de má qualidade (mas impecavelmente engomada), e tracei-lhe a biografia: província até aos 11 anos, aos 12 mudança para Lisboa, para trabalhar como moço de recados do tio, dono de uma oficina de electrotecnia &amp;ndash; e entretanto, ali por volta dos 40-45, o tio misericordiosamente libertado de obrigações e remetido enfim ao lar, onde o esperavam um par de pantufas, uma televisão a cores, as regalias possíveis de 60 anos de descontos e (sobretudo) a certeza absoluta de que o negócio ficava em boas mãos.&lt;br /&gt;
Dessa massa é feito um homem de bigode. Quer dizer: alguma vez viu, no cinema ou na literatura, na vida real ou em sonhos, um vilão de bigode? Não: não me venha com o exemplo de Hitler. Aquilo de que estou aqui a falar não é de macaquices peludas: nem de bigodinhos escova-de-dentes nem, aliás, de bigodaças arrufiadas; nem de excentricidades à Salvador Dali, nem de malandrices à Errol Flynn; nem de ferraduras como a de James Hetfield, nem de caganitas de mosca como a de Cantinflas. Aquilo de que estou aqui a falar é do velho, simples e conservador bigode chevron (ou divisa): do bigode de Tom Selleck, quando muito do bigode de Burt Reynolds &amp;ndash; do bigode do tempo dos nossos pais, quando os bigodes não eram já um mecanismo de distinção social mas eram ainda um sinal de preocupação estética, quando ninguém ganhava um lugar no Paraíso apenas por ter bigode, mas também não era de imediato remetido ao Inferno por tê-lo. Eis aquilo que invejo nos homens de bigode: nunca um deles foi o mau da fita. Nas histórias como no dia-a-dia, os homens de bigode foram sempre os polícias, os bombeiros, os médicos &amp;ndash; enfim, os homens do bem. O contrário não colaria.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Acontece que&lt;b&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;&lt;span style="font-size: larger;"&gt; não é um homem de bigode quem quer. Vários amigos mo disseram, ao inteirarem-se da epifania da loja de grafonolas: &amp;ldquo;É fácil. Deixa crescer um também.&amp;rdquo; Erro. Um bigode não se pode pôr nem tirar. Não basta ter bigode para ser um homem de bigode. O bigode, para qualificar um verdadeiro homem de bigode, tem de lá estar desde o início dos tempos &amp;ndash; e, de resto, não pode ter desaparecido nunca&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;. Não há nada mais triste do que ver pela primeira vez sem bigode um homem que sempre vimos de bigode (lembram-se de Guterres?; lembram-se de Queiroz?). A não ser talvez, tempos mais à frente, voltar a vê-lo com bigode, reconsideração sobre todas as outras desesperada e inútil (tão inútil quanto seria a Sansão tornar a deixar crescer o cabelo). Um bigode é muito mais do que uma pilosidade: é uma metafísica. Vem acompanhado de conversas sobre a necessidade de estudar para ser alguém na vida, a utilidade de amortizar o crédito à habitação, a urgência de substituir as velas do carro, a saudade de quando o fado era o fado, a rádio era a rádio e a Amália Rodrigues cantava o fado na rádio, tanto na Emissora Nacional como na Voz de Lisboa.&lt;br /&gt;
Brad Pitt não conhece nem metade deste património. Que diabo: há quanto tempo Brad Pitt não tem de preocupar-se com as velas do carro?&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size: smaller;"&gt;&lt;b&gt;CRÓNICA (&amp;quot;Muito Bons Somos Nós&amp;quot;). NS', 21 de Novembro de 2009&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-11-14T18:39:06</issued>
    <title>Vampiros</title>
    <published>2009-11-14T18:42:15Z</published>
    <updated>2009-11-14T18:42:15Z</updated>
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    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img width="300" vspace="3" hspace="3" height="366" border="3" align="left" src="http://nolebucgrl.files.wordpress.com/2009/03/robkristen.jpg" style="border-color: black;" alt="" /&gt;Porque é que os vampiros estão outra vez na moda? Em parte, pela mesma razão que tornaram a vir a lume na recta final da era vitoriana, com a publicação de Drácula, ou voltaram a manifestar-se ao longo dos anos 50 e 60 do século XX, na sequência dos filmes da Hammer Horror com Christopher Lee no papel do conde de Bram Stoker: porque personificam quase todos os conflitos que importam ao entendimento da espécie, incluindo aqueles que opõem o progresso ao obscurantismo, os animais aos homens e, naturalmente, estes a Deus. Invocados e temidos pelo menos desde a Antiguidade Clássica, os vampiros conseguiram corresponder às ansiedades das mais diferentes épocas &amp;ndash; e ainda hoje a obra-prima de Stoker é tida como o segundo livro mais vendido de sempre (a seguir à Bíblia Sagrada, pois), superando marcos da cultura popular e erudita como A Vida e as Opiniões de Tristram Shandy, de Lawrence Sterne, Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez, ou (não resisto, desculpem) Um Amor Em Tempos de Guerra, de Júlio Magalhães.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E, porém, cada período de fulgor iluminou algumas dessas contradições em particular. O Drácula de Bram Stoker era verdadeiramente um monstro: aprendera os códigos de sociabilização, mas apenas para se apropriar deles &amp;ndash; e, além disso, não só era de uma fealdade prodigiosa, como era um assassino sem quaisquer constrangimentos éticos. Temê-lo era, em boa parte, temer a própria imortalidade. Quem fosse mordido pelo vampiro virava o mesmo que ele: mais do que uma alma danada, um ser sem alma (e sem redenção). E, embora o final do século XIX fosse já uma época de questionamento, não deixava de ser também de profunda religiosidade.  Sigmund Freud e a sua Psicanálise ainda eram apenas um rumor &amp;ndash; e o que estava em jogo na dualidade consciente/inconsciente, no duelo entre o sono e a vigília, era a relação do Homem, sugado na sua vontade pelo vício que o vampiro lhe brandia, com o próprio Deus. Havia ali evasão. Mas, se o edifício era modernista, as suas fundações eram góticas. No essencial, a busca era ainda a do Divino, embora por terríficos caminhos.&lt;br /&gt;
Nada disso se passa com esta nova geração dos vampiros. Os vampiros que hoje temos usam um tanto dessa fantasia original, outro tanto do manifesto sexual latente nos congéneres dos anos 1950 e 1960 (incluindo a libertação da mulher e a inversão dos géneros, com piscadela de olho à aceitação da homossexualidade) &amp;ndash; e depois uma série de tiques próprios deste tempo. Talvez tenha sido uma sorte, para Stephenie Meyer, ter-se lembrado de escrever &amp;ldquo;Crepúsculo&amp;rdquo;. Mas o êxito da saga (&amp;ldquo;Luz e Escuridão&amp;rdquo;), nesta altura, não foi fortuito. Hoje, os vampiros estão por todo o lado: na literatura e no cinema, na TV, nos jogos de vídeo e na memorabilia. E estão em todo o lado por motivos claros: porque são agora frescos e belos, fundindo na perfeição a sensualidade e o mito da eterna juventude; porque são sombrios e marginais, personificando ao mesmo tempo o apelo do oculto e a inquietação da inadaptabilidade; e porque, apesar de tudo, se mantêm perigosos, com tudo o que aí há de lúdico e, em simultâneo, de abissal.&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;&lt;span style="font-size: larger;"&gt;São as urgências deste tempo: a sensualidade, a inadaptação, a juventude, a vida eterna &amp;ndash; e não é de estranhar que muitos dos admiradores do género defendam mesmo que o vampiro é o James Dean (epítome maior desse desassossego) do século XXI&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;. Mas ainda é o perigo o elemento mais relevante. Tanto em Stephenie Meyer como na sua contemporânea L. J. Smith, os vampiros dividem-se entre os assassinos tout court, hedonistas puros e duros, e os assassinos que desenvolveram uma consciência e procuram dominar a sua própria sede de sangue. E, não só estes últimos vampiros se distinguem de Drácula, como são verdadeiramente o arquétipo do Homem do milénio. &amp;ldquo;O inferno são os outros&amp;rdquo;, dizia Sartre, o supremo filósofo pós-freudiano. O inferno são os outros, tanto quanto nós próprios &amp;ndash; e em nós habitam tanto o Inferno como o Céu. Todo o Bem, como de resto todo o Mal, está no Homem &amp;ndash; e permanecerão ambos no Homem quando um dia, como é inevitável, ele for contagiado. Deus simplesmente desapareceu da equação &amp;ndash; e o que aqui reste do gótico não é mais do que uma especulação sobre a possibilidade de o Absoluto residir agora noutro lado que não no Céu.&lt;br /&gt;
O mundo está bem melhor. Estamos talvez mais à mercê dos vampiros, mas também já lhes plantámos no ventre o nosso cavalo de Tróia. Afinal, talvez ainda haja alguma coisa a fazer pela Espécie.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size: smaller;"&gt;&lt;b&gt;CRÓNICA (&amp;quot;Muito Bons Somos Nós&amp;quot;). NS', 14 de Novembro de 2009&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-11-07T17:19:04</issued>
    <title>Democracias modernas</title>
    <published>2009-11-07T17:21:20Z</published>
    <updated>2009-11-12T10:17:21Z</updated>
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    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img width="300" vspace="3" hspace="3" height="225" border="3" align="left" alt="" style="border-color: black;" src="http://sweet.ua.pt/~a31113/acores.jpg" /&gt;No outro dia, em Angra, cruzei-me com J. S.. Faltavam-me meia dúzia de dias para o regresso a Lisboa, e eu vinha subindo devagar a Rua da Sé, levado já por essa doce melancolia de quem se despede mas sabe que regressará. Dei de caras com ele em frente ao Atanásio &amp;ndash; e gelei. Durante toda a infância, e depois pela adolescência dentro, eu habituara-me a ter medo daquele homem. Tinha medo da sua pose sobranceira, do seu rabo de cavalo, do sinal que lhe dava expressão ao rosto &amp;ndash; e tinha sobretudo medo da sua fama. J. S. era um bandido. &amp;ldquo;O&amp;rdquo; bandido: o ladrão, o traficante, o extorcionário, o receptador. Olhei melhor para ele: parecia agora mais gordo e mais mirrado, mais rubicundo e até certo ponto mais inofensivo. Mas a determinada altura os nossos olhares cruzaram-se &amp;ndash; e, então, eu voltei a gelar da mesma forma que teria gelado na infância, se alguma vez nos olhássemos mutuamente nos olhos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Soube-o pouco depois, pelo Carlos, que ainda passou lá em casa para uma última mini: J. S. já não se dedica ao crime. Da última vez que saiu da cadeia, decidiu não voltar a perder o Rendimento Social de Inserção, que lhe retiravam sempre que reincidia &amp;ndash; e reformou-se. Calculam os meus amigos carcereiros que passou dois terços da sua vida cinquentenária na prisão, cumprindo penas grandes e penas pequenas, partindo em liberdade condicional e logo recaindo, saindo em precária e sendo apanhado, nessa mesma tarde, num furto qualquer. Agora, não quer prevaricar mais. &amp;ldquo;Está velho e cansado&amp;rdquo;, diz o Carlos. &amp;ldquo;Se for apanhado novamente, tiram-lhe o subsídio de vez. De maneira que anda aí pela cidade, como um triste. Se deixares cair a carteira no chão, não ta vai entregar. Mas também não ta vai buscar ao bolso.&amp;rdquo;&lt;br /&gt;
Nos Açores, é assim: é tal a dependência do RSI que os próprios ladrões já pensam duas vezes antes de voltar à profissão. Segundo a Segurança Social, há agora no arquipélago (que tem, oficialmente, uma das mais baixas taxas de desemprego do país) mais de 18 mil beneficiários. E o problema é que os beneficiários têm dependentes. No outro dia, numa espécie de debate público, calculei em 54 mil os açorianos a viver deste expediente. Caíram o Pico do Ferro e o Ilhéu das Cabras: que não, que não &amp;ndash; que os números não eram esses de maneira nenhuma. Pedi os números: não há. E, portanto, só tenho os dados do INE quanto à dimensão média das famílias: 2,8 elementos de média nacional, 3,3 elementos nos Açores. Calculado, dá um total de 59 mil bocas por 18 mil beneficiários. Mas que sejam 50 mil, vá: é um quinto da população. Ou seja: um quinto da população dos Açores vive com base no RSI, habituando-se ao ócio, à pedincha, à inutilidade e à humilhação.&lt;br /&gt;
E em nenhum momento, como muito bem assinalava há dias Isabel Jonet (possuidora de inigualável experiência no terreno), o Estado lhes pede sequer que retribuam o subsídio com algum tipo de serviço cívico, seja ele colaborar na desmatação das florestas ou simplesmente ajudar velhinhas a atravessar a rua. &lt;b&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;&lt;span style="font-size: larger;"&gt;Àquelas 18 mil pessoas, como de resto aos seus milhares de dependentes, basta-lhes comparecer a uns encontros com a assistente social &amp;ndash; e o resto, para muitos deles, é ir ao multibanco, gastar rapidamente o dinheiro pelos cafés, viver o resto do mês da esmola e, no dia das eleições, ir votar no PS&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;. Diz o Governo Regional, como em Lisboa diz o Governo da República, que o mecanismo ajudou a &amp;ldquo;tirar muitas pessoas da pobreza&amp;rdquo;. Pois eu acho que o RSI efectivamente tira muitas pessoas da pobreza durante três ou quatro meses, mas a partir daí as afunda numa miséria ainda maior.&lt;br /&gt;
Culpa dos beneficiários? Pelo contrário. Os açorianos são pessoas especiais. A dia 1 de Janeiro de 1980, e poucas horas depois de um terramoto que varreu três ilhas, já havia por todo o lado pessoas a reconstruírem as suas casas com as próprias mãos. Estou a falar de gente de trabalho, que arregaça as mangas, que se chega à frente. Mas estou a falar de gente. E a gente habitua-se. Nós habituamo-nos. Alguns precisam mesmo do Redimento Social durante muito tempo &amp;ndash; e ainda bem que ele existe. Outros precisam dele apenas durante uns meses &amp;ndash; e, infelizmente para eles próprios, têm-no durante tantos anos quantos aqueles que demoram a afundar-se de vez. E esse, numa região onde o índice de beneficiários é o dobro da média nacional (7,2% contra 3,85%), já não é apenas um problema económico: é um problema que suga a própria massa crítica do arquipélago. O que não é só bom para os bandidos: é óptimo para os políticos também.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size: smaller;"&gt;&lt;b&gt;CRÓNICA (&amp;quot;Muito Bons Somos Nós&amp;quot;). NS', 7 de Novembro de 2009&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-10-31T16:41:45</issued>
    <title>O cisma de Penafiel</title>
    <published>2009-10-31T16:52:21Z</published>
    <updated>2009-10-31T16:52:21Z</updated>
    <category term="crónica"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img width="300" vspace="3" hspace="3" height="457" border="3" align="left" src="http://www.mariakusmuk.com.ar/image/t_profesionales/saramago.jpg" style="border-color: black;" alt="" /&gt;O que é trágico não é propriamente o debate gerado em torno de Caim. O que é trágico é que, desde 1991-92, período ao longo do qual José Saramago publicou O Evangelho Segundo Jesus Cristo e Sousa Lara, tonto, o vetou como candidato nacional ao Prémio Literário Europeu, a literatura portuguesa não tenha produzido mais um só debate digno desse nome &amp;ndash; e que quando, sem outra coisa que dizer, Saramago experimenta repetir que &amp;ldquo;Deus não é de fiar&amp;rdquo; ou &amp;ldquo;a Bíblia é um manual de maus costumes&amp;rdquo;, desate toda a gente aos berros, como se nunca o tivesse ouvido antes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Já o ouviu. Bem vistas as coisas, José Saramago não diz nem escreve nada, hoje, que não tenha já escrito em 1991: que Deus é a própria origem do Mal. E, se reagimos com tal energia à simples reapresentação, quase vinte anos depois, dessa mesma ideia, é porque andámos demasiado tempo a discutir se Margarida Rebelo Pinto tem direito a gastar o nosso oxigénio comum ou se Vasco Pulido Valente deve, na idade em que está, persistir em sujeitar-se anualmente ao bungee jumping emocional que é, para ele, ler um livro de Miguel Sousa Tavares. &lt;br /&gt;
José Saramago é, provavelmente (não, não os li a todos), o maior narrador português dos últimos 50 anos. Ofereceu-nos páginas sublimes em Memorial do Convento, em O Ano da Morte de Ricardo Reis, em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, em Ensaio Sobre a Cegueira &amp;ndash; e, se um dia tivesse sido posto a referendo que escritor da sua geração deveríamos canonizar primeiro, eu próprio teria votado nele. Por outro lado, e como qualquer outro criador que se preze, tem uma série de obras precoces em que está sobretudo à procura de uma voz e outras tantas serôdias em que mergulha na procura de uma nova, porque entretanto a antiga se esgotou.&lt;br /&gt;
Na verdade, todos os seus romances desde Todos Os Nomes (a estes, sim, li-os todos) são um pouco isto: a procura de algum tipo de nova perspectiva sobre a condição humana e o mundo que essa condição impõe (e, nesse aspecto, um fracasso). Por outro lado, são também a constituição de um extenso e diversificado catálogo de soluções narrativas, à maneira de Ravel, em torno da escravidão do homem pela mais brilhante das suas criações: o próprio Deus (e, nesse sentido, um êxito). Talvez se possa dizer que merecíamos um Nobel melhor, não sei. Mas uma coisa que se pode dizer de certeza é que o Nobel português merecia melhores portugueses.&lt;br /&gt;
Entretanto, faz o que pode com aquilo que tem. E o que fez, nas entrevistas dadas a propósito deste Caim, foi mostrar que ainda nos conhece como ninguém &amp;ndash; que ainda sabe onde estão os nossos interruptores consumistas e o que é preciso fazer para accioná-los. Tenho pena que, quanto a mais um livro, não se tenha ainda dedicado à exegese, por exemplo, do Corão, neste momento um livro com um potencial fratricida muito superior ao do Velho Testamento. Mas &lt;b&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;&lt;span style="font-size: larger;"&gt;aceito que esteja refém da sua fé: essa imensa fé dos cristãos ateus &amp;ndash; não dos cristãos agnósticos, que não acreditam (nem deixam de acreditar) em nada, mas dos cristãos ateus mesmo: aqueles que acreditam com todas as suas forças na inexistência de um Deus único, castigador e bondoso, egoísta e magnânime&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;.&lt;br /&gt;
Por outro lado, há uma coisa que ficamos a dever-lhe: ter-nos ajudado a recordar, numa altura em que a Sociedade Bíblia de Portugal se empenha na divulgação da nova Bíblia Para Todos, que a Bíblia Sagrada não é apenas a saga de um povo, mas também o que séculos e séculos de exegeses oficiais (incluindo as várias cristãs e, até, as das restantes religiões monoteístas) fizeram dela. Impotente perante a miríade de conjugações entre o que deve ser lido literalmente e o que deve ser entendido de forma simbólica, a Bíblia permaneceu sobretudo aquilo que diz a sua letra, entretanto quase sempre usada para proibir e castigar, muito mais do que para permitir e premiar &amp;ndash; e Caim é um importante contraponto a este novo exercício, ao mesmo tempo lírico e historicista, de transformá-la num romance de aventuras.&lt;br /&gt;
Eu, felizmente, não preciso dele. Mais: como Saramago, professo com paixão o ateísmo &amp;ndash; no fundo, penso demasiadas vezes nestas coisas para me deixar entusiasmas por dois ou três aforismos heréticos a pretexto do lançamento de um novo livro. De forma que, esgotado o assunto, emprateleirei com gosto o Caim e o Abel &amp;ndash; e regressei depressa ao Chandler, agora que as Edições Contraponto o vão resgatando a essa saudosa mas decrépita Colecção Vampiro. Eu queria mesmo era ser Philip Marlowe. Philip Marlowe não pretende salvar a Humanidade &amp;ndash; e às vezes há um grande romantismo nisso.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size: smaller;"&gt;&lt;b&gt;CRÓNICA (&amp;quot;Muito Bons Somos Nós&amp;quot;). NS', 31 de Outubro de 2009&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-10-24T19:10:27</issued>
    <title>Amigos outra vez?</title>
    <published>2009-10-24T18:15:08Z</published>
    <updated>2009-10-24T18:32:09Z</updated>
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    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img width="300" vspace="3" hspace="3" height="423" border="3" align="left" alt="" style="border-color: black;" src="http://www.thewe.cc/thewei/_/valued_life/let_vegetarianism_grow.jpe" /&gt;Sou um homem de sorte: todas as semanas recebo emails de leitores, uns furiosos e outros exultantes com aquilo que escrevi. Os furiosos costumam ser em maior número, mas penso que isso é normal: nós somos quase sempre mais enfáticos quando estamos contra &amp;ndash; e há que reconhecer que, para alguém se dar ao trabalho de ligar um computador e articular um texto em defesa de determinada posição, ainda por cima sabendo que em princípio ele só será lido por uma pessoa, é precisa uma dose de perplexidade que não é fácil provocar através de uma simples crónica. De forma que raramente faço mais do que agradecer penhorado o esforço, a atenção e (de alguma forma) o carinho dos leitores. Basicamente, já tive a minha oportunidade, de resto em espaço nobre &amp;ndash; agora devo sujeitar-me ao contraditório, seja ele qual for. Pain in the ass que se preze tem de saber aguentar-se à bronca.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Há duas semanas, porém, que sou inundado de emails, de comentários no meu site, de textos na blogosfera e de piscadelas de olho nas redes sociais sobre um mesmo tema &amp;ndash; e desta vez vou abrir uma excepção para comentar o frenesi. Não tanto pelos números (e estou a falar de muitas centenas de intervenções), mas por causa de um aspecto em particular no tom delas. O tema é o vegetarianismo, a propósito do qual publiquei aqui, há quinze dias, uma prosa cuja inflamação pouca gente esperava. E o tom de que falo, naturalmente, não tem nada a ver com as obscenidades ou mesmo as ameaças físicas incluídas em tantos emails (tenho muitos anos disto, já nem ligo). O tom de que falo, na verdade, é ainda mais sintomático do que esse nível epidérmico da indignação &amp;ndash; e sintetiza-se bem, penso eu, em frases como esta de Mateus Mendes, fundador do Centro Vegetariano:  &amp;ldquo;Inaceitável é que tente o autor atingir os vegetarianos, que tipicamente são pessoas com preocupações ecológicas e éticas acima da média.&amp;rdquo;&lt;br /&gt;
É verdade: houve, ao longo destas semanas, outros momentos interessantes. Por exemplo: ninguém, apesar da tão óbvia piadinha à taróloga Maya, parece ter percebido a ironia sobre o suposto facto de 40% dos portugueses serem vegetarianos. Mais: o número de pessoas que começaram o respectivo email pelo seu CV, sublinhando tanto a carreira académica como a profissão (&amp;ldquo;eu sou engenheiro&amp;rdquo;, &amp;ldquo;eu sou médico&amp;rdquo;, &amp;ldquo;eu sou arquitecto&amp;rdquo;), é pouco menos do que impressionante. Mais ainda: recebi dezenas de emails de Inglaterra e do Brasil, onde os vegetarianos portugueses têm muitos amigos, alguns deles com conta no Orkut e tudo. Num chamaram-me &amp;ldquo;canibalzinho devorador de cadáveres&amp;rdquo;, piropo que achei amoroso; noutros diziam-me que eu escrevo mal, pois &amp;ldquo;à muita gente&amp;rdquo; (sic) que escreve melhor do que eu &amp;ndash; e noutros ainda lembraram-me que o australopithecus e o pithecanthropus eram sobretudo recolectores, desafiando a Humanidade a &amp;ldquo;evoluir&amp;rdquo; (sic também) em direcção aos hábitos alimentares deles.&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;&lt;span style="font-size: larger;"&gt;O tom, esse, foi quase sempre o mesmo: os vegetarianos são &amp;ldquo;superiores&amp;rdquo;. Ética e filosoficamente superiores, mesmo que obcecados com análises clínicas &amp;ndash; e, agora que um canibal ignorante os havia insultado a todos, tocara a reunir para a batalha&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;. Pois fico satisfeito por ter-lhes dado a oportunidade de partirem finalmente em campanha militar, dando uso às armas que já ameaçavam enferrujar. Por outro lado, torno a lamentar que tenhamos assassinado Deus, acabando reféns de mais religiões ainda (e oportunistas, todas elas, quanto a esta nossa urgência primária de espiritualidade). Mas, em vez de voltar a acusar os cavaleiros das boas intenções de serem  às vezes piores do que os das más, decidi deixar-me persuadir um bocadinho &amp;ndash; e, até, juntar-me à causa. Não prometo tornar-me lactovegetariano, pois gosto muito de ovos. Também não prometo tornar-me ovovegetariano, porque quem me tira o galão de máquina tira-me tudo &amp;ndash; e, aliás, não vou comprometer-me a ser ovolactovegetariano também, porque de repente ainda me dá saudades de um half rack com molho agridoce. Mas, se me aceitarem,  estou disposto a virar, vá lá, ovolactoentrecostovegetariano.&lt;br /&gt;
Assim como assim, não quero ser inimigo de ninguém &amp;ndash; e, de resto, não acredito que, para ser vegetariano, eu tenha de rever-me nas &amp;ldquo;preocupações éticas acima da média&amp;rdquo; daquele senhor cujo nome não posso dizer aqui, se não o meu email entope de vez (mas que, enfim, acreditava no contributo do vegetarianismo para a &amp;ldquo;regeração espiritual&amp;rdquo; da Europa e veio, entretanto, a provocar uma guerra mundial). Só tenho pena, claro, que esse seja apenas mais um exemplo de como não basta ser vegetariano para ganhar um lugar no céu.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size: smaller;"&gt;&lt;b&gt;CRÓNICA (&amp;quot;Muito Bons Somos Nós&amp;quot;). NS', 24 de Outubro de 2009&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-10-17T23:31:59</issued>
    <title>Abram alas para o Noddy</title>
    <published>2009-10-20T09:41:32Z</published>
    <updated>2009-10-20T09:42:51Z</updated>
    <category term="crónica"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img width="300" vspace="3" hspace="3" height="200" border="3" align="left" alt="" style="border-color: black;" src="http://blogf1.co.uk/images/posts/Michael%20Schumacher/2000/Nurburgring-001.jpg" /&gt;Chamem-me bárbaro, se quiserem: também eu, para ser honesto, acho que a melhor coisa que aconteceu à fórmula 1, nos últimos anos, foram estes dois acidentes de Filipe Massa e Tim Glock. Furioso comigo (e com os que, antes de mim, já haviam celebrado ambos os despistes, embora igualmente contentes por não ter havido vítimas), o antigo campeão Nelson Piquet ironizou: &amp;ldquo;É sempre assim. O que este povo quer é acidentes.&amp;rdquo; Está certo e está errado. Certo porque, muito de vez em quando, nós precisamos efectivamente de ver um acidente. Errado porque não é do acidente propriamente dito que nós, meninos da mamã, precisamos: é de uma prova cabal de que a fórmula 1 ainda é um desporto arriscado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O próprio nome o indica: &amp;ldquo;fórmula 1&amp;rdquo; é a primeira de todas as fórmulas, a maior de todas as categorias de corridas de automóveis. Deve ser arriscada, perigosa e aspiracional, se não não é a primeira coisa nenhuma. Sim, é verdade: a morte de Senna e Ratzenberger num mesmo fim-de-semana de 1994, e que tanto prejudicou a modalidade na relação com os patrocinadores, exigia a tomada de medidas de segurança. Mas não era preciso, depois disso, ter aproveitado cada acidente para assemelhar um pouco mais os carros a tanques do exército. Schumacher bateu em 1999 &amp;ndash; e aí vieram mais uma série de protecções, de limites, de conselhos. Irvine e Burti bateram em 2001 &amp;ndash; e de novo surgiram mais barreiras, amortecedores e isolantes.&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;&lt;span style="font-size: larger;"&gt;Hoje em dia, há muito mais emoção numa só corrida de Daytona, disputada numa pista oval apenas com curvas à esquerda, do que numa época inteira de fórmula 1. Para se sentir a verdadeira emoção de uma corrida de fórmula 1, aliás, o melhor é ir à PlayStation&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;. Na vida real, só há aquilo: carrinhos atrás uns dos outros durante duas horas, com um nadinha de vertigem na partida, um ligeiríssimo frisson nas boxes &amp;ndash; e depois tudo ali em fila indiana de novo, sem ultrapassagens, sem despistes, sem abismo. Basicamente, ser piloto de fórmula 1, agora, é como ser funcionário público. Uma pessoa começa nos karts aos nove anos e, aos 20, já com as diuturnidades todas, está na fórmula 1. Basta haver, lá no país dela, uma gasolineira disposta a comprar o lugar.&lt;br /&gt;
Nem sequer sou eu que o digo: é Niki Lauda, que venceu três campeonatos do mundo nos bons tempos. &amp;ldquo;A fórmula 1, antigamente, era para homens. Nós saíamos do hotel e deixávamos instruções sobre quem deveria ir buscar as nossas coisas no caso de não voltarmos&amp;rdquo;, disse há uns meses, ao comentar um acidente provocado por Nelsinho Piquet a pedido do anti-Cristo Flavio Briatore. &amp;ldquo;Hoje em dia, os carros são demasiado seguros. Já ninguém se assusta quando bate na parede. Levanta-se, sacode-se e pronto.&amp;rdquo; Resultado: este longo bocejo em que se tornou o campeonato do mundo, de resto com metade das audiências de TV que tinha, por exemplo, nos anos 80. Que o português Álvaro Parente esteja a caminho da modalidade, portanto, é coisa que não atrasa nem adianta. Mais valia ir jogar à bola, onde ao menos há gente que parte pernas &amp;ndash; onde há risco e há heróis, onde há glória e há lenda.&lt;br /&gt;
Quer dizer: Jenson Button? Sebastian Vettel? São esses os novos ícones do automóvel? Pelas almas: eu sou do tempo de Ayrton Senna e de Nigel Mansell. Sou do tempo em que os campeonatos se decidiam na primeira curva do último grande prémio, com o líder da classificação a atirar-se impune para cima do segundo classificado (como fizeram Senna ou Schumacher), colocando os dois fora da corrida. Alain Prost, que no meu tempo era um chato, hoje seria um maluco. Em vez dele, temos estes manguinhas de alpaca, com esposas na bancada e conta poupança reforma no banco. Já nem sequer há estrelas, com pretendentes espalhadas pelos quatro cantos da pista e paparazzi comprados para calar a boca. Que diabo: nem sequer com Lewis Hamilton, que é mestiço como Barack Obama e Tiger Woods, a fórmula 1 conseguiu criar uma verdadeira estrela.&lt;br /&gt;
Ainda bem que Filipe Massa e Tim Glock estão bem e não tardam em pista de novo. Eles são os heróis possíveis do tempo mais penoso daquele que já foi um desporto apaixonante. Já agora, no entanto, bem podíamos ter poupado a irradiação a Briatore, o mandante do tal crime de lesa-burocracia. Ele era Dick Dastardly, o patife que, com ou sem o seu infiel cão Mutley, ainda ia transformando a fórmula 1 num desporto minimamente imprevisível. Agora, e em vez das &amp;ldquo;Corridas Loucas&amp;rdquo;, temos uma série de &amp;ldquo;Noddys&amp;rdquo; ao volante dos seus táxis amarelos.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size: smaller;"&gt;&lt;b&gt;CRÓNICA (&amp;quot;Muito Bons Somos Nós&amp;quot;). NS', 17 de Outubro de 2009&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-10-10T23:41:48</issued>
    <title>Bem-vindos de volta às cavernas</title>
    <published>2009-10-10T22:47:42Z</published>
    <updated>2009-10-10T22:47:42Z</updated>
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    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img width="300" vspace="3" hspace="3" height="300" border="3" align="left" src="http://1.bp.blogspot.com/_vjkwKGRUFgQ/SrEWEVOASJI/AAAAAAAAAS4/tZ5dv43UgVE/s320/vegetarian.jpg" style="border-color: black;" alt="" /&gt;Juro-vos: eu não queria escrever esta crónica. Não agora. Malhar nos vegetarianos é tão fácil que chega a ser cobardia &amp;ndash; e um homem precisa de ter uma ou duas crónicas cobardes de molho para a eventualidade de, em semana de maior aflição, todas as demais falharem. Mas não resisto. Jornais e televisões, rádios e sites, redes sociais e spamming: toda a gente se esforçou, nos últimos dias, por recordar-me a passagem de mais uma Semana Mundial Vegetariana, incluindo o Dia Mundial do Vegetarianismo. E, portanto, aqui vai. Quem vier atrás que feche a porta. Na verdade, eu estava desertinho.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Assim por alto, devo dizer que acho o vegetarianismo (qual é aquela palavra?) uma idiotice. Tanto quanto sei, a maior parte dos vegetarianos aderiu à moda por razões de natureza (passe a redundância) naturalista. Ora, Deus (ou o Big Bang, ou o demónio, que sei eu?) fez-nos omnívoros, com necessidade de comer um tanto de tudo &amp;ndash; e &lt;b&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;&lt;span style="font-size: larger;"&gt;um vegetariano, para poder sobreviver, tem de andar a tomar comprimidos (chamam-lhes &amp;ldquo;suplementos&amp;rdquo;, ao que sei) com doses cavalares de ferro, zinco, magnésio, sódio e potássio, entre outros nutrientes em que a carne é rica. Não me parece lá muito (como é que se diz agora?) biológico&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;. Quer dizer: um comprimido com uma dose de vitaminas do complexo B equivalente à de 37 bifes do lombo &amp;ndash; parece-lhe natural, isso?&lt;br /&gt;
Entretanto, e a acreditar no triunfalismo com que foi assinalado mais um dia mundial da dita religiãozinha, &amp;ldquo;há cada vez mais portugueses&amp;rdquo; (é o que leio por todo lado, ipsis verbis) vegetarianos. Vegetarianos ou semi-vegetarianos (também ditos pixo-vegetarianos), que são aqueles que admitem o consumo esporádico de peixe ou marisco &amp;ndash; mas que também contam para o campeonato. Acho bem que contem: para mim, não fica ninguém de fora. Não vale a pena sermos fundamentalistas. Sei-o por experiência própria:  não é por ter deixado de fumar que me furto a um ou outro bafinho em dia de festa, a uma ou outra cigarrilha em momento de maior loucura &amp;ndash; e, no entanto, faço questão de continuar a contar como não fumador (ou, vá lá, pixo-não fumador).&lt;br /&gt;
De qualquer maneira, não é apenas por dedução que se diz que os vegetarianos têm aumentado entre nós. De facto, Portugal está um rectangulozinho cada vez mais tonto &amp;ndash; e, portanto, o mais natural é que tenha mais vegetarianos também. Mas há igualmente dados estatísticos. Segundo um inquérito online conduzido pelo insuspeito Centro Vegetariano,  aliás, os devoradores de vegetal podem mesmo atingir, por esta altura, cerca de 40% da população portuguesa. Pronto, pronto, não devemos acreditar em todas os inquéritos online. Da última vez que levámos em linha de conta um inquérito online, já andávamos a apregoar que a taróloga Maya (que saudades eu tinha de citar a taróloga Maya) era a portuguesa mais sexy, esquecendo-nos de que ainda existe a senhora dona Júlia Pinheiro. Mas, quer dizer, sempre hão-de querer dizer alguma coisa, estes inquéritos.&lt;br /&gt;
E os resultados, apoiados em 589 respostas de portugueses e portuguesas, trazem-nos algumas conclusões expectáveis e outras tantas (rufem os tambores) impressionantes. Motivos ético-filosóficos, motivos de saúde, mesmo simples motivos económicos &amp;ndash; as razões que levam as pessoas ao vegetarianismo são da mais diversa ordem. Mas eu permito-me destacar um dado: aquele que diz que, em cada 100 portugueses vegetarianos, 26 são-no por &amp;ldquo;razões espirituais&amp;rdquo;. É um número inesperado &amp;ndash; e que, tanto quanto sei, surpreendeu o próprio Centro Vegetariano. Mas, enfim, talvez não tenha sido muito sensato despachar o inquérito quase todo nas lojas de mobiliário da Almirante Reis (sobretudo sem o cuidado de sublinhar que estavam em causa todos os tipos de carne, não apenas a de vaca).&lt;br /&gt;
E, pronto, assim se passou mais um dia mundial: o dia mundial que recordarei para sempre como aquele em que descobri que até para gatos já há comida vegetariana. Entretanto, porém, fiquei com uma dúvida. Perdão, duas. Primeira: se ninguém comesse carne, será que continuaríamos a criar vacas, ou deixaríamos simplesmente extinguir a espécie? Segunda: e, se ninguém comesse carne e a criação continuasse, não se tornariam as vacas tantas  (e, aliás, tão pouca a relva, ainda por cima disputada connosco) que não lhes restaria outra solução senão tornarem-se carnívoras, acabando, então sim, por serem elas a devorarem-nos a nós? Bom, nesse caso, não será boa ideia deixar amaricar os gatos: vamos precisar de tantos aliados quanto pudermos arranjar , que a guerra prevê-se dura.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size: smaller;"&gt;&lt;b&gt;CRÓNICA (&amp;quot;Muito Bons Somos Nós&amp;quot;). NS', 10 de Outubro de 2009&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-10-03T23:15:20</issued>
    <title>Todorov de pernas para o ar</title>
    <published>2009-10-04T00:25:24Z</published>
    <updated>2009-10-04T00:25:24Z</updated>
    <category term="crónica"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img width="300" vspace="3" hspace="3" height="197" border="3" align="left" src="http://1.bp.blogspot.com/_Hz7BB0dIW-w/Sq5yJ09pl-I/AAAAAAAACIk/JC8l21wPyv0/s400/Paulo+Portas.jpg" style="border-color: black;" alt="" /&gt;Não são propriamente um mistério, as razões por que as sondagens eleitorais falham. As sondagens eleitorais falham porque o objecto das ciências sociais, tal como de resto o seu sujeito, é o homem posto em sociedade &amp;ndash; e, como se sabe, não há coisa mais volúvel, volátil e demais qualificativos-graves-usados-como-eufemi&lt;wbr /&gt;smo-para-o-esdrúxulo-esquizofrénico do que o homem posto em sociedade. De resto, quem quer que tenha tido um papel mais ou menos activo numa sondagem sabe-o bem: os inquiridos mentem um bocado, os inquiridores têm tendência para inventar outro tanto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu próprio participei, aqui há uns anos, numa macacada dessas. Recrutado como entrevistador no âmbito da cadeira de Introdução à Metodologia das Ciências Sociais, cujo regente era candidato à Câmara de Lagos, rumei ao Algarve numa carrinha apinhada de rapazes e raparigas, que saiu de Lisboa à cinco da tarde e, por volta da meia noite, ainda não tinha passado a Serra do Caldeirão. (Isto antes da auto-estrada, eis como estou velho).&lt;br /&gt;
Resultado: foi tão longa a jornada que, à falta de outro entretém, nos apaixonámos todos uns pelos outros ainda antes de chegar a território algarvio. E, se no dia seguinte ainda realizámos alguns inquéritos, depois de uma segunda noite a cirandar entre as diferentes acomodações da residencial já eram tais as pressas e as agendas que, parando nós  num café para descansar as pernas entre duas entrevistas, logo saltava de uma janela um mecânico de 45 anos, caía de um telhado um pescador de 39 e irrompia de um bueiro uma escriturária de 52, todos fictícios, mas todos dispostos não só a responder rapidamente ao formulário como, ainda por cima, a votar no adorado professor que nos proporcionava aquela folia.&lt;br /&gt;
Nem tudo bateu certo, claro: com mais de 30 por cento de votos no inquérito, o senhor acabou por ficar aquém (salvo erro) dos três por cento nas urnas. Mas lá teve a sua sondagem &amp;ndash; e, durante umas semanas, andou feliz. Ele o CDS, o partido por que se candidatava.&lt;br /&gt;
Estou a caricaturar? Tudo bem. Por outro lado, as sondagens nunca acertam com a votação do CDS. Nas Legislativas e nas Europeias, nas Autárquicas e nas Regionais &amp;ndash; candidate-se o CDS-PP àquilo que se candidatar, não há uma previsão que sequer se aproxime do seu resultado efectivo. E a pergunta é: porque é que, na hora de responderem às sondagens, os portugueses nunca dizem que vão votar no partido de Paulo Portas?&lt;br /&gt;
Rodeado de amigos para acompanhar a noite eleitoral na TV, lancei o tema a debate: &amp;ldquo;Será o quê, malta &amp;ndash; será vergonha?&amp;rdquo; Apareceram várias teses. Numa delas, um bocado teoria-da-conspiração, tudo não passava de uma estratégia montada pelo próprio Portas, que instruía os apoiantes a fingirem-se mortos só para poder declamar, na noite do tira-teimas, um inflamado discurso de vitória. Noutra, é vergonha mesmo: as pessoas vão dizer que votam CDS, mas lembram-se das delicadas posições do partido sobre os imigrantes e do seu constrangedor silêncio a propósito do aquecimento global &amp;ndash; e decidem dizer, antes, que vão votar no BE.&lt;br /&gt;
Noutra ainda, é tudo a gozar: são os votantes CDS a dizer que vão votar num partido diferente, só para judiarem com os entrevistadores. A minha preferida é aquela em que o cidadão anuncia: &amp;ldquo;Vou votar CDS-PP&amp;rdquo;, mas o técnico olha para ele, surpreso, e logo abre um sorriso cúmplice, seguido de palmadinha: &amp;ldquo;Vá lá, estou a falar a sério&amp;hellip;&amp;rdquo; E há uma em que o diálogo ainda nem sequer acabou (isto hoje, quase uma semana depois das eleições): &amp;ldquo;Em quem vai votar?&amp;rdquo; &amp;ldquo;No CDS.&amp;rdquo; &amp;ldquo;Ora, muito bem, mais um para o PS, lá-rá-ri&amp;hellip;&amp;rdquo; &amp;ldquo;CDS!&amp;rdquo; &amp;ldquo;Isso, PS.&amp;rdquo; &amp;ldquo;CDS! Eu disse CDS!&amp;rdquo; &amp;ldquo;Sim, já percebi, não sou surdo: PS.&amp;rdquo;&lt;br /&gt;
Pois é pena. Ao contrário de ambos os partidos no limite oposto do espectro político (e estes por diferentes razões), &lt;span style="font-size: larger;"&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;&lt;b&gt;o CDS tem provas dadas na estabilização do governo &amp;ndash; e em dois períodos históricos distintos. No meio de tanta crise, de tanta chatice e de tanto imposto, dar-lhe a tarefa de fiel da balança da próxima legislatura talvez tenha mesmo sido um gesto de especial sensatez por parte dos portugueses&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;. Por outro lado, deus nos livre de sermos apanhados de caneta na mão, sobretudo antes dos oitenta, a fazer uma cruz à frente de um quadrado azul e amarelo. Os psicólogos haveriam de identificar aqui algum complexo resultante daquilo a que Todorov chamou &amp;ldquo;memória do mal, tentação do bem&amp;rdquo;. Pois eu acho que é mais simples do que isso: em política, o bom-senso nunca meteu estilo nenhum.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-size: smaller;"&gt;&lt;b&gt;CRÓNICA (&amp;quot;Muito Bons Somos Nós&amp;quot;). NS', 3 de Outubro de 2009&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-09-26T23:05:10</issued>
    <title>Qu’é que eu sou? Qu’é que eu sou?</title>
    <published>2009-09-27T15:13:31Z</published>
    <updated>2009-09-27T15:13:31Z</updated>
    <category term="crónica"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img width="300" vspace="3" hspace="3" height="508" border="3" align="left" src="http://partywiththis.com/images/P/BurgerKingCostume49376.jpg" style="border-color: black;" alt="" /&gt;De todas as notícias, especulações e acusações esgrimidas ao longo desta campanha eleitoral, a mais relevante foi provavelmente a de que o Partido Popular Monárquico morreu. Quer dizer, tanto quanto se sabe, o bom do PPM ainda vai aparecer nos boletins eleitorais de amanhã. Mas o seu site oficial só serve agora para promover os fadinhos dos irmãos Câmara Pereira &amp;ndash; e os seus tempos de antena, como já alguém sublinhou, não foram ocupados por outra coisa senão um símbolo mudo, que apesar de tudo prometia ter efeitos menos perniciosos na votação do partido do que teriam tido os ditos fadinhos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Adiante. Passei uma boa parte da minha vida a militar contra a monarquia. Nado pelintra, entendi que talvez não me favorecesse deixar colarem-me à testa um ferro em brasa com as insígnias: &amp;ldquo;Este senhor está autorizado a viver, mas vai ter de aprender maneiras. De resto, não pode ser chefe de Estado, levantar muita guedelha ou aparecer nas revistas de sociedade em geral.&amp;rdquo; Para mim, no fundo, a monarquia foi sempre um sistema um bocado obsoleto, baseado no privilégio gratuito de uns e na ostracização ostensiva dos restantes, incapaz de promover o mérito, a mobilidade social ou sequer a democracia (a não ser, claro, no sentido em que o orçamento da família real e seus cortesãos é a dividir por toda a gente em partes iguais).&lt;br /&gt;
Pois o tempo veio a fazer-me mudar completamente de ideias. No fundo, já lá estava a centelha há muito: nasci e cresci na ilha Terceira, sempre gostei da minha touradinha. Mas é mais do que isso: hoje em dia, eu acho mesmo que a monarquia era o melhor que podia acontecer-nos. De resto, porque haveria eu de querer avançar para chefe de Estado? Isto, em Portugal, um tipo candidata-se a um cargo público e logo dá por si a ser entrevistado pela Maria Flor Pedroso, que faz perguntas e tudo.&lt;br /&gt;
De forma que a minha esperança reside agora toda nos rapazes do 31 da Armada. Vocês sabem: aqueles que penduraram uma bandeira do Portugal monárquico na Câmara de Lisboa, desencadeando uma série de outras drapejantes manifestações e disputas. Aqueles do blog. Aqueles do escadote. Aqueles da máscara do Darth Vader, caramba. Pronto: os únicos portugueses que se têm preocupado em celebrar o centenário da República. Ah, bom.&lt;br /&gt;
A minha única dúvida é se os ditos rapazes estarão na disposição de dar o passo decisivo: avançar directamente para a monarquia absoluta. É que isto da monarquia constitucional é muito bonito, mas no fundo é para meninos. Então uma pessoa tem um rei e, depois, o desgraçado do homem tem de andar a pedir aos santinhos todos, de repartição em repartição, só para conseguir aprovar o mais banal morgadio, o mais inofensivo dízimo? Então uma pessoa tem um rei e, depois, o desgraçado tem de andar à cata de escutas debaixo da almofada do trono, sob o brasão incrustado no ceptro, disfarçado de opala no aro central da coroa?&lt;br /&gt;
Pois, &lt;b&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;&lt;span style="font-size: larger;"&gt;por mim, suspende-se a democracia: é monarquia absoluta e pronto (quando muito, vá lá, um nadinha esclarecida, à maneira do Iluminismo, que é para deixar os paparazzi tirarem fotografias). De resto, fica tudo resolvido. Poupa-se um balúrdio em eleições &amp;ndash; e, sobretudo, poupa-se imenso nas campanhas eleitorais. Imenso dinheiro e imensa vergonha&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;. Poupa-se o público às reportagens e às entrevistas &amp;ldquo;intimistas&amp;rdquo;. Poupa-se os feirantes aos beijos lambuzados e aos bonezinhos de mau gosto. E poupa-se os políticos às aparições penosamente engraçadinhas em programas de humor.&lt;br /&gt;
Na pior das hipóteses, sai-nos como el-Rei D. Duarte Pio. Ainda teríamos ao nosso alcance, claro, a figura da monarquia absoluta auto-proclamada. Mas mesmo D. Duarte Pio a tempo inteiro, 24 horas por dia, perorando sobre o estado da vinha e deixando-se fotografar para a Ana + Atrevida &amp;ndash; mesmo isso será amplamente preferível ao suposto sentido de humor de Sócrates, à alegada telegenia de Ferreira Leite, à escoante química de Paulo Portas, à discutível energia de Jerónimo de Sousa e às comprovadas fugas de Francisco Louçã das peixeiras que querem osculá-lo.&lt;br /&gt;
E, pronto, é assim: inventam isto do período de reflexão, um tipo põe-se a reflectir e não tarda está a roçar a violação da lei eleitoral. Retiro tudo o que disse, pois: o que eu queria mesmo era, hum, uma monarquia cá em casa. Bom: até já há, mas eu sou apenas o príncipe consorte. Não é mau de todo: se à rainha chamo princesa, fazendo-a sentir-se jovem e enérgica, logo sou alvo do favor real. Mas quem me dera ser o rei. Será que o PPM está à venda, como um dia esteve o PRD?&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: right;"&gt;&lt;b&gt;CRÓNICA (&amp;quot;Muito Bons Somos Nós&amp;quot;). NS', 26 de Setembro de 2009&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-09-19T19:24:36</issued>
    <title>A lei da oferta e da oferta</title>
    <published>2009-09-19T18:27:59Z</published>
    <updated>2009-09-19T18:27:59Z</updated>
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    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img width="300" vspace="3" hspace="3" height="437" border="3" align="left" src="http://www.ilga-portugal.pt/imagens_artigos/noticias/naked_boys.jpg" style="border-color: black;" alt="" /&gt;Oito rapazes. Dezasseis canções. Zero peças de roupa. Se algum espectáculo permitiu, para já, que se proclamasse o regresso da rentrée, esse espectáculo foi Rapazes Nus a Cantar, musical em cena no Casino Estoril. E no entanto, désolée les filles, os cantantes desnudos são gays. Não talvez os actores (embora eu duvide de que haja muita gente disposta a pôr as mãos no fogo por eles), mas pelo menos as personagens.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Alguma surpresa? Claro que não. Se os ditos oito rapazes fossem heterossexuais, tudo não passava, bem vistas as coisas, de strip masculino (e, para strip masculino tout court, já basta a vida). Tratando-se de gays, pelo contrário, é arte. &amp;ldquo;Afastem de mim a nudez gratuita!&amp;rdquo;, parece, aliás, gritar o encenador Henrique Feist, batendo no peito. &amp;ldquo;A nudez, aqui, também é metafórica&amp;rdquo;, diz ele. &amp;ldquo;Simboliza o quão despidos nos  sentimos quando falamos de assuntos como a perda e o amor.&amp;rdquo;&lt;br /&gt;
E eu, que costumo passar o mês de Setembro pelas ilhas, lá tenho de esperar pacientemente por tão transformadora experiência. Pois não demoro: mais uns dias e já estou em Lisboa &amp;ndash; e, ao chegar, é atirar as malas para um canto, pegar no automóvel e rumar ao Estoril. Afinal, é Henrique Feist quem me garante: o valor artístico do espectáculo é de tal monta que é bem possível, a certa altura, um espectador dar mesmo por si esquecido de que aqueles rapazes estão nus. &lt;br /&gt;
Pois eu quero fazer esse teste: pôr-me ali a olhar para aqueles rapazes nus a cantar, tão-ba-la-lão, tão-ba-la-lão, e entretanto ir pensando no amor e na perda. Se não o conseguir, há sempre alguma coisa que se aprende, até porque se trata de &amp;ldquo;oito rapazes despidos de preconceitos&amp;rdquo;, reunidos &amp;ldquo;num espectáculo sem tabus&amp;rdquo; onde &amp;ldquo;ninguém tem nada a esconder&amp;rdquo;, como me recordaram, ao longo das últimas duas semanas, dezenas e dezenas de reportagens de jornais e revistas.&lt;br /&gt;
(&amp;ldquo;Leve um relógio, para ver quanto tempo os órgãos sexuais masculinos ficam na sua retina&amp;rdquo;, chegou a arriscar o repórter de um diário nacional, entusiasmado, mas eu prefiro deixar que sejam os médicos a decidir se o problema é mesmo da retina ou se não será, por exemplo, do relógio, alguma cebola a precisar de pilha).&lt;br /&gt;
Entretanto, porém, assalta-me a pergunta: mas ainda haverá procura para tanta oferta? Quer dizer: ainda haverá mercado para tanta iconografia gay? Garantem-me uns quantos que sim: que, se alguma coisa contribuiu para uma tão grande sobre-representação da homossexualidade na pintura, na literatura, nas artes de palco e na própria historiografia, foi a gulodice dos heterossexuais pelo tema.&lt;br /&gt;
Faz sentido. Na verdade, nunca houve tantos gays na vida real como na arte. Hoje em dia, gostamos muito de dizer que os gregos eram todos homossexuais &amp;ndash; e, no entanto, apenas a elite da Pólis exercitava a homossexualidade, que as hordas tinham bem mais com o que se preocupar. O mesmo com os mestres renascentistas e os seus aprendizes, séculos e séculos mais tarde. E o mesmo, de alguma maneira, com os burgueses do bairro Castro, mais uma série de séculos para a frente.&lt;br /&gt;
E, todavia, a homossexualidade sempre colheu. Sempre colou. Sempre se fez representar, como se na verdade retratasse uma tendência mais do que minoritária &amp;ndash; sempre vendeu a rodos, mesmo havendo apenas meia dúzia de homossexuais por centenas de habitantes.&lt;br /&gt;
Pois a minha questão é: continuará a vender? É que, entretanto, houve as paradas gay &amp;ndash; e, portanto, hoje em dia já ninguém acredita, no verdadeiro sentido de acreditar, que ser gay efectivamente represente uma virtude. E, entretanto, houve Cristiano Ronaldo também &amp;ndash; e, portanto, já toda a gente percebeu que a estética gay, incluindo os brincos de brilhantes e as malinhas a tiracolo e os saquinhos de pano da Calvin Klein e as havaianas brasileiras não são outra coisa senão pinderiquices bregas e deprimentes, vulgo &amp;ldquo;pimba&amp;rdquo;.&lt;br /&gt;
Por mim, &lt;b&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;&lt;span style="font-size: larger;"&gt;estou pronto a contribuir para uma marcha de orgulho hetero, que aliás faz tanto sentido como qualquer outro orgulho a pretexto de uma simples preferência sexual. Até já tenho uma reivindicação: que haja mais espectáculos com gente nua a cantar &amp;ndash; e que, de vez em quando, essa gente possa ser feita de pessoas, não de ícones&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;. Tenho a certeza de que, algures lá pelo meio, alguns rapazes gostarão de raparigas e algumas raparigas retribuirão o amor dos rapazes. No fim, talvez até haja perda &amp;ndash; e, então, é bem capaz de haver arte também, para grande surpresa de Henrique Feist.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: right;"&gt;&lt;b&gt;CRÓNICA (&amp;quot;Muito Bons Somos Nós&amp;quot;). NS', 19 de Setembro de 2009&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-09-12T15:43:01</issued>
    <title>Dá-me a tua camisola</title>
    <published>2009-09-13T14:46:25Z</published>
    <updated>2009-09-15T14:38:51Z</updated>
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    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img width="300" vspace="3" hspace="3" height="330" border="3" align="left" alt="" style="border-color: black;" src="http://arlindovsky.files.wordpress.com/2008/06/jose_socrates-c400.jpg" /&gt;Nunca votei em José Sócrates. Vindo da esquerda (esquerda bem esquerdinha, como aliás deve vir qualquer pós-adolescente com coração), fui votando todos os anos um partido mais à direita &amp;ndash; e, entretanto, arrastando-me cada vez mais penosamente em direcção às mesas de voto, incapaz de reconhecer qualquer boa-vontade, qualquer altruísmo, qualquer emoção entre essa desengraçada classe que se propõe gerir o nosso património comum.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Este ano, gostava de estar recenseado na Terra Chã, para poder decidir entre o Zé Luís e o Rómulo: entre uma linha mais urbana e outra mais rural, entre a possibilidade de ter à porta uma tourada de fama e a promessa de garantir para os nativos três ou quatro empregos na nova cadeia a construir no fim da freguesia &amp;ndash; e, sobretudo, entre o filho do sr. Bretão e o filho do sr. Weber (ou, melhor ainda, entre a educação que o sr. Bretão deu ao Zé Luís e a educação que o sr. Weber deu ao Rómulo, que é aquilo a que cada vez mais acho que as pessoas devem ser reduzidas).&lt;br /&gt;
Estando recenseado em Lisboa, resta-me votar em candidatos à Junta que não conheço e em candidatos à Câmara cujas prioridades estão no pólo oposto das minhas (tal como, de resto, já tinha de votar em candidatos a primeiro-ministro em que não me revejo, nem no discurso, nem na pose, nem no trajecto, nem na sensibilidade, nem em nada). No essencial, estou indeciso &amp;ndash; e, portanto, lá terei de decidir-me em cima da hora, como se vai tornando habitual. Mesmo assim, Sócrates é que será difícil. Quando Sócrates apareceu, já eu tinha passado por aquela região há algum tempo &amp;ndash; e, entretanto, ainda não consegui juntar dois bons argumentos para começar a fazer o caminho inverso.&lt;br /&gt;
E que importância tem isto tudo? Bom, nem mais nem menos importância do que saber que há aí pela imprensa um tipo que deixou de fumar, que fez nudismo durante uma tarde, que adora o seu iPhone, que desconfia de Paulo Bento, que come pipocas como um alarve e que deplora dejectos de cão, temas com os quais, no passado, já consegui atarefar-vos durante um bocado.&lt;br /&gt;
E, no entanto, &lt;b&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;&lt;span style="font-size: larger;"&gt;há quem o considere o mais importante de tudo: em quem vai votar Joel Neto? Em quem vai votar Paulo Alexandre? Em quem vai votar José Augusto? Em quem irá votar aquele tipo que chamou corruptos aos gajos do BPN? Que camisola veste aquele outro que dispõe de coluna fixa no Expresso?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt; E o que quererá dizer aquele outro ainda que usou a sua coluna no Público para chamar corruptos aos gajos do BPP e, &amp;ldquo;paradoxalmente&amp;rdquo;, pedir justiça no caso Casa Pia &amp;ndash; quererá ele dizer que vota PS ou PSD, que é de esquerda ou de direita, que está connosco ou contra nós?&lt;br /&gt;
Folgo em saber que de bom grado me receberiam na esquerda. Foi o que percebi na semana passada quando, depois de um ano a criticar o abjecto telejornal de Manuela Moura Guedes, me vi de repente no papel de amigalhaço do nosso Primeiro. No telefone e no email, no site e no FaceBook &amp;ndash; em todos os canais através dos quais alguém pode insultar-me, elogiar-me ou fazer-me chegar a informação de que me morreu uma tia rica e posso finalmente mandar os deadlines às urtigas, pingaram ao longo de uma semana mensagens de ódio ou afecto a propósito de um texto em que defendia a decisão da TVI. Para muitos, eu era afinal amigo. Para outros tantos, inimigo. Para todos, havia-me posicionado. Havia-me definido.&lt;br /&gt;
E eu fiquei estupefacto, porque pensava que seis anos de crónicas e artigos e comentários e críticas &amp;ndash; ainda por cima persistindo na ideia de que um homem só pode ser jornalista se for antes um cidadão, e portanto tiver ideias, perspectivas, parcialidades &amp;ndash; tinham chegado para definir-me. Afinal, não: faltava o clube. Não o do Sporting e do Benfica &amp;ndash; já se sabe que sou do Sporting. Não o do McIntosh e do PC &amp;ndash; já se sabe que sou do MacIntosh. Não o do jazz e da clássica &amp;ndash; já se sabe que sou do jazz. Não o do ISCSP e da Nova &amp;ndash; já se sabe que sou do ISCSP. Simplesmente, é mês de eleições. Faltava a política partidária.&lt;br /&gt;
Pois eu acho que este hábito não passa de cobardia: incapacidade de pensar pela própria cabeça &amp;ndash; e, entretanto, medo de ser apanhado na curva, pensando uma coisa que mais ninguém pensa. Embora os clubistas da esquerda e da direita se empenhassem em mostrar-me que Manuela Moura Guedes era um problema político, Manuela Moura Guedes nunca passou, para mim, de um problema fundamentalmente jornalístico. Só quando conseguiu dividir ao meio as melhores cabeças deste país se tornou num problema político. E isso tem muito mais a ver com a fragilidade das ditas cabeças do que com a força do dito fenómeno.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: right;"&gt;&lt;b&gt;CRÓNICA (&amp;quot;Muito Bons Somos Nós&amp;quot;). NS', 12 de Setembro de 2009&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-09-05T17:24:01</issued>
    <title>Let’s face it, Miguel</title>
    <published>2009-09-05T16:29:49Z</published>
    <updated>2009-09-05T16:53:52Z</updated>
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    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;img width="300" vspace="3" hspace="3" height="200" border="3" align="left" src="http://fotocache02.stormap.sapo.pt/fotostore02/fotos//d8/ed/2e/24656_000f1wgz.jpg" style="border-color: black;" alt="" /&gt;Na verdade, achei comovente o artigo de Miguel Sousa Tavares sobre o Facebook, publicado aqui há dias no Expresso. Para um articulista tão viciado na marcação da agenda mediática, atacar as redes sociais não mostra outra coisa senão falta de assunto. É uma fragilidade a que sou sensível. Especialmente em Agosto, em que não raras vezes a malta vai toda para a praia e um tipo fica fechado em casa, com a cabeça enfiada no motor, como que obrigado a representar o papel do último homem espirituoso à face da Terra.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu estou no Facebook, onde tenho mais de 500 amigos. Na verdade, não são meus amigos: é o computador que lhes chama assim. Ao todo, suponho, não conheço mais de uma centena deles. De qualquer forma, há de tudo. Daqueles interessantes, com um comentário assertivo sobre o que quer que apareça e sabedoria suficiente para calar a boca quando é hora de calar a boca; e também daqueles absolutamente tontos, povoados por nada, nada, nada &amp;ndash; e que, no momento de calar a boca, sempre descobrem um tema sobre que têm desesperadamente de desabafar.&lt;br /&gt;
Ao contrário de Miguel Sousa Tavares, prefiro estes. Quer dizer: converso melhor com os outros. Com a Ana Celeste, que me tem ajudado a reconciliar-me com uma das palavrinhas que mais me complicam com os nervos (&amp;ldquo;socióloga&amp;rdquo;). Com a Raquel, com quem tento fugir a conversas sobre música, para evitar humilhações. Com o Nuno, um dos melhores colegas que apanhei nos jornais; com o Francisco, o meu único amigo no poder; com o António, que nunca encontrei ao vivo mas cujos programas de rádio me acompanhavam na adolescência.&lt;br /&gt;
E, no entanto, são os tontos quem verdadeiramente me fascina. Nunca falamos. Nunca trocamos mensagens. Nunca trocamos ideias. Mas eles gostam de estar ali &amp;ndash; e eu, voyeur, vou às vezes às páginas deles. A maior parte dos posts são sobre nada: notícias de ovelhas tresmalhadas na quinta do Farmville, respostas a quizzes com nomes como &amp;ldquo;Que Fotografia da Taróloga Maya Seminua Mais Condiz Com a Tua Personalidade?&amp;rdquo; ou subscrições de causas intituladas &amp;ldquo;Salvem a Baleia Willy, que o Capitão Ahab Já a Tem Cercada Com o Seu Batmobile!&amp;rdquo; Se publicam uma foto, e embora seja sempre do filho recém-nascido ou da praia recém-visitada, já é um privilégio. Mas eu ali fico, scroll para baixo e scroll para cima, a magicar na pergunta a que às vezes, grosseirão, resumo o dilema de uma relação a dois: &amp;ldquo;O que é que eu oferecia a uma pessoa destas no aniversário?&amp;rdquo;&lt;br /&gt;
É que nada as inquieta. Nada as entusiasma. Nada as interessa. De todas as impressões com que se pode ficar de uma coisa, de uma pessoa, de uma situação, têm apenas duas possíveis: ou gostam ou não gostam. Nem sequer sabem bem porquê: é assim e pronto. A certa altura, um tipo publica um quadro de Rothko &amp;ndash; e comentam: &amp;ldquo;Oh, isto também fazia eu&amp;hellip; Detesto!&amp;rdquo; No dia seguinte, publica uma peça de Barber &amp;ndash; e desatam aos gritinhos: &amp;ldquo;Olha, a banda sonora do Platoon&amp;hellip; Adoro!&amp;rdquo; E eu, parecendo agora azedo, deliro. Deliro com as vidas santas delas. Mas deliro, principalmente, com o desafio que representam para mim.&lt;br /&gt;
&amp;ldquo;Que presente é que eu lhes daria no aniversário?&amp;rdquo;, pergunto-me. &amp;ldquo;E como poderia eu escrever um texto sobre uma coisa importante sem perder a atenção destas pessoas, cuja capacidade de concentração se assemelha à de uma barata?&amp;rdquo; Chamem-me nomes, se quiserem &amp;ndash; ou saiam do meu Facebook, se de repente se sentirem na dúvida e decidirem não ma perdoar. A verdade é que, quando um homem decide fazer de uma determinada coisa a sua vida toda, ou se empenha em alargar os limites dessa coisa ou essa coisa é apenas a lama que o engolirá. Ora, eu decidi trabalhar na comunicação &amp;ndash; e, se não fosse minha obsessão encontrar uma possibilidade de comunicação onde nenhuma comunicação haja sido estabelecida antes, mais vale (sei lá) ir para famoso, que sempre mata menos a cabeça.&lt;br /&gt;
&lt;b&gt;&lt;span style="color: rgb(128, 0, 0);"&gt;&lt;span style="font-size: larger;"&gt;O que eu estranho é que Miguel Sousa Tavares não tenha percebido isto. Sintetiza ele, grosseiro também, que o Facebook é para gente solitária, narcisista, mexeriqueira, fala-barato e fundamentalmente ignorante. Também o é, sim. Mas eu pergunto-me se ele faz ideia do tipo de pessoas que compram os seus livros às centenas de milhar&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;. É que &amp;ndash; sabe, Miguel? &amp;ndash; é a &amp;ldquo;pobre gente&amp;rdquo; (como o Miguel lhe chama) que se apaixona pelos seus livros. É a pobre gente despovoada que, no fim, lhe paga os safaris. De resto, o Miguel devia sabê-lo: há já alguns anos que vem escrevendo sobre ela, embora insista em muni-la de trejeitos romanescos e em dar-lhes nomes inspirados na lista telefónica de Cascais.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: right;"&gt;&lt;b&gt;CRÓNICA (&amp;quot;Muito Bons Somos Nós&amp;quot;). NS', 5 de Setembro de 2009&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;</content>
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